Sexta-feira, 24 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

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Erros sobre erros na Folha

Por Luiz Weis em 25/04/2009 | comentários

Já que chamou na primeira página, na edição de 5 de abril, a reportagem sobre o ‘plano’ da organização Var-Palmares, em que militava Dilma Rousseff, para sequestrar o ministro Antônio Delfim Netto em 1969, a Folha tinha a obrigação de fazer o mesmo com a confissão de que errou duas vezes naquela história. Ao não fazê-lo, errou de novo.


A matéria em que o jornal se retrata ocupa meia página da edição deste sábado, 25.


A Folha reconhece que errou ao publicar como autêntica e originária dos arquivos do Dops uma ficha policial – recebida por e-mail – da atual ministra da Casa Civil.


A Folha estampou o documento sem conferir a sua procedência. Só foi checá-la depois que ministra tomou a iniciativa de procurar o jornal, dizendo desconfiar de que se tratava de uma falsificação. Na ficha, ela é acusada de participar de ações armadas.


Em carta ao ombudsman da Folha, ela desmente enfaticamente o seu envolvimento com ‘ações pelas quais nunca respondi, nem nos constantes interrogatórios, nem nas sessões de tortura a que fui submetida quando fui presa pela ditadura’. Ela destaca ainda nunca ter sido ‘denunciada ou processada pelos atos mencionados na ficha falsa.’


Na retratação, a Folha não conta quem lhe passou a ficha. Fala apenas em ‘uma fonte’. A Folha tampouco diz que a ficha é uma montagem, embora admita não ter encontrado nenhuma referência a ela em nenhum dos arquivos em que pesquisou para a matéria. A posição do jornal é de que, ‘pelas informações hoje disponíveis’, a autenticidade do papel ‘não pode ser assegurada – bem como não pode ser descartada’.


O maior erro da Folha, no entanto, foi outro: publicar o texto sensacionalista ‘Grupo de Dilma planejou sequestro de Delfim Netto’. A referência ao ‘grupo de Dilma’ corresponde ao que os americanos chamam ‘culpar por associação’. No limite, equivale a dizer ao leitor: ‘Veja só quem quer ser presidente da República.’ Dilma negou desde a primeira hora ter conhecimento do presumível plano – e a sua militância é conhecida.


E, pelo próprio teor da reportagem, fica claro que o verbo ‘planejar’ é no mínimo impróprio. A Var-Palmares, isso sim, cogitou o sequestro, segundo entrevista – por telefone! – com um ex-dirigente da organização, Antonio Roberto Espinosa. A ideia não foi em frente.


Mas não teria graça nenhuma um título como ‘Grupo armado pensou em sequestrar Delfim em 1969’. Seria esfriar um prato apimentado com uma pitada de verdade.


Para o bem do jornalismo, resta esperar que seja verdadeira pelo menos a notícia exclusiva da mesma Folha de hoje, segundo a qual Dilma ‘passa por um tratamento prolongado de saúde’ no hospital Sírio-Libanês de São Paulo. Quão prolongado, não está claro. O jornal diz que ‘há um mês’ ela vem fazendo exames e que colocou preventivamente um ‘cateter de longa permanência que facilita o tratamento quimioterápico ou com antibióticos’. A ministra, segundo a Folha, não comentou a informação.  

P.S. [Acrescentado às 16:40 de 25/4]

Evidentemente, este texto foi redigido antes de a ministra revelar que está em tratamento médico, depois de extrair um linfoma.

Todos os comentários

  1. Comentou em 01/05/2009 Elpidio Coutinho

    Trata-se de mais uma reporcagem. Se a vida imita a arte, agora a Folha imita a Veja.
    Vão as duas para a lata de lixo da história.

  2. Comentou em 30/04/2009 Gilson Raslan

    É para continuar com esse tipo de jornalismo de esgoto que a grande mídia não quer nem ver falar em código de ética.

  3. Comentou em 30/04/2009 Rodrigo C

    O pior mesmo é a Folha dar a entender, na matéria errata, que autenticidade é algo que se prova ou ‘não se nega’.

  4. Comentou em 29/04/2009 Wilson Oda

    O único propósito da folha nesse lamentável episódio é fornecer munição
    para o governador José Serra. Fui leitor da folha durante muitos anos e vendo o jornal como ele está hoje, fico menos revoltado do que triste. Eu prefiro ler (hoje assino o estadão) um jornal assumidamente conservador
    do que aquele cujo jargão era o famoso rabo preso….

  5. Comentou em 28/04/2009 Givaldo Barbosa

    Parabéns Weis pela excelente análise, Qto a opção do jornal pela manchete sensacionalista, mas mentirosa, caso ela apareça em propagandas dos oposicionistas à ministra, saberemos de fato qual era a intenção da Folha por tal escolha.

  6. Comentou em 27/04/2009 Nika Pereira

    A Folha deixa claro de que lado está. E fazendo isso comete esse tipo de erro deprimente e lamentável. Espero que eles aprendam com os erros para o bem de quem faz jornalismo com descência, responsabilidade e compromisso.

  7. Comentou em 27/04/2009 Catia Marques

    Muito bem Luiz Weis!
    É dese tipo de observatório que a imprensa precisa…
    São coisas que, em pleno século XXI, até arrepiam…
    E pensar que tem gente que ainda gosta de defender o indefensável Sim, estou me referindo ao Eugenio)….
    Abraços!

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