Domingo, 23 de Setembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1005
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CÓDIGO ABERTO > Desativado

E quem negou fogo à CPI?

Por Luiz Weis em 27/05/2005 | comentários

Quando a oposição emplaca um pedido de CPI, contra o qual o governo distribuía torrões de açúcar com a mão direita e estalava o chicote com a esquerda, nada mais adequado do que os jornais publicarem o nome dos parlamentares que, apesar de uma coisa e da outra, mantiveram as suas assinaturas no requerimento vitorioso.


Certo? Errado.


O leitor, que com razão ou sem está com os políticos pelas tampas e vê um corrupto sair toda hora do bueiro mais próximo, não quer saber – ou não quer saber apenas – quais foram aqueles que, no seu entender, não fizeram mais do que a porca obrigação.


É de presumir que o leitor-eleitor queira saber principalmente quais foram os políticos que contribuíram com o seu tijolinho para o muro de proteção aos corruptos que o governo se esfalfava em erguer.


A menos que uma pesquisa indique o que não passa pela cabeça de ninguém – que a maioria dos brasileiros torceu pelo êxito da operação-abafa do Planalto –, o que o distinto tem curiosidade de conhecer são os nomes dos que não assinaram o pedido da CPI.


Em tese, tem como saber. Desde que, munido da relação completa dos membros da Câmara e do Senado, dela risque os nomes dos que assinaram. Mas não se compra jornal para apurar o que o jornal não deu. E mesmo assim o trabalho ficaria incompleto.


Porque não chegaria aos nomes dos ilustres deputados e senadores que primeiro apoiaram e depois – deixando-se comprar ou intimidar pelo governo – desapoiaram a iniciativa, ou dela retirando o jamegão, ou autorizando por escrito os operadores do PT a fazê-lo em seu nome, se com isso de fato conseguissem que Inês fosse morta e enterrada.


Pelo que se lê hoje, Inês se salvou porque a tropa de choque do governo, tendo feito e refeito as contas, concluiu que não valeria a pena remover os autógrafos dos vira-casacas: mesmo assim o requerimento ficaria com oito ou nove firmas além do mínimo necessário.


Eles se desmoralizariam à toa, portanto. Mas a mera autorização já seria desmoralizante se todos os jornalões dessem os nomes aos bois. Isso ficaram devendo.


Dos três grandes, o débito menor é o da Folha. Embora incorrendo no mesmo erro do Estado e do Globo, ao não listar os contrários à CPI, ao lado da relação dos 236 favoráveis na Câmara e dos 52 no Senado, pelo menos identificou na página 6 os que deram o escrito pelo não escrito, fugindo da raia.


Da base aliada ma non troppo foram 11 petebistas, seis socialistas, cinco petistas, quatro liberais, dois pemedebistas e um pepista. Da oposição, foram dois: o tucano cearense Ariosto Holanda e o pefelista amapaense Davi Alcolumbre.


O Globo só nomeou os parlamentares do Rio pró-CPI, os cinco petistas que deram para trás – e o companheiro que topou que suprimissem a sua assinatura se isso ajudasse a acabar com a investigação (o ex-procurador carioca Antônio Carlos Biscaia).


Segundo o Estado, eram dois os petistas nesse banco de reservas: Biscaia e o mineiro Virgílio Guimarães – aquele da candidatura avulsa à presidência da Camâra, por isso mesmo recentemente suspenso das atividades partidárias por um ano.


Por que não arrolar todos os outros das demais legendas cujas firmas também foram traçadas com tinta removível? O Painel da Folha informa que cinco pefelistas tinham se oferecido para desistir na última hora. Por que não identificá-los?


É certo que os líderes do governo não estavam propriamente proclamando os nomes daqueles que se dispuseram a fazer parte desse avesso de estoque regulador. Mas o leitores não ficaram sabendo se os jornais correram atrás da turma e deram com a cara na porta.


Enfim, dá saudade das Diretas-Já. Não só por causa do bom ar que se respirava naqueles tempos, mas – especificamente – porque no dia seguinte à derrota do projeto (por falta dos votos para obter a necessária maioria de 3/5 dos congressistas) a imprensa caprichou em divulgar a lista completa dos que ficaram de um lado e de outro.


À época os jornais achavam que o povo precisava saber quem tinha ficado com a ditadura. Agora, acharam dispensável informar quem ficou contra a apuração parlamentar de um flagrante de corrupção no governo do partido que reivindicava o monopólio da ética na política.


P.S. adicionado às 10:58 de 28/5, com desculpas pela demora: os jornais continuam omissos, mas os nomes dos que não assinaram o pedido da CPI e os dos que assinaram e desassinaram, além dos que assinaram e mantiveram as assinaturas, estão desde a madrugada de anteontem na internet, graças ao diligente – e premiado – blogueiro Ricardo Noblat. Aos interessados, o caminho das pedras é http://noblat.blig.ig.com.br/2005_05.html

Todos os comentários

  1. Comentou em 27/05/2005 Xikito Affonso Ferreira

    Luis Weis trai-se ao evocar como servindo de exemplo as Diretas-já. Nos idos dos anos 80 tratava-se de uma campanha apenas enquanto o PT em 2005 tem que governar, daí o despropósito de sua comparaçao.

  2. Comentou em 27/05/2005 Rinaldo

    Gostaria que meu deputado tivessea a postura ‘estranha’ do Senador Eduardo Suplicy, mas ele não teve!! qual o limite da ética e da fidelidade ao partido? Como eleitor, do PT desde 89, neste momento que vá para a cucuia a fidelidade!! Quero mais que o governo do PT pague o onus de ser governo e deixe se investigar!! Como poderei, no futuro defender CPI contra um governo que não elegi se agora estivesse me postasse contra esta!! Esta é minha cabeça de eleitor! Quem entederá a cabeça dos eleitos???

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