Segunda-feira, 18 de Junho de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº991
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CÓDIGO ABERTO > Desativado

Escorregões iniciais de 2006 sinalizam ano difícil para o leitor

Por Alceu Nader em 10/01/2006 | comentários

Acabado o descanso, o Contrapauta inicia o ano com um balanço superficial dos primeiros dias de 2006. Superficial, porque a amostra restringe-se à Folha de S.Paulo e ao O Estado de S.Paulo, os dois únicos jornais de circulação nacional disponíveis na cidade de Ubatuba, no litoral norte paulista.


Vários textos merecem reflexão, a começar pelo artigo do escritor e professor Candido Mendes, de 77 anos, membro da Academia Brasileira de Letras e da Comissão de Justiça e Paz, à qual é ligado desde os anos 70, e ‘senior’ do Conselho Internacional de Ciências Sociais da Unesco (o braço da ONU para Educação, Ciência e Cultura). Desde 28 de dezembro passado, informa o site da ONU, o professor também está entre os 20 integrantes da Aliança das Civilizações, uma iniciativa do governo socialista da Espanha, com apoio da ONU, que pretende ‘desenvolver o diálogo e o intercâmbio entre as culturas ocidental e oriental, sobretudo, entre o mundo cristão e o muçulmano, a fim de promover a paz e conter o radicalismo que alimenta tanto o terrorismo internacional quanto a guerra contra o terrorismo’.


Lastreado na experiência e no currículo que não deixa qualquer sombra de dúvida sobre sua capacidade e idoneidade, Candido Mendes assinou, na Folha de S.Paulo de 03/01, o artigo ‘Informação e ditadura da suspeita’, de leitura mais do que recomendável. O texto corrobora bom número de posts veiculados no Contrapauta durante o ano passado sobre o ativismo das maiores empresas de comunicação do país na crise política e é, acima de tudo, brilhante e arrasador desde as primeiras palavras.


Ele começa questionando:



‘Crise, aliás , pseudocrise, ou crise nascida da credibilidade da crise? Até onde, nessa pergunta, já estamos diante inclusive das sentenças mediáticas, em que se plasma uma opinião pública por sobre a espontaneidade das convicções-cidadãs?’


‘Não é outro talvez o problema mais grave da dita democracia profunda, hoje em debate na ONU. Farão os meios de comunicação o deslinde entre a absoluta isenção no informar e o dar à mesma a interpretação, ou o comentário, como se espera do veículo que a porta?’


Mais adiante, depois de colocar o ex-deputado e ex-ministro José Dirceu como o imolado símbolo da crise, acrescenta:



‘A desmoralização do denuncismo, de toda forma, pode ser o saldo da crise, ou pseudocrise. É inseparável do repúdio, pela consciência-cidadã, da informação manipulada e sua conseqüência mais grave para o avanço da democracia profunda. Ou seja, a distância entre opinião pública e formação da consciência popular pela sofreguidão mediática.’


Nos dois parágrafos seguintes, trata de algumas das indecências que vieram à tona envolvendo outros parlamentares de uma das Legislaturas mais maldotadas da história do Congresso:



‘As obsessões pelo impeachment descartaram a própria verossimilhança, transformando o dinheiro de Cuba nas clássicas suspeitas do ‘ouro de Moscou’. O valerioduto jorra simetricamente entre tucanos da mais alta estirpe e petistas da mais ilibada reputação. A liderança do PSDB só pode sair do empate da abominação propondo o inquérito segregado, fora de todo micróbio petista. O caixa dois dos bons separa o trigo mineiro do joio poluído do ABC.’


‘A impaciência do relator Serraglio é a de quem sabe que tem de bater em martelo diante dos impasses em distinguir ou poupar um abuso generalizado do poder econômico no quadro político em que os indigitados ‘mensalões’ repetem e modernizam o nepotismo da República Velha e as clientelas que ainda povoam no atual Congresso Nacional o baixo clero e seus Severinos.’


Candido Mendes não sensibilizou os pauteiros de plantão. A repercussão foi zero. Além do mais, outra polêmica – a que envolveu o secretário de Políticas Públicas, do Ministério da Cultura, Sérgio Sá Leitão, e o poeta, escritor e colunista da Folha de S.Paulo, Ferreira Gullar, também de biografia irretocável. O intercâmbio de impropérios entre os dois pela imprensa ganharia volume, que ainda teria participação de Caetano Veloso a atirar contra o governo. Toda a pinimba reside na nova tentativa do ministério de descentralizar a distribuição de incentivos para produção cinematográfica. Vários interesses poderosos viram-se contrariados e o bate-boca só terminou quando o ministro Gilberto Gil desviou o tiroteio para si. ‘Peçam a minha cabeça’, desafiou, dando razão ao ataque de seu auxiliar aos ‘ ‘ex-privilegiados do cinema’.


Todos os jornais despejaram tintas sobre o vai-e-vem fora de moda, que ressuscitou ninguém menos do que Josef Stálin – o que, indiretamente, oferece uma noção do atraso da discussão – mas o essencial ficou do lado de fora.


Reportagem do O Estado de S.Paulo, do dia 06/01, ‘Diretor dribla maldição de 50 anos e embolsa prêmio’, ilustra, porém, a mudança da rota dos recursos públicos. ‘José Mojica Marins, o Zé do Caixão, nunca recebeu um centavo do governo federal para fazer algum dos seus 38 filmes, mas agora vai dispor de R$ 1 milhão; ele celebrou em churrascaria’, anunciou o jornal.


Se houve silêncio com relação a Candido Mendes, o mesmo não se pode dizer de fontes pouco conhecidas e de currículo milimétrico que surgiram no período para condimentar reportagens. A mesma Folha de S.Paulo escorregou no primeiro dia do ano em reportagem assinada por Sheila Amorim, ‘Gasto em alta acirra conservadorismo do BC’. O texto martela na tese – já adotada por todos os jornais – de que o governo federal vai extrapolar os gastos deste ano para ajudar na reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva. Lá pelas tantas, traz a opinião da economista Sandra Utsumi, identificada como sendo do BES Investimento. ‘O Banco Central’, diz ela, ‘não sabe o impacto que esses gastos terão na economia nem o nível de atividade que o país estará vivendo neste início de ano’.


Tudo bem que havia pouquíssimas pessoas disponíveis para emitir opiniões e avaliações, mas quem é a senhora ou senhorita Sandra Utsumi? Quais são os livros que publicou ou quais trabalhos acadêmicos assina? Qual conhecimento lhe dá sustentação para avaliar o nível de desinformação do BC? A economista pode ter todos os requisitos para afirmar o que quiser, mas nada se sabe dela além de trabalhar no BES Investimento que, aliás, é parte interessada no jogo do mercado e, portanto, não totalmente insuspeita.


Dois dias depois, a mesma Folha de S.Paulo trouxe a avaliação do historiador Manolo Fiorentino, da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Florentino, doutor em História da América e especializado em ‘escravidão’, segundo perfil publicado pela mesma Folha em 2000. O professor Fiorentino versou sobre o desempenho de Lula na entrevista a Pedro Bial, exibida dois dias antes no Fantástico. A breve entrevista sustenta a reportagem principal da página, ‘Para oposição, entrevista foi ‘deprimente’’. Fiorentino é a personagem central do texto ‘Na TV, Lula revelou medo, diz historiador’, no qual ele afirma que viu ‘o medo estampado nos olhos de Lula’ e discorre sobre a exibição presidencial de ‘signos de quem sabe que errou, em todos os sentidos: politicamente, eticamente e como líder’.


O jornal não traz uma linha sobre as obras escritas pelo professor – que não são poucas, é verdade, mas a maior parte delas dedicada ao período escravagista. O professor pode até mesmo ter ampliado seus estudos para a leitura dos ‘signos’ que justificaram sua entrevista, mas o leitor não é informado. 2006 promete dias difíceis para o leitor.

Todos os comentários

  1. Comentou em 05/02/2006 EDI MARCELO DE OLIVEIRA - OFICIAL DE JUSTICA AVALIADOR

    Tai uma boa sugestao para os jornais. Contratar articulistas que tenham otima formacao academica, de preferencia com curriculo no Pais e no Exterior. Assim, os jornais contribuiriam para o conhecimento dos que dependem apenas da leitura dos jornais para seu crescimento cultural. Gente com mestrado, doutorado, com servicos prestados no Brasil, na ONU, etc., temos aos montes, nem preciso citar nomes. No entanto, eles estao distantes das paginas da imprensa. Talvez porisso seja preferivel ler bons livros aos jornais brasileiros.

  2. Comentou em 15/01/2006 Jose de Almeida Bispo

    ‘Candido Mendes não sensibilizou os pauteiros de plantão. A repercussão foi zero.’

    E porque haveria de sensibilizar?
    ESTÁ TUDO DOMINADO, caro Alceu.
    A questão agora é saber até onde a República agüenta esses entrechoques entre os ‘Donos do Poder’ e o povo deles descolado. Numa democracia o voto resolve tudo; por aqui sempre páira a ameaça de algum tipo de golpe. Como o dito cujo ainda em tentativa.

    Nosso blog: http://markltda.blog.uol.com.br

  3. Comentou em 12/01/2006 Cesar Pereira

    Gostei! Particularmente do ‘nada hipervalorizado continua sendo nada…’. E a impressão que temos é que o tradicional papo de boteco, onde vicejam milhares de ‘especialistas’ em política e economia, além de ‘técnicos’ de seleção, passou a freqüentar as colunas da mídia, como se verdade incontestável fosse. Marilena Chauí, no OI televisivo, afirmou com muita propriedade: opinião todo mundo tem… o que tem faltado são idéias!

  4. Comentou em 12/01/2006 Haroldo Mourão Cunha

    Caro Alceu, graças a Deus você está de volta, estava chato ter que ler as mesmas baboseiras de sempre aqui no O.I. Sobre suas obeservações, nada de novo! São os novos tempos com os mesmos velhos hábitos. Você, o Luciano M. Costa, a Marinilda Carvalho, mesmo o Dines estando rabugento com o atual governo e brigando com ninguém e outros, me dão esperanças que a imprensa possa renascer.
    Falta é espaço para os jornalistas de verdade se expressarem, mas não desisto, estou respirando, então há chances.
    Faliz 2006.

  5. Comentou em 11/01/2006 Laerthe Abreu Junior

    Bom retorno. Quero dizer em sua volta depois das merecidas (e curtíssimas férias)que você só engrandece a profissão e me faz sentir mais esperançoso de um dia voltar a ler jornais.

  6. Comentou em 11/01/2006 Édson Luiz Vargas da Silva

    Parabéns pelo texto.
    Penso que quem opina num bar, certamente não necessita ser especialista de nada, mas quando esta opinião é publicada em meios de comunicação de massas, deve ter sim um embasamento científico. A mídia em geral está ‘deitando e rolando’ em função da superficialidade com que as pessoas estão encarando os assuntos sérios da atualidade, assim, na hipótese em que pessoas gabaritadas não estejam dispostas a emitirem opinião a respeito de determinado assunto, usa-se a opinião de uma economista ou mesmo de um arquiteto que queira dar o seu ‘pitaco’ no assunto.

  7. Comentou em 10/01/2006 José Ronaldo Gonçalves

    Caro Alceu: Bem vindo de volta. Analisando com calma o teor e origem das opiniões publicadas à respeito do tratamento político da crise em prol de seu agravamento à qualquer custo por parte significativa da mídia escrita, falada, rosnada e resmungada, cheguei às seguintes conclusões: a) Os verdadeiros interessados, recatadas raposas, pouco se expuseram e, agora cada vez menos. O nível de projeção dos ‘opinantes de conveniencia’ vem decaindo na mesma proporção em que aumenta a estatura daqueles que se opõem à este circo; b) O processo de manipulação, parte importante da razia antipetista eleitoreira, começa a se esgotar e os cães de aluguel começam a andar em círculo. A velha máxima do cão que morde o próprio rabo. c) O Caetano pegou carona numa discussão desimportante e tentou exacerbar-lhe os contornos em níveis estratosféricos. Não fez diferença. Discussão política interpessoal nunca vai dar em nada.Se assim não fôsse, cada boteco viraria um Congresso. Nada hipervalorizado continua sendo nada. Se não estou enganado, os artífices desta crise calcularam mal o alcance de sua credibilidade. O País continua crescendo. A vida vai passando. E nossa paciencia vai acabando. Saudações,

  8. Comentou em 10/01/2006 Marconi Brasil

    Chama-se de apelo à autoridade esse tipo de discurso. Imaginem consultar Einstein a respeito de uma partida de futebol!!! Junto-me ao José Carlos dos Santos e seu comentário. Como arquiteto, quero ter o direito de publicar na Folha os meus achismos sobre o melhor tratamento da AIDS!

  9. Comentou em 10/01/2006 José Carlos dos Santos

    Será que os jornais, não querem me contratar, para publicar meus achismos? já que não é necessário esclarecer o leitor, sobre quem está opinando, principalmente quando publica opinião de pessoas que são parte interessada no assunto tratado. Por exemplo eu poderia falar das vantagens de se ter um Uno, já que estou vendendo o meu, para comprar um novo carro.

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