Terça-feira, 21 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

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Entrevista reequilibra o noticiário

Por Luiz Weis em 30/01/2009 | comentários

Todos os grandes jornais transcreveram trechos da entrevista exclusiva da repórter Luiza Villaméa com o ex-ativista italiano Cesare Battisti, que se tornou a matéria de capa da edição da semana entrante da revista IstoÉ.


As citações serviram amplificar os protestos de inocência de Battisti, condenado em seu país à prisão perpétua por quatro homicídios, em um noticiário dominado pelas estridentes reações italianas à decisão do ministro da Justiça, Tarso Genro, de conceder-lhe refúgio no Brasil, incluindo a convocação do embaixador italiano em Brasília “para consultas”.


“Eu nunca matei ninguém”, afirma Battisti. “Eu nunca fui um militante militar em nenhuma organização. Nem na Frente Ampla nem nos PAC [Proletários Armados para o Comunismo], onde fiquei dois anos, entre 1976 e 1978. Saí dos PAC em maio de 1978, depois da morte de Aldo Moro [o ex-primeiro-ministro sequestrado e morto pelas Brigadas Vermelhas].”


E ainda: “A luta armada foi um erro. […] Eu nunca atirei em ninguém. Nunca acreditei que se podia mudar o mundo matando pessoas.”


Às tantas, a repórter lhe pergunta por que ele demorou 16 anos para falar que não matou ninguém. Ao responder, ele usa umas tantas vezes os verbos no presente, mas é do passado que está tratando:


“Porque os outros que confessaram, disseram que tinham matado de verdade. Se eu me defendesse, me diferenciaria e abriria uma brecha na doutrina [do presidente François] Mitterrand, que impunha a mesma defesa para todos. Nada de sustentações individuais, como inocência, revelia, como alegações pessoais. Eu obedeço a essa norma de conduta. Em nenhuma das etapas desse processo reivindico a inocência. […] Eu não posso me separar. Para dizer que sou inocente, tenho que renunciar a defesa dos advogados. Fiz procuração para outro advogado, que está me defendendo na França, para poder dizer, agora alto, que não matei ninguém e fui condenado à revelia. Para isso, tive de sair da defesa coletiva.”


Battisti tem sido um problema para a imprensa brasileira. O seu caso pode ser mais nebuloso do que dão a entender os editoriais unanimemente contrários à concessão do refúgio – por alegadas afinidades ideológicas do ministro em particular e do governo Lula em geral com o acusado.


Os jornais invocam o tema aos gritos, mas nem aos sussuros ligam o comportamento raivoso das autoridades italianas ao fato de o governo do primeiro-ministro Silvio Berlusconi ser não só de direita, mas coligado com o neofascismo.


A mídia não se deu ao trabalho de caracterizar a filiação partidária e a respectiva linha política dos ministros e parlamentares que saíram dizendo cobras e lagartos da decisão brasileira – embora entre os críticos também figurem políticos de esquerda.


O que de mais substancial saiu contra Battisti é a matéria da Folha da sexta-feira, 30, com base em cópias a que o jornal teve acesso de documentos que fazem parte do pedido de extradição apresentado pela Itália, sobre o qual o Supremo Tribunal Federal ainda deverá ser pronunciar – ou não, se entender que o caso está encerrado.


Os papéis são de cinco decisões sobre o caso. Neles, 10 testemunhas corroboram as acusações da Justiça italiana, da França e da Corte Europeia. Mostram, destaca a Folha, “que foi assegurado ao italiano amplo direito de defesa”.


“Tarso”, lembra o jornal, “havia argumentado que a condenação foi baseada em um único depoimento” e disse ter ‘profunda dúvida’ sobre o processo legal” na Itália – o estopim da crise diplomática.


Detalhe: as 10 testemunhas mencionadas pelo jornal, “que contribuíram para os processos que levaram à condenação de Battisti” aceitaram, todas, participar do esquema de delação premiada que lhes foi oferecido pela Justiça italiana.


A íntegra da entrevista de Battisti à IstoÉ pode ser lida aqui.

Todos os comentários

  1. Comentou em 02/02/2009 Ivan Moraes

    ‘socorrido pela vontade que Tarso Genro tem de ficar bem na fita com a comunistada [ ], que adora ditador e terrorista comunista. A-do-ra’: do ‘Trem Azul: ‘Salvei o Brasil do comunismo em 64 e quero salvá-lo de novo. O Cabo Anselmo é a figura mais odiada pela esquerda brasileira. Teve, no princípio, um papel importante nos episódios de março de 1964 que culminaram com o golpe militar. Liderava a Associação dos Marinheiros e seu discurso no aniversário da entidade, em 25 de março daquele ano, foi o argumento que faltava para a precipitação do golpe. Perto do que dizia, o discurso de João Goulart no comício de 13 de março, na Central do Brasil, era conversa de liberal. Tornou-se uma bandeira da esquerda. Depois a traiu. Coisa de esquerdos.’

  2. Comentou em 02/02/2009 Ivan Moraes

    ‘noticiário dominado pelas estridentes reações italianas à decisão do ministro da Justiça’: cricrise mediatica de chiliques chronometrados? Nossa! Nunca vi isso antes no Brasil!

  3. Comentou em 01/02/2009 Haroldo M. Cunha

    ‘Pra quê entrevistar Battisti? É perda de tempo. Ele não quis fazer sua defesa perante os tribunais italianos.’ Este comentário traduz nossa gente. Não vou defendê-lo, tampouco o jogarei às feras, pois não conheço de perto o processo e dizer que a Itália vivia uma democracia plena naquele período, é de uma cretinice medonha. Como não asilar uma pessoa em que os fatos que o condenaram são nebulosos? As testemunhas tem interesse em se livrar da culpa ou de tortura? Senhores, uma pessoa que sofre torturas confessa até que martelou os pregos em Jesus Cristo! Quanto a ficar para se defender, pergunte aos donos da Escola Base em São Paulo. Quando te condenam antes do julgamento, você jamais será inocentado pela consciência coletiva (caso essa, realmente, exista). À todos é garantido o direito do contraditório e ampla defesa e há vícios no processo e, naquele ambiente, plantar provas era (como no Brasil do mesmo período) mais do que comum para se livrar de desafetos ou para livrar a cara dos ‘cumpadres’ acusava-se qualquer pessoa (o inocente útil, lembram?). Por isso, enquanto todos os fatos não forem devidamente constatados, o Brasil deve oferecer abrigo para quaisquer cidadãos que sofre perseguição, pois mais que um ato jurídico, é uma questão de humanidade e humanidade não possui idioma ou geografia. A Itália teve 2 mil anos para civilizar-se e tem o Berlusconi. Nós engatinhamos.

  4. Comentou em 01/02/2009 Henri Fulfaro

    Interessante a entrevista e, claro, oportuna em termos de equilíbrio do noticiário. Só não entendi a finalidade de uma pergunta do tipo: “O senhor acredita em Deus?”, dirigida a um comunista assumido e juramentado. Na mesma linha de raciocínio, parece-me que a repórter se esqueceu de perguntar: “E, como bom comunista, quantas criancinhas o senhor comeu até hoje?”

  5. Comentou em 01/02/2009 Edno Costa Lima

    Pra quê entrevistar Battisti? É perda de tempo. Ele não quis fazer sua defesa perante os tribunais italianos. Sua condenação foi baseada em provas testemunhais. Que meios tem ele para provar a própria inocência? Nenhuma. Só há suas declarações ; não houve ninguém que viesse a público dizer que Battisti não foi o responsável pelos homicídios das quais é acusado. Só idiotas se interessam pelo que tem a dizer um condenado que , como é sabido nunca conseguirá provar sua inocência . É desperdício de papel, tinta e tempo.

  6. Comentou em 31/01/2009 Thomaz Magalhães

    O terrorista Battisti só foi socorrido pela vontade que Tarso Genro tem de ficar bem na fita com a comunistada [ ], que adora ditador e terrorista comunista. A-do-ra.

  7. Comentou em 31/01/2009 Angelo Azevedo Queiroz

    Sr. Weis, por em relevo que Berlusconi é de direita e que as 10 testemunhas de acusação participaram de processos de delação premiada só faz sentido se, com isso, o Senhor está querendo por em dúvida o devido processo legal na justiça do estado italiano.É isso o que o senhor quer discutir? Quer o Senhor , assim como o Ministro arvorar-se à condição de revisor das decisões do poder Judiciário italiano. Com que legitimidade? O senhor precisaria ter muitos argumentos para pôr em dúvida as decisões judiciais de um estado que pratica a democracia e o estado de direito há muito mais tempo que o Brasil. Aqui, com lá , Senhor Weis, decisões passadas em julgado do poder judiciário se cumprem, não se discutem. Alegar inocência é direito de qualquer acusado, mas são apenas isso: alegações. Já a decisão da Justiça se baseou em provas conforme o devido processo legal pré-estabelecido. O mais é discurso ideológico e desejo de falar mal da mídia.

  8. Comentou em 31/01/2009 José Paulo Badaro

    Li e reli a decisão do Tarso Genro na íntegra, e até onde vão os meus conhecimentos entendo que o arrazoado está muito bem articulado e fundamentado, especialmente sob o ponto de vista técnico, até porque, no âmbito limitado de um pedido de asilo político, não há margem para se aprofundar nas questões de fato ou, no caso, sobre as acusações que levaram o estado italiano a condena-lo à prisão perpétua. Se os processos que correram à revelia são válidos ou não, se a base da condenação e testemunhos decorreram de delações premiadas, isso é um tanto secundário nessas alturas, já que o que realmente importa é saber se os delitos imputados a ele são de natureza política ou comum, e se existe, de fato, fundado receio de perseguição, e isso restou sobejamente demonstrado, seja pelo teor das declarações das autoridades italianas, seja pela fúria e arrogância com que se manifestam contra a decisão do nosso ministro, e nesse ponto sequer esconderam o profundo desprezo pela nossa cultura e tradição, já que em momento algum se atreveram a criticar o Sarkosy, no asilo político dado a Marina Petrella, ex-militante das Brigadas Vermelhas. Num caso como esse o STF até pode, mas não deveria, deixar de lado o direito, a jurisprudência e a sua própria tradição, prolatando decisão que agrade o governo italiano. Isso seria desastroso, uma cusparada na cara da nossa soberania.

  9. Comentou em 31/01/2009 Felipe Valentim Bonifacio

    a folha de São Paulo ja decidiu, Cesare é Condenado!

    capa de 31-01-09
    [http://www1.folha.uol.com.br/fsp/images/cp31012009.jpg]

    Como lançar na capa declarando o sujeito ‘Terrorista’?

    Terrorismo é estampar na capa de um jornal de circulação nacional a equivocada condenação de um cidadão que esta por investigar –
    Irresponsáveis.

  10. Comentou em 31/01/2009 leitor de brasília

    Caro Luis, não é por falta de vontade que os jornais não têm aberto
    espaço para Battisti se defender em primeira pessoa. Depois de
    recorrerem ao STF, o Globo, a Folha e o Estado têm, desde o início da
    semana, autorização para falar com o italiano. Só que a defesa dele,
    comandada pelo Luiz Eduardo ‘Gomes’ Greenhalgh, se recusa a
    permitir a entrada dos repórteres que vão diariamente até a porta do
    presídio da Papuda, em Brasília. a Istoé, como se sabe, tem hoje
    como principal acionista o banqueiro Daniel Dantas, cliente
    preferencial de Greenhalgh e seu companheiro nos grampos da
    Operação Satiagraha. Será coincidência?

  11. Comentou em 31/01/2009 José de Souza Castro

    Muito interessantes o artigo de Luiz Weis e a íntegra da entrevista na Isto É. Se Battisti estava disponível para uma entrevista, por que ele não foi ouvido antes? A imprensa brasileira não achou necessário, nesse caso, ouvir o outro lado? O que diz o Mino Carta, que tem escrito em seu blog tantos artigos contra o comunista Battisti e em defesa do governo democrático da Itália? Carta Capital não tentou entrevistar o acusado, como fez a Isto É? Pobre imprensa brasileira…

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