Domingo, 16 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1017
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Empresário acusa jornalista que matou

Por Luiz Weis em 17/01/2006 | comentários

Sob o título “Jornalista assassino está à solta em São Paulo”, o Jornal do Brasil de domingo chamou na primeira página um conjunto de matérias aparentemente legítimas sobre o que seria o confortável cotidiano do jornalista Antônio Marcos Pimenta Neves, 68 anos, enquanto espera ser julgado pela morte, a tiros, da namorada que o deixou, Sandra Gomide, há quase seis anos.

Só no final do terceiro dos quatro parágrafos do extenso texto de 379 palavras, o leitor encontra uma pista para a razão de ser das reportagens, publicadas, aliás, sem assinatura:

“Sexta-feira, a Polícia do Rio abriu investigação contra Pimenta e outros dois jornalistas, por autoria e divulgação de dossiê falsificado e apócrifo, usado em disputas empresariais. Ele será chamado a depor em breve.”

Nas páginas internas, o JB dá um pacote de matérias ao assassino. No quinto parágrafo da principal, “Assassino cultiva o ócio”, com o sub-título “Matador confesso da jornalista Sandra Gomide, em 2000, o ex-diretor de O Estado de S. Paulo aproveita a vida longe da cadeia – os outros títulos são “Caçada sem limites”, “Tolerância com tiranias” e “Pimenta na mira da Polícia” –, enfim o leitor fica sabendo do porquê das coisas:

“A Polícia Civil vai investigar a autoria e divulgação de dossiê apócrifo que contém falsificações contra o empresário Nelson Tanure, presidente do Jornal do Brasil e da Gazeta Mercantil. A fraude circula pelos bastidores da imprensa há pelo menos 5 anos, mas poucas vezes serviu de fonte para textos jornalísticos. No meio empresarial, acreditava-se que o dossiê havia sido forjado com o objetivo de influenciar nas disputas que envolveram a venda do Banco Boavista.”

E logo abaixo:

“O que chamou a atenção da Polícia, no entanto, foram reportagens assinadas pelos jornalistas Lourival Sant´Anna e Alberto Komatsu, nas edições de 18 e 19 de dezembro do ano passado, de O Estado de S. Paulo. Os textos reproduzem trechos do dossiê.”

A reportagem afirma que Tanure “alertou” por carta o diretor do Estado, Ruy Mesquita, “para a existência e utilização dos papéis falsificados”. Como isso deu em nada, segue o relato, o JB entrou com notícia-crime na polícia carioca. Sempre segundo o jornal, o delegado responsável decidiu intimar Pimenta, Lourival e Alberto “para saber o que essas pessoas conhecem sobre o dossiê”. O trabalho, diz a matéria “pode levar os acusados à cadeia”.

Depois de afirmar que, “no ano do assassinato de Sandra Gomide”, Lourival respondia diretamente a Pimenta no Estado, o texto emenda, subitamente:

“O mercado de mídia, à época, estava agitado em torno do controle do jornal Gazeta Mercantil, diário do qual Pimenta fora diretor de 1995 a 1997. Ele tinha conhecimento detalhado da operação administrativa e editorial da Gazeta. Acreditava que o Estadão faria bom negócio se assumisse o maior jornal de economia do Brasil. Mas, em 2003, a Editora JB venceu a disputa e arrendou a marca Gazeta Mercantil por 60 anos.”

Na carta que diz ter enviado a Ruy Mesquita, Tanure escreve que Alberto Komatsu entrou com ação trabalhista contra a sua empresa que edita o JB, dando a entender que por isso a sua principal fonte é um “odioso material apócrifo” – alegadamente, um dossiê “manufaturado por adversários empresariais” há cinco anos.

Homem de negócios sobre quem os juízos de valor nem sempre são lisonjeiros, Tanure nega que alguma vez tenha comprado e não pago, vendido e não entregue, como se lê na reportagem “O vôo turbulento do capitão Tanure”, de Lourival Sant’Anna, de 18 de dezembro – para a qual declara não ter sido ouvido.

O empresário assegura não ter “qualquer ingerência no conteúdo dos jornais [sob o seu controle], a ponto de eu nunca ter ido fisicamente às Redações” – como se uma coisa dependesse da outra.

De todo modo, ontem, o JB publicou o editorial “Assassinato e fraude”. Editoriais, como se sabe, exprimem a opinião dos donos do órgão de mídia que as publica.

Como o título já permite deduzir, nas suas 570 palavras o editorial trata de associar o crime de morte cometido por Pimenta – erroneamente identificado no primeiro parágrafo como “ex-chefe da editoria de Economia da publicação paulista” – com “as artes da falsificação” em que ele e Lourival, ao que “tudo indica”, teriam supostamente se esmerado.

Ao assassinar premeditadamente a ex-namorada Sandra Gomide, por vingança, Pimenta merece o que de pior se possa dizer sobre o seu caráter. Mas a mistura de “assassinato e fraude” servida pelo JB é suspeita. Passa a impressão de que o jornal de Tanure foi usado para uma operação eticamente duvidosa.

O que os jornalistas Pimenta, Lourival e Alberto possam ter feito de condenável contra o empresário – o que ainda precisa ser comprovado – não se torna mais grave pelo fato de o primeiro ser um assassino. Por isso o editorial deixa claro a que vem quando, imediatamente depois de assinalar que o primeiro “agora é investigado” no caso do dossiê e que o segundo “também estará na mira da polícia”, termina com as seguintes palavras:

“João Gomide, o sofrido pai de Sandra, com quatro pontes de safena, uma perna amputada e os movimentos tolhidos, espera pela Justiça. Para enterrar, definitivamente, a filha. Com dignidade.”

P.S.O JB voltou hoje à carga contra Lourival Sant´Anna. Leia no blog Em cima da mídia, ao lado.

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