Sábado, 18 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

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Entrando na era das paredes de vidro

Por Carlos Castilho em 10/05/2011 | comentários

Quem se deu ao trabalho de observar as manchetes de notícias sobre internet publicadas nos últimos dez dias deve ter verificado que a maioria delas não era sobre novas tecnologias, mas sim sobre a algo ligado ao quotidiano de mais de um bilhão de usuários da web.

O tema do fim de privacidade individual ganhou uma enorme visibilidade e relevância, mostrando que a agenda envolvendo internet e computação está se deslocando cada vez mais para as questões sociais, politicas e econômicas ligadas à nova realidade digital. É mais uma etapa na transição para uma sociedade em que novas formas de organizar a produção provocam mudanças de comportamentos e valores.


O ataque ou defesa da privacidade estiveram no centro de acusações do criador do site Wikileaks contra a rede social Facebook, do governo da Coréia do Sul contra o mecanismos de buscas Google, de usuários contra as locadoras de vídeo nos Estados Unidos, dos compradores de produtos Sony contra a empresa e esta contra suspeitos de invadir a PlayStation Network, bem como a campanha contra a criação de uma superagência estatal vigilância da web na China.


A guerra em torno das informações pessoais existentes na web começa a centralizar os conflitos de interesse na rede, num processo cujo desfecho ainda é impossível vislumbrar.


O polêmico Julian Assange, criador do site Wikileaks, acusou a rede social Facebook de disponibilizar dados dos seus mais de meio bilhão de usuários para os serviços de inteligência dos Estados Unidos. Assange chegou a classificar a maior rede social da internet como “a mais completa máquina de espionagem já inventada pelo homem”.


Esta acusação foi parcialmente endossada por grupos de ativistas britânicos que acusaram a Facebook de eliminar dezenas de perfis de pessoas e grupos durante o feriado que começou com o casamento do príncipe William e se prolongou pelo 1 de maio. Os ativistas alegam que a medida foi ideologicamente orientada, enquanto a rede Facebook afirma que ela é uma medida burocrática para corrigir falhas no registro de perfis.


Os conflitos envolvendo a Facebook são cada dia mais frequentes porque a rede passa a ter uma influência crescente nas polêmicas online por conta dos seus mais de meio bilhão de usuários.


É óbvio que com tanta gente conectada, a diversidade de problemas está diretamente relacionada aos interesses de cada criador de um perfil na rede social. Em fevereiro do ano passado, a Facebook fechou trinta perfis operados por presos ingleses que usavam a rede para intimidar desafetos.


A questão da privacidade no Facebook já é antiga porque em pelo menos três oportunidades anteriores o site tentou alterar as regras de proteção aos dados pessoais para alavancar a venda de publicidade, mas precisou voltar atrás por pressão dos usuários.


O caso da Sony virou um imbróglio internacional depois que a empresa acusou um programador de invadir o banco de dados da rede de usuários do jogo online PlayStation. A empresa japonesa foi processada por usuários cujos dados pessoais teriam sido capturados pelos invasores e acabou entrando na mira do governo norte-americano sob a suspeita de proteção deficiente às informações fornecidas por jogadores.


No Coréia do Sul, a polícia local invadiu os escritórios da Google no país para verificar denúncias de que o site de buscas havia recolhido informações pessoais de 600 mil usuários da internet móvel via celular sem consultá-los. As informações estariam sendo utilizadas pelo sistema de publicidade AdMob, criado pela empresa Google, para vender anúncios em telefones celulares.


Nos Estados Unidos, dois membros do Congresso norte-americano anunciaram a apresentação de um projeto de lei regulando a captura de dados fornecidos por adolescentes depois que uma pesquisa mostrou que os jovens são os principais responsáveis pelo vazamento de informações sobre seus pais e parentes próximos. Os adolescentes dificilmente adotam medidas de proteção da privacidade e são muito vulneráveis à propaganda online.


Situação similar está sendo investigada no caso das empresas norte-americanas de locação de computadores, depois que foi descoberto o caso de uma delas que inseriu nos equipamentos um sistema de identificação dos sites visitados pelo locatário. As empresas alegam que fazem isso para defender-se de vírus, mas o argumento da violação da privacidade pesa mais no veredicto dos juízes.


O certo é que com tantos casos pipocando a todo instante, a questão tende a ocupar cada vez mais espaços na mídia, intensificando um debate que ainda vai durar muito. Afinal, estamos ingressando numa era onde a ideia das paredes de vidro deixou de ser uma mera imagem literária.

Todos os comentários

  1. Comentou em 15/05/2011 Jaime Collier Coeli

    Pois é, prezado confrade aposentado (e vicentino). Mas não creio que sejam de fato autoritários. Parecem-se mais com funcionarios de supermercado com a maquininha de remarcação de preços, trabalhando por inércia. Imagino algo do tipo na China e o classificador enfrentando o árduo problema de escolher o rótulo, na crise psicologica de definir a disjunção de interesses: fala mandarim ? Terá sido adepto de Confucio ou da camarilha dos 4? É esoterico ou exoterico? Deve ser um sofrimento de dar pena.

  2. Comentou em 13/05/2011 wilson silva

    Já estavamos em 1984 antes da data, por algum meio somos ‘policiados’ porém quem me policiar vai cair no samba do criolo
    doido, pois na internet acesso sites da direita, do centro, da esquerda,
    do alto, do baixo e por isto que o bisonho de querer controlar a rede não
    se conclui apesar de ser objeto de desejo de totálitários do mundo todo.

  3. Comentou em 12/05/2011 Alan Ferreira

    Mais um escândalo: O Facebook vive seus dias de Riocentro. Parece que o FaceBook (Catálogo de Rostos) está mais para FaecesBook (Catálogo de Fezes) – Que sujeira!

    http://info.abril.com.br/noticias/internet/facebook-pagou-empresa-para-difamar-google-12052011-36.shl
     
    Facebook pagou empresa para difamar Google 
    Por Vinicius Aguiari, de INFO Online • Quinta-feira, 12 de maio de 2011 – 16h10
     
    SÃO PAULO – O Facebook contratou uma empresa de assessoria de comunicação para tentar plantar notícias e difamar o Google nos Estados Unidos.
     

    http://www.wired.com/epicenter/2011/05/facebook-google-smear/
     
    BOOM! Goes the Dynamite Under Facebook’s Google Smear Campaign
    By Sam Gustin  May 12, 2011  |  5:11 pm  |  Categories: Privacy, WiredBiz
     
    In the annals of shady public relations stunts, Facebook’s attempt to surreptitiously plant negative — and highly misleading — stories about Google into leading media outlets will surely go down as one of the most ham-handed in recent memory.
     

  4. Comentou em 11/05/2011 Jaime Collier Coeli

    Perguntar não ofende, pois não? Na tela do meu computador, aparece o seguinte aviso: ‘Acelerar a navegação desbilitando os complementos’. Ao lado, um aditivo:’escolher os complementos’. No extremo da linha, outra nota, esta formidável e que seu só poderia ter lido em 1984: ‘Perguntar depois’. O que são isso, torcida amiga? Um exemplo de ‘democracia’?

  5. Comentou em 11/05/2011 Daiane Wichineski

    Esse artigo mostra a necessidade de um regulamento para internet, que possa proteger o modelo inicial da internet. A idéia é que se aproxime cada vez mais dos objetivos inicias. Uma das principais discussões sobre a internet, é que à proteção dos dados dos usuarios estão cada vez mais precarias o que faz com que estejamos vulneraveis a invasão da tecnologia. Com o medo infligido pelos grandes poderes, sabemos que a principal discussão agora é sobre o que queremos da internet. Eu acredito que aquela era em que prevalece a liberdade, engrandece o conhecimento e principalmente valorisa a boa informação e não de meio ilicito pra fazer do usuário uma vítima do mundo virtual, acredito que essa era deva prevalecer, esse é o meio virtual em que a internet deve integrar, com benificios e não prejuizos aos usuarios. Mas sabemos o lógico, que a liberdade e os direitos que são proporcionais aos nossos deveres, acabam fazendo com que pessoas sem conciência do que estão divulgando quebrem esta parede de vidro e prejudicam muitas outras pessoas que estão mais proximas como amigos e familiares.

  6. Comentou em 11/05/2011 William _

    O sistema fica totalmente na mão dos que possuem o poder. Relacionando apenas aos interesses daqueles que comandam o “disfarçado privativo”, os poderosos conseguem adquirir qualquer informação que lhes convém.
    No caso do Facebook, por exemplo,milhares e milhares de usuário têm as vidas apresentadas de uma maneira aberta. Facilmente explorável. Exageram aqueles que acreditam que todos serão vasculhados, ainda acho que este número é só restrito. Mas restrito a que? Restrito aos interesses pessoas e profissionais daqueles que comandam os dados “privativos”.

  7. Comentou em 11/05/2011 Camila Cabau

    A internet, redes sociais e softwares apoiados nesse meio não são novos. O que é recente é a exposição desmedida das pessoas na web. Contas online, perfis e cadastros são necessários para aqueles que querem inserir-se nessa plataforma. Mas, com tanta informação pessoal sendo disponibilizada, será que as redes estão preparadas para armazenar esses dados adequadamente? Parece que não.
    Ao entrar em uma ‘nova sociedade’ as pessoas apresentam-se como realmente são, com direito a números, informações e imagens que comprovem quem são. A expectativa de fazer parte desse novo espaço virtual pode não gerar um receio quanto ao sair do anonimato real.
    Os usuários entram em um processo de contradição ao exigirem a prevenção de sua imagem em um espaço que divulga e promove o exibicionismo.
    Ao mesmo tempo cabe as empresas online o dever de resguardar seus clientes.
    Começa entãoumlongo processo em que os usuários querem integra-se a esse novo espaço, mas com cautela. As empresas online devem receber o número crescente de usuários, dar suporte a tudo isso e ainda preservar a imagem dos navagantes.

  8. Comentou em 11/05/2011 Emilio Carlos Barbosa

    Eis ai o mundo globalizado, repleto de falhas, um pouco mais sofisticadas, que facilitam o intruso aos seus interesses. Podemos ter os meios mais atualizados para nos comunicarmos com o mundo, mas sempre teremos alguém no comando. Privacidade? Não sabemos o que pensam os líderes sobre essa palavra. Só sabemos que o que priva a cidade são as leis que existem, mas, somente no papel, pois quando a ordem vem de cima, as brechas se apresentam e o que era segredo de estado se torna: Olha o estado desse segredo.

  9. Comentou em 11/05/2011 Cristiane Pinzan

    Primeiramente gostaria de te parabenizar Castilho, por fazer um levantamento inteligente e interessante sobre a questâo da segurança na internet, que mesmo não sendo ainda um veículo acessível a toda a população brasileira, já faz parte do cotidiano de muitas pessoas. Essa nova tecnologia traz muitas facilidades, mas ao mesmo tempo, muitos motivos para retirar minutos, ou até mesmo horas preciosas de nossos dias. O Brasil está entre em dos países que mais usam as redes sociais, ou seja, informações individuais de cada um que não podem interessar a nada e a ninguém, a não ser que esse alguém queira monitorar nossas vidas.
    é como meu pai diz:’com esse negócio de facebook, orkut etc, os namoros mudaram muito. Agora não dá mais para ir em um baile escondido da namorada.’
    A internet parece inofensiva, mas pensar que temos liberdade de expressão é sonhar demais.

  10. Comentou em 11/05/2011 Mariana Durski

    A sdituação atual nos leva apensar sobre a influÊncia da internet, mas não se pode esquecer de dois itens. Primeiro, ainda não existe uma lei que regule efetivamente o conteúdo da internet e segundo, os brasileiros ainda não conseguiram mensurar o poder e abrangência da internet. è claro que o fato afeta o mundo todo,e uma regulção se faz precisa com urgência.
    Outro ponta é que não é porque se pode postar tudo que ser quer, que o ato não irá ter maiores consequências.

  11. Comentou em 11/05/2011 Wendel Amorim

    Pergunto: E nós brasileiros? O estado também não está a nos bisbilhotar, controlar, enfim, será que temos mesmo privacidade ‘online, virtual?’

  12. Comentou em 11/05/2011 Jaime Collier Coeli

    Mas Castilho, quem não conhece a servidão do confessionário? Sabe-se de longa data que, ao telefone, não se fala nada a sério, mesmo com misturador de vozes. Publicar algo que não seja politicamente correto joga o autor ao ostracismo. Como a internet poderia ser diferente? De fato, qualquer declaração só pode ter um objetivo racional, que é o de ser condenado nos termos que o individuo possa considerar ‘aceitável’ a condenação. Francamente, imaginar ‘liberdade de expressão’ é sofrer de excesso de otimismo. Mais realista seria lutar por uma formação intelectual mais profunda dos censores. Bom início seria que eles pudessem saber da existência de interesses divergentes ou opostos, mesmo nos circos onde estão lotados.

  13. Comentou em 11/05/2011 Pedro Teixeira

    Isso denota a necessidade, já discutida há algum tempo, de um
    marco regulatório internacional da internet, protegendo um modelo de
    internet que mais se aproxime aos seus ideais inicias, e não os
    coorporativistas que vêem ganhando espaço cada vez maiores
    atualmente.

    A discussão sobre a internet, que antes se circunscrevia à proteção
    do princípio da net neutrality, agora está tomando outros ares,
    especialmente com o medo infligido aos grandes poderes, em todos
    os âmbitos, internacionalmente falando, depois das ditas ‘Revoltas
    Árabes’; a discussão agora é sobre que modelo de internet
    queremos.

    Eu prefiro aquela que enalteça as liberdades mesmo formalmente
    previstas em Constituições de Nações democráticas tal qual a nossa.
    Mas por óbvio, da liberdade e dos direitos decorre necessariamente
    proporcionais deveres.

  14. Comentou em 11/05/2011 Wendel Anastacio

    Castilho, gostaria de agradecer por adotar o mecanismo de publicação automática dos nossos comentários.
    Vc é o único que o faz, e por isto FAZ A DIFERENÇA!
    Concordo que a responsabilidade do que é escrito nos comentários, é únicamente de quem comentou/postou, pois do contrário seria uma aberração jurídica!
    Outro fato é que, ao termos nossos comentários submetidos ao moderador, ficamos com a sensação de sermos crianças tuteladas, e o que é pior, delegando a outros, o que seria nossa responsabilidade!
    Abraços, e continue sempre assim, pois repito: Vc faz a diferença!

  15. Comentou em 11/05/2011 José Albino

    Excelente artigo, caro Carlos Castilho. Como você aponta, nota-se também que a questão da privacidade muitas vezes sofre atentados por parte de quem usa serviços da Internet de forma equivocada e negligente, ignorando os riscos de exposição, como no Facebook , Orkut e Blogger. No ano passado, um certo professor brasileiro aposentado entrou num blog para postar comentários críticos ao dono do blog (um inimigo ideológico). Distraído viu-se diante da facilidade de criar seu próprio blog, e assim acabou se cadastrando e criando seu próprio blog dentro do blog (vinculado) de quem pretendia criticar. Acabou por vincular seu blog ao blog do seu “inimigo”, e hoje protesta contra a exposição de seu blog e de seu nome no blog inimigo. Situação vexatória. Mas aconteceu por total desconhecimento e ignorância do professor aposentado, e ele é o principal responsável por sua própria exposição. Usuários de blogs, Facebook, Orkut, e congêneres têm sua parcela de responsabilidade na proteção de sua própria privacidade, precisam estar atentos aos riscos já apontados aqui em seus textos recorrentes sobre este assunto. Não vai ser por falta de aviso. Obrigado pelo excelente artigo, Castilho.

  16. Comentou em 11/05/2011 Wendel Anastacio

    É Castilho, acabou-se a privacidade!
    À massa, pouca importa que seja monitorada, pois o ‘gado’, sempre foi e será tangido conforme as regras do Sistema. São apenas consumidores e números estatísticos. Além do mais, o acesso a estas tecnologias, proporciona o status que sempre almejaram!
    As grandes Corporações, políticos, governos, sempre saberão se precaverem, pois os riscos e perdas são muito maiores.
    O Grande Irmão, sempre estará atento, e a Web ou qualquer outro mecanismo de comunicação, sempre será usado para nos espionar/manipular, em prol do Sistema!
    Os mais cautelosos que se cuidem, pois muitos até gostam de se verem vitimados /espionados/manipulados!
    Vide programas como Big Brother e outros, que batem recordes de audiência e os otários, ainda pagam para assistirem e votarem nos participantes!
    Como dizem – ‘o mercado é ávido por carne fresca, e esta oferta é cada dia mais generosa’!

  17. Comentou em 11/05/2011 Ibsen Marques

    Leitura dos sites acessados na locação de eqpto com a justificativa de proteção contra virus é um argumento falacioso porque a locadora simplesmente pode zerar o sistema a cada locação. Minha conclusão é de que a NET amplifica e dá maior visibilidade aos comportamentos humanos, assim o que é bom fica melhor na Rede porque aparece mais e engloba mais e o que é ruim idem, é pior porque atinge mais e agride mais. Obviamente tudo isso amplifica em milhares de vezes as consequências de ações éticas e antiéticas. Enquanto a imprensa se degladia contra a falsa censura observamos na Net que um direito humano mais básico, a individualidade e privacidade, vem sendo gradativamente suprimido. Daqui prá frente seremos cada vez mais o que quiserem que sejamos; o que gostaria de ser como indivíduo detentor autonomia se dilui sempre e cada vez mais mais na vontade coletiva e massificante.

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