Sexta-feira, 15 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

CÓDIGO ABERTO > Desativado

Entre o local, o nacional e o global

Por Luiz Weis em 05/05/2007 | comentários

Um dos mais combativos – e progressistas – políticos americanos do século passado, o deputado e líder democrata Thomas (Tip) O´Neill [1912-1994], fez um dia uma frase que, repetida e adaptada ao que se quisesse, correu mundo: ‘Toda política é local.’


Segundo um dos seus mais próximos colaboradores, o estudioso de mídia Peter Osnos, o ‘local’ em que ele pensava tinha menos a ver com a geografia do que com o interesse das pessoas. Toda política seria local na medida em que todo interesse, em última análise, seria individual.


Ou, de forma mais direta, o que mais importa é o que mais me importa.


Essa questão está eternamente presente no cotidiano de uma redação. No caso de um jornal, na hora de hierarquizar as notícias do dia, os editores tomam decisões, menos ou mais conscientemente, que têm tudo a ver com a máxima de O´Neill.


Qual a matéria que deve dar a manchete da edição seguinte? Uma tragédia do outro lado do mundo, ou um acontecimento ocorrido na cidade, no Estado ou no país do jornal que, pelo seu potencial de afetar em cheio a vida do leitor, deve importar-lhe mais do que qualque outro?


No sábado (5/5), os três principais diários brasileiros, deram, cada um, respostas diferentes a indagações como essas, apresentadas esquematicamente apenas a título de ilustração do assunto.


O Estado de S.Paulo destacou o fato global por excelência da sexta-feira – o relatório do painel da ONU que estuda as consequências do efeito estufa, segundo o qual investimentos anuais da ordem de não mais de 0,2% do PIB mundial até 2030 bastariam para impedir os piores efeitos da mudança climática induzida pelo homem. Ou, na manchete do jornal: ‘Evitar caos do aquecimento global custa pouco, diz ONU’.


A propósito, o Estado oferece um excelente pacote de 4 páginas, na base do ‘tudo que você precisa saber sobre a crise do clima’. É possível que a publicação desse caderno especial tenha ditado a escolha do assunto número um da primeira página.


O Globo destacou o fato local por excelência da mesma sexta-feira – a ordem dos traficantes presos no complexo penitenciário de Bangu para os seus ‘soldados’ pararem de matar civis e PMs na favela da Vila Cruzeiro, no bairro da Penha. Três dias de tiroteios deixaram três mortos e doze feridos. ‘Ordem de Bangu pára tiroteio de 3 dias no Rio’, proclamou o jornal, remetendo ao pé da página o tituleto ‘É possível e barato controlar o clima’, sobre o relatório da ONU.


Mas só a Folha apresentou no lugar adequado o fato mais importante da véspera no Brasil, com a manchete, de fora a fora da página, ‘Lula quebra patente e ameaça laboratórios’, e o subtítulo ‘Medida para droga anti-Aids pode se repetir com outros remédios, diz presidente; fabricantes vêem retrocesso’.


Talvez o jornal tenha superestimado a ‘ameaça’. Embora Lula tenha dito o que disse, é improvável que siga ao pé da letra as próprias palavras: ‘Vale para este remédio, mas para tantos outros quanto for necessário’.


O próprio ministro da Saúde, José Gomes Temporão, diz que não há outros medicamentos sob ameaça de licenciamento compulsório [o nome técnico para quebra de patente]. Melhor teria feito o tituleiro se, em vez de acenar com mais quebras, contrapusesse à previsível crítica dos fabricantes os elogios das ONGs e dos políticos.


De qualquer forma, salvo melhor juízo, antes a manchete imperfeita para uma notícia nacional de grosso calibre – pelo seu ineditismo no Brasil e pelas suas repercussões no exterior – do que a ordem de entrada em cena definida pelo Estado e o Globo.


O jornal paulista ainda se salvou pelo gongo ao dar à chamada de 20 linhas sobre o ato do presidente um título em duas colunas, ‘Brasil quebra patente e causa reação nos EUA’, seguido do sub ‘Iniciativa atinge remédio contra a aids’ – com ‘a’ minúsculo, acertadamente.


Já o Globo, amarrado ao critério discutível que reserva o topo da página ao que o jornal tem a oferecer em outras seções e cadernos, teve que dar a história da patente numa chamada de meras 13 linhas, sob o título pele-e-ossos em uma coluna ‘Brasil quebra patente de anti-Aids’. Não coube nem a palavra droga, muito menos remédio.


Dentro, a Folha também deu mais ao leitor por seu dinheiro. Três páginas de patente quebrada, contra duas Estado e menos de uma e meia do Globo, além de um artigo de Clóvis Rossi, despachado de Paris, e outro de Fernando Rodrigues, de Brasília.


Coroando o esforço, como diz o lugar-comum, foi o único dos três jornalões a sair já no sábado com um editorial sobre o caso. A publicação do editorial é importante por dois motivos. 


Primeiro, é mais um exemplo da conhecida agilidade da Folha nessas horas. Quantos compradores do Estado e do Globo não terão se perguntado, depois de ler o noticiário, qual a opinião deles sobre o acontecimento. Vão ter de esperar.


Segundo, porque o editorial da Folha ‘Patente quebrada’ é um exemplo de ponderação no exame de um fato polêmico. Um belo ponto de partida para uma discussão mais ambiciosa. O texto defende a quebra, mas alerta para os seus eventuais custos. Diz assim:


Não há dúvida de que a saúde pública deve prevalecer sobre interesses comerciais. Assim, é em princípio correta a decisão do governo brasileiro de quebrar a patente do anti-retroviral efavirenz (Stocrin), comercializado pelo laboratório Merck Sharp&Dohme. No Brasil, a droga é utilizada por 75 mil pacientes de Aids (38% do total) atendidos pela rede pública.


O governo optou pelo licenciamento compulsório – nome técnico da quebra de patente-  por julgar que o desconto oferecido pela Merck era insuficiente. Cada comprimido de 600 mg de efavirenz saía por US$ 1,59 para o Ministério da Saúde. O laboratório dispôs-se a baixar mais 30%. O governo considerou pouco. Na Tailândia, a mesma Merck comercializa o mesmo efavirenz por US$ 0,65 a unidade. O Brasil diz que vai agora comprar o medicamento de fabricantes indianos de genéricos por US$ 0,45 o comprimido -uma economia anual de US$ 30 milhões.


Outro argumento que parece ter pesado é o de que as margens de negociação com os laboratórios vinham se estreitando. O Brasil já ameaçara quebrar patentes de drogas anti-Aids em 2001 (nelfinavir, da Roche) e 2003 (Kaletra, da Abbott). Como nunca concretizara tal gesto, a indústria farmacêutica estava se mostrando cada vez mais reticente em baixar seus preços.


A licença compulsória é referendada pela legislação brasileira no caso de emergências sanitárias ou de interesse público (art. 71 da lei nº 9.279/96). Tal disposição encontra amparo em acordos internacionais, como o Trips, que regula o direito de propriedade intelectual.
Mesmo os EUA, país que mais se queixa de licenciamentos compulsórios, recentemente cogitaram de quebrar a patente do antibiótico ciprofloxacina, manufaturada pela Bayer, quando estiveram às voltas com ataques de antraz, após o 11 de Setembro.


Só que o fato de o Brasil ter o direito de quebrar a patente e algumas boas razões para fazê-lo não significa automaticamente que a decisão seja sem custos. No curto prazo, poderemos sofrer retaliações legítimas de laboratórios. A exemplo do que já fizeram com outras nações que emitiram licenças compulsórias, eles poderão deixar de lançar por aqui seus novos produtos, privando portadores das mais variadas moléstias de drogas potencialmente úteis.


Não se pode esquecer que a indústria farmacêutica – apesar de todos os recentes casos pouco abonadores em que se meteu- responde por parte da pesquisa médica e pelo principal do desenvolvimento de novos princípios ativos. Não interessa a ninguém quebrá-la, o que fatalmente ocorreria se todo medicamento útil se tornasse ‘patrimônio da humanidade’, como quer o presidente Lula.


***


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Todos os comentários

  1. Comentou em 08/05/2007 Mara C. da Silva

    Discordo totalmente.
    Acho a manchete escolhida populista, em favor de um ato populista.
    Durante o governo FHC a mesma questão foi enfrentada, de forma eficaz, e isto não virou manchete: FHC ‘quebrou’, ‘ rebentou’ etc. Era tudo tratada pelo Serra e referida a ele.
    E além disto, a economia foi de 30 milhões de dólares, num país que gastou 2 bilhões de dólares para segurar o câmbio. faça-me o favor!

  2. Comentou em 08/05/2007 Vanessa Prateano

    Weis, seu texto é muito interessante, justo e sóbrio. Abordou uma ótica totalmente diferente de se analisar o conteúdo dos jornais em um só dia. É uma boa discussão, inclusive, nas salas de aula dos cursos de jornalismo.
    Quanto ao editorial da FSP, foi bem estruturado e conteve, aparentemente, os prós e contras da quebra da patente. Mas é de se perguntar se os laboratórios realmente vão deixar de vender medicamentos ao Brasil devido a essa ação de Lula. Afinal, como disse um leitor acima, com essa retaliação eles perderiam a chance de continuar a vender a preços altos os demais produtos que continuam rendendo luvros exorbitantes com suas patentes. Não seria muito inteligente da parte deles reagir dessa maneira, parece mais uma birra infantil, do tipo ‘agora não quero mais vender pra vocês, blééé!’, com menos prejuízos ao Brasil do que aos laboratórios. Bom, mas isso é um ótimo assunto a se discutir. Quanto ao tratamento da informação jornalística, a sensibilidade, como disse a também estudante de jornalismo Daniela Ayres, é solapada pelo óbvio, resultado da escravização do jornalista pelas horas, além de sua incapacidade de ler o mundo e dele fazer interpretações que interessem ao maior número de pessoas possível, nesse caso, a sociedade brasileira, a maior interessada. É uma pena, e um perigo, porque assim os jornais diários tecem o seu próprio fim.

  3. Comentou em 07/05/2007 ubirajara sousa

    Será que, algum dia, um laboratório (comerciante por excelência) deixará de vender o seu produto para um país (milhões de clientes) em retaliação a uma pequena diminuição dos seus lucros exorbitantes obtidos por longos e longos anos? Senhores, é hora de o povo demonstrar o seu poder. O comerciante já despertou para a grande importância do cliente para o seu negócio. O cliente precisa tomar conhecimento pleno disso. Foi um ato de coragem do presidente Lula, que tornará o Brasil mais respeitado pela comunidade exploradora da miséria humana. Quanto ao texto do Sr. Luiz Weis, lastimável a sua referência ao presidente Lula, no seu final.

  4. Comentou em 07/05/2007 Daniel Calixto

    Infelizmente, esse é mais um reflexo da fraqueza do poder público. Digo não somente no Brasil, mas em âmbito mundial. As corporações ganharam tanto poder que podem hoje se dar ao luxo de chantagearem os governos, e são os governos que devem ter medo e tipo ‘conversarem com calma’, ‘fazer diplomacia’… é o fim dos tempos!

  5. Comentou em 07/05/2007 Daniela Ayres

    Estamos acostumados com o óbvio e ele toma conta dos noticiários. Tanto que apenas um dos jornais citados foi capaz de enxergar a dimensão do assunto sobre a quebra de patente da droga anti-aids. É por essas e outras que creio na versão de que os jornais comunitários terão cada vez mais espaço no dia-a-dia das pessoas, pequenos e em formato tablóide, e a grande imprensa escrita se restringirá a publicações editadas nos fins de semana. De que valem dezenas de páginas todos os dias, se o indivíduo, de carne e osso, não tem espaço nessas publicações? O certo é que a urgência mercadológica diminui a chance de se ter um jornal que saiba ponderar onde estar o que é verdadeiramente relevante naquele momento e obriga os próprios profissionais a se acomodarem diante do que chega pronto a seus micros – se bem que este não é só ‘privilégio’ do meio impresso.

  6. Comentou em 07/05/2007 Carlos Esteves

    E assim a credibilidade da imprensa de uma maneira geral caminha para a mesma vala comum onde foi parar a credibilidade da Veja. Aliás, a Veja e seus empregadinhos se especializaram em escrever o que bem quizessem sobre quem bem entendessem, mas na Hora (do povo) que alguem escreveu o que bem entendeu sobre um dos seus queridinhos, a Veja ficou toda dodóizinha…

  7. Comentou em 07/05/2007 Gláucio Costa

    O gesto de impor licença compulsória ao anti-retroviral efavirenz expõe à indústria farmacêutica que o governo brasileiro não estava blefando, mas sim agindo em prol do que entende ser de interesse do povo brasileiro. Realmente é uma quebra de braço gigante, que em princípio é acertada, mas que pode, a longo prazo, ocasionar efeito contrário: imagina se os laboratórios farmacêuticos deixassem de vender para o Brasil? Quantos milhões não seriam prejudicados? Por isso acho que o melhor caminho é realmente o da diplomacia, o da conversa, o de chegar a um meio-termo! A indústria tem que ganhar, sim, pois realizou pesados investimentos para obter seu produto. Mas não deve explorar! Por quê vender para a Tailândia a US$ 0,65 e ao Brasil por US$ 1,59? Sejamos justos, os doentes daqui são tão doentes como os de lá! E a pobreza é muito parecida…

  8. Comentou em 06/05/2007 Dante Caleffi

    Difícil ,é dar notícia positiva e incontestável do governo Lula. Percebe-se
    com a mídia fica pouco à vontade.Sorriso amarelo.Algumas são ocultáveis.Outras,impossíveis.Exemplo de habilidade em distorcer noticiário positivo: Globo ,desta última semana,’Banco central gasta(!)bilhões para conter,etc…’Sugerindo,aquisição de divisas,como algo irresponsável e perdulário.Com essa ‘oposição’ midiática, corre a sociedade o risco de desinformação, ou submeter-se a ‘novilingua’,criação de George Orwell,em’1984′.Bem ,as ‘Organizações Marinho’,já possuem ,o ‘BIG-BROTHER’,portanto…

  9. Comentou em 06/05/2007 Pedro Costa

    Vocês não vão falar da ameaça de morte que o Hora do Povo fêz contra Diogo Mainardi ?

  10. Comentou em 06/05/2007 Dalton de Barros Santos

    Caro Weis:
    ‘O malandro, na dureza, senta à mesa do café/Bebe um gole de cachaça, acha graça e dá no pé/O garçon no prejuizo, sem sorriso, sem freguês/De passagem pela caixa, dá uma baixa no portugues/O galego acha estranho, que o seu ganho tá um horror/Pega o lápis, soma os canos, passa os danos pro distribuidor/Mas o frete vê que ao todo há engodo nos papéis/E pra cima do alambique dá um trambique de cem mil réis/O usineiro nessa luta grita: À ponte que o partiu/Não é idiota, trunca a nota, lesa o Banco do Brasil/Nosso banco tá cotado no mercado exterior/Então taxa a cachça a um preço assustador/Mas os ianques com seus tanques têm bem mais o que fazer/E proibem os soldados aliados de beber/A cachaça tá parada, rejeitada no barril/E o alambique tem chilique contra o Banco do Brasil/O usineiro faz barulho com orgulho de produtor/Mas a sua raiva cega descarrega no carregador/Esse chega pro galego, nega arreglo, cobra mais/-A cachaça tá de graça, mas o frete como é que faz?/O galego tá apertado, pro seu lado não tá bom/Então deixa congelada a mesada do garçon/O garçon vê o malandro, sai gritando: Pega ladrão!/E o malandro, autuado, é julgado e condenado culpado pela situação’ (O Malandro-Chico Buarque) A Ópera do Malandro foi escrita em 1978 sobre uma realidade social da década de 40. Será que o trânsito da malandragem mudou muito?

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