Segunda-feira, 11 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº969

CÓDIGO ABERTO > Desativado

Especialista diz que milícia já está no tráfico

Por Mauro Malin em 18/01/2007 | comentários

O presidente do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, coronel da reserva da PM de Minas Gerais Severo Augusto da Silva Neto, disse em entrevista ao Observatório da Imprensa, ontem, que grandes traficantes já usam as chamadas milícias, no Rio de Janeiro, para vender drogas no varejo. A principal bandeira das milícias – denominação, por sinal dada pela mídia, conveniente para os velhos grupos de extermínio que agora dominam quase 100 favelas no Rio de Janeiro – é seu antagonismo aos traficantes de drogas, que são expulsos dessas áreas. Essa expulsão, obtida sem grande aparato bélico, seria a demonstração de que agir contra traficantes não é tão difícil quanto afirma a Polícia.


Mas o coronel aponta um paradoxo digno daqueles filmes policiais em que o “mocinho”, depois de liquidar os bandidos, foge com o dinheiro. Severo Augusto afirma que atacadistas de cocaína e maconha – eles os chama de “empreendedores” –, pragmaticamente, já usam as próprias milícias para distribuir seus produtos. Rei morto, rei posto. Em todas essas modalidades e etapas, integrantes da própria Polícia participam de atividades criminosas.


O especialista elogia a disposição demonstrada pelo governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral, de “fazer transformações na questão de segurança pública no Rio de Janeiro”. Ele defende a presença permanente da Polícia e de outros braços do Estado em favelas e comunidades pobres, não apenas incursões em situações de conflagração. Diz que as drogas sintéticas, vendidas fora dos morros, abocanham uma parte do mercado dos traficantes, o que cria novos perigos:


– Eles estão perdendo comércio. Por causa da droga sintética. Quem faz o comércio de droga sintética já não é mais a boca-de-fumo na favela. O traficante cada vez mais vai precisar vender crack, que é a Tubaína nas drogas, para a própria rede dele que vendia cocaína anteriormente, mas que não tinha dinheiro para comprar. Só que o crack deixa as pessoas cada vez mais violentas. É por isso que esses meninos descem do morro feito loucos… Para o traficante não é interessante tocar fogo no ônibus com gente dentro. Nós temos de nos preparar para enfrentar essa mudança de demanda, de mercado, mesmo.


São percepções e análises que ainda não apareceram no noticiário.


Eis a entrevista.


Qual é sua visão a respeito da Força Nacional e do processo iniciado no Rio de Janeiro e em outros estados?


Severo Augusto da Silva Neto – Pelo menos agora eu observei que nós tivemos um governador, não estou falando de partido, nem nada, mas o governador assumiu a responsabilidade de fazer transformações na questão de segurança pública no Rio de Janeiro. Ou seja: houve os incidentes, em função do fenômeno que ainda é pouco conhecido – embora já exista há muito tempo –, das milícias, que começou com um processo que eles chamaram de polícia mineira. Nós temos áreas no Rio em que esse processo de polícia mineira está instalado há mais de trinta anos. Mas agora esse processo começou a invadir algumas áreas e foi isso que desestabilizou um pouco o tráfico.


Esse é um fenômeno que merece um estudo, porque na realidade o tráfico dá mostras de que não é tão forte assim quando é adequadamente enfrentado.


Isso me faz pensar que, se a Polícia trabalhasse de maneira correta, sem relação de capilaridade com o tráfico, como tem sido denunciado, talvez o quadro fosse diferente.


S.A.S.N. – Seria bastante diferente. O quadro se torna diferenciado na medida em que as intervenções policiais não são pontuais, numa área conflagrada, mas são permanentes, com a ocupação daquela área.


A ocupação de que o senhor fala é, vamos dizer assim, bélica, ou uma ocupação estatal?


S.A.S.N. – É uma ocupação não bélica. Não podemos mais ter essas incursões no interior de uma área conflagrada e depois a Polícia sair. Nós temos que ter a entrada e a permanência do organismo policial, para gerar ordem naquele espaço.


Mas o senhor está vendo isso acontecer em algum lugar do Brasil?


S.A.S.N. – Existem alguns programas em que a ocupação não é única e exclusivamente bélica. Porque é preciso fazer a ocupação nessas áreas com resposta e prevenção de Polícia, levando Justiça, identificando quem são os marginais, prendendo esses marginais, julgando, levando-os para um sistema penitenciário que não permita que de dentro eles comandem o tráfico. Mas além disso tudo, da repressão feita pelo Estado, é preciso levar o Estado, educação, lazer, saúde. Quando eu digo ocupar é ir com força e com outros elementos que caracterizam o Estado. O que a gente tem é como aconteceu aqui ontem de manhã (terça-feira, 16/1). O pessoal vai lá, invade [o Morro da Mangueira], cumpre um mandado, troca de tiros, três morrem, a Polícia sai, os traficantes ocupam o espaço novamente. Depois que a Polícia sai eles descem, colocam fogo, voltam para dentro do morro, e fica algo que não é definitivo.


E o que as milícias fizeram? Teve um primeiro embate, expulsaram os bandidos e ocuparam, não deixaram mais os bandidos trabalharem naquele espaço ali.


‘Milícias começaram como forma de sobrevivência”


Eu só pontuaria que as milícias também são constituídas por bandidos.


S.A.S.N. – É. Mas, na realidade, o que aconteceu? Foi um processo que começa com uma forma de sobrevivência. Esse processo se inicia quando os PMs, bombeiros militares, agentes carcerários começaram a ser expulsos dos locais onde moravam, que eram áreas conflagradas.


Acredito que essa é uma descrição correta do fenômeno – em parte, porque na Baixada Fluminense não é bem isso, o esquadrão da morte da Baixada começa num contexto um pouco diferente…


S.A.S.N. – Mas eu estou falando como elas se iniciaram…


No Rio, na Zona Oeste…


S.A.S.N. – É.


Isso aí é o mesmo fenômeno que podemos apontar em relação à resistência carcerária, de presos. Por exemplo, o caso do PCC, quanto mais eu leio, mais eu me convenço de que ele subiu numa plataforma que era legítima, que era quase defender a própria vida, dentro das prisões, e dali ele começou a fazer outras coisas. E a milícia, a mesma coisa…


S.A.S.N. – A mesma coisa. Foram defender a sua própria existência. Só que, depois, o processo foi contaminado. E agora o processo é feito com outras características. É de obtenção de lucro ilícito…


Toda vez que não for o Estado, toda vez que se delegar a alguém essa tarefa…


S.A.S.N. – … o papel do Estado vira bandidagem. Porque aí é feito fora do Estado democrático de direito. E tudo que é fora do Estado democrático de direito é bandido. Fica à margem da lei.


“Empreendedor” já usa milícia


Esse processo se inicia lá na Zona Oeste do Rio de Janeiro…


… Rio das Pedras…


S.A.S.N. – É, a coisa ali já existe há algum tempo. Só que a coisa agora ficou mais conturbada. Quando começaram a perceber: “Além da gente ter sobrevivência, a gente pode ter ganho”. Começam a vender “gatonet” [ligação clandestina de tevê por assinatura], a vender gás. E os bandidos começam a perceber… Porque tem o empreendedor que usa essa mão-de-obra. Esse empreendedor ele está fazendo o quê? “Opa, agora não vou usar mais aquele traficante, agora eu vou usar essa milícia, porque ela é capaz de me atender também”.


O que o senhor chama de “empreendedor”?


S.A.S.N. – É o grande traficante. Ele começa a usar essa mão-de-obra.


Quem é o grande traficante, hoje?


S.A.S.N. – É o sujeito que vai, compra na fonte, transporta e distribui.


Compra na Bolívia, na Colômbia?


S.A.S.N. – Ele tem um processo de compra, transporte e distribuição. Ele é o grande empreendedor. Agora, quem vai vender para ele na ponta, ele faz a contratação local daquele sistema pulverizado da boca-de-fumo. Hoje ele está vendo que ele pode contar com essas milícias também para fazer esse tráfico. E esse é o grande problema.


Isso é novidade.


S.A.S.N. – A gente pode estar tendo única e exclusivamente uma substituição de quem vende na ponta. O tráfico está perdendo força.


Droga sintética, cocaína, maconha, crack


Para mim, ouvir que o tráfico está perdendo força é novidade.


S.A.S.N. – Eles estão perdendo comércio.


Por quê?


S.A.S.N. – Por causa da droga sintética. Hoje, aqueles que iam para a maconha, iam para a cocaína… Quem faz o comércio de droga sintética já não é mais a boca-de-fumo na favela.


É verdade. Houve uma sucessão de prisões de quadrilhas de classe média em Niterói e no Rio de Janeiro. O morro vai ficar mais pobre. É a miséria total, a exclusão completa. Nem droga.


S.A.S.N. – O negócio é muito complicado, porque vai ficar uma massa operária do bandido, com arma na mão… Por isso estão aumentando os assaltos. O traficante cada vez mais vai precisar vender crack, que é a Tubaína das drogas, e ele vai vender para quem? Para a própria rede dele que vendia cocaína anteriormente, mas que não tinha dinheiro para comprar. Para fazer dinheiro agora ele vai ter que introduzir o crack. Só que o crack deixa as pessoas cada vez mais violentas. É por isso que esses meninos descem do morro feito loucos… Para o traficante não é interessante tocar fogo no ônibus com gente dentro. O crack deixa o menino mais louco, mais dependente e mais inconseqüente. Nós temos de nos preparar para enfrentar essa mudança de demanda, de mercado, mesmo.


Hoje pelo menos já há algumas mudanças, os governadores do Sudeste reunidos, os secretários reunidos, a questão da Força Nacional, independentemente de se ela vai produzir resultados, pelo menos mostra a postura de alguém que está dizendo: eu quero combater. Mandar os presos lá para o Paraná, ninguém tinha coragem de fazer isso. Mandou e não entornou o caldo como a gente pensava, no Rio de Janeiro. Estamos precisando de gente mais ousada em tomar medidas. Principalmente analisando a fragilidade do tráfico, entrar por aí.


[Ver também ‘Debate busca raízes da violência‘.]

Todos os comentários

  1. Comentou em 22/01/2007 sujismundo silva

    alguém tem que fazer alguma coisa. não bastassem milhares de profissionais qualificados na rua (metalúrgicos, pedreiros, mecânicos, engenheiros, operadores de telemarketing, advogados…), agora temos uma onda de desemprego no crime.
    acho melhor fazer o que o diogo mainardi sugeriu: a sociedade deveria cheirar uma cota de cocaína para que subsidiássemos o bem estar do morro e comunidades carentes e os bandidos não descessem desesperados porque não se mantêem na moral com o varejo de drogas.

  2. Comentou em 19/01/2007 Jorge Bengochea

    As Milícias estão ocupando o espaço que deveria ser da polícia, assim com a máfia fazia nos EUA na proteção aos imigrantes. Lá, também teve um propósito paladino, mas tendo em vista que o homem tem seus erros e ambição, a proteção, o tráfico e do jogo se tornaram meios de enriquecimento e poder e as táticas de amedrontamento e execuções usadas para ocupar locais, recrutar soldados e eliminar rivais. Nós estamos à beira de um caos, pois o combate ao crime está focada apenas em medidas policiais. Onde estão o Judiciário, o MP, a execução penal e a defensoria pública? E a decretação do estado de defesa para proteger as pessoas inocentes de balas perdidas ou suspeitas infundadas? Não há ordem jurídica para manter criminosos presos por muito tempo, para evitar a saída de mensagens das cadeias, para valorizar e fortalecer as ações policiais, para agilizar os processos, evitar novas chefias e novos soldados nas favelas, ou para criar confiança da população nos Poderes de Estado e na Lei brasileira.

  3. Comentou em 19/01/2007 Rafael Freitas

    Caro Mauro, volto aqui para abordar mais uma questão em relação à violência e ao tráfico de drogas. Os comentários dos leitores abaixo são de arrepiar. A falta de perspectiva nesse debate é tamanha que creio que as pessoas estão ficando loucas. Tem leitor que quer ‘internar’ todos os viciados, prender os jovens em ‘escolas’ integrais… outros, mais polícia, armas, mais do mesmo. As pessoas se iludem com o discurso de que é preciso mais da política do ‘prende, arrebenta e esfola’. Há 30 anos que isso não resolve NADA! E dá-lhe bala perdida que mata as crianças nos morros. Aliás, todo cidadão que morre no morro pelas mãos da polícia é, a priori, bandido, traficante. Quando todos sabemos que a polícia participa do tráfico, isso já foi mostrado, denunciado e comprovado. Agora são as ‘milícias’, isto é, a polícia informal organizada é que disputa com os ‘meninos’ tráfico a venda das drogas. Solução de especialista: mais polícia, mais armas!!! Tem horas que até jornalista apela: peloamordedeus, calma. Basta de guerra! Aponto outro caminho que já deu certo em muitos países: regulamentar o uso e o comércio de drogas (algumas ao menos), cobrar impostos para o Estado, responsabilizar com acréscimo de pena quem for pego em crime drogado, liberar a polícia para tarefas mais dignas e transferir recursos para o sistema de saúde. E deixa definhar, morrer e perder a vida sozinho quem quiser. Só

  4. Comentou em 19/01/2007 Rafael Freitas

    Olá Mauro, deixa eu colocar uma questão que não vejo muito debatida por aí. Desde quando existem drogas? Não precisamos pensar muito. Desde que o homem é homem. As drogas (inúmeras delas) fazem parte da história da humanidade e variam de acordo com a época e a cultura de cada tempo. Algumas são aceitas socialmente (tabaco e álcool, por exemplo, e provocam muitos malefícios, não é mesmo?) e outras não. Pra mim, existe uma questão histórica, social e cultural muito pouco estudada ainda que permitiu que certas drogas pudessem ser aceitas e outras não. Até a década de 20 a cocaína era vendida nas ‘Pharmacias’ e desde nossos índios Tupi que a maconha é conhecida e consumida no Brasil. No novo livro do Eduardo Bueno uma citação exemplifica o escambo de anzóis pela ‘erva de fumar’, quando da construção de Salvador. Aliás, a canabis é uma planta altamente comercializável (resina, tecidos variados…), totalmente tropical, isto é, dá em qualquer varanda do Rio e tem na história da sua proibição nos EUA o dedo do racismo e dos agricultores de algodão. Caro Mauro, pra mim, nosso problema não é o tráfico de drogas, que fique claro, é a POBREZA! Os EUA e a Europa são os continentes que respondem por 70% do consumo de drogas no mundo e não enfrentam gangues com fuzis e granadas. Está na hora de tentarmos outra abordagem. Como diz o poeta: drogas na drogaria!

  5. Comentou em 19/01/2007 Lucas Cassol Gonçalves

    Cara Ligia, apreciei muito sua solução quanto aos cursos profissionalizantes. Mas infelizmente essa atitude em nosso país seria inviável, devido ao extremo caos que já fomos encurralados a muito tempo. Essa proposta seria muita bem aproveitada caso ocorresse algum distúrbio na Noruega, ou na Suíça, mas aqui não. Nosso sistema não precisa “aparar as arestas”, precisamos recomeçar do zero, internando os drogados e desvinculando os que estão presentes no tráfico. Ponto. Não temos mais como camuflar a ineficiência do governo tentando “salvar” as crianças com danças típicas e artesanato, precisamos de atitudes fortes se quisermos nos tornar um país forte. Educação em turno integral para os sadios, e para os viciados a exclusão social até a devida reabilitação. Caso contrário estaremos aumentando a dívida do Estado e além disso simultaneamente pagando as regalias políticas, sem nenhum efeito nem a longo nem a curto prazo.

  6. Comentou em 18/01/2007 ligia mendes mendes

    Desejo que sejam observadas as diversas faixas de idade dos consumidores e seus efeitos comportamentais quando drogados. Muitos de nossos jovens e crianças já se beneficiam deste ramo social. Acredito que a escola pública para estes à margem das comunidades com oficinas profissionalizantes seja uma das soluções.ligia mendes

  7. Comentou em 18/01/2007 Lucas Cassol Gonçalves

    Esta migração para o crack será a degradação do ser humano, é o caos instalado pelo vício descontrolado. Preparem-se, pois será uma batalha sangrenta e épica.

  8. Comentou em 18/01/2007 Marco Costa Costa

    Caro Mauro Malin, procurei apenas ironizar quando escrevi masmorras de alto luxo. Na realidade, o que esta gente precisa são de penas rigorosas em prisões de segurança máxima. Parece que não fui feliz, peço desculpas!!!!!!!

  9. Comentou em 18/01/2007 Marco Costa Costa

    Será que existe alguma diferença entre traficante e membros desta famigerada milícia? No meu parco entendimento como leigo, porém não burro, ambos são bandidos de alta periculosidade. Por esta razão, devemos tratá-los com balas ou então muitos anos de masmorras, destas de alto luxo que existem aos montes por este desorganizado país.

  10. Comentou em 18/01/2007 Fabio de Oliveira Ribeiro

    Pois é meu caro… Já usei este espaço para criticar a atitude da Globo glorificando as referidas milícias. Será que na Globo tem gente com coragem suficiente para colocar o referido coronel no Jornal Nacional? Acho que não… Afinal, a exemplo dos empresários do setor mineral/extrativista, a Globo abre buracos (na verdade) e não se dá ao trabalho de preenchê-los depois que estão abertos.

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