Segunda-feira, 20 de Janeiro de 2020
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1070
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Estatísticas e sensação de insegurança

Por Mauro Malin em 19/06/2007 | comentários

José Cláudio Souza Alves mostra como são diferenciados os padrões de violência nas diferentes regiões do Grande Rio. Arrisca-se a estabelecer uma possível correlação entre surgimento de novos núcleos de desenvolvimento e “limpeza” que provoca matanças. Sérgio Torres relata como descobriu que estatísticas de homicídios são forjadas por “desovas” de cadáveres do outro lado da fronteira municipal.


José Cláudio Souza Alvez – O Rio de Janeiro está num patamar de 40 a 45 homicídios por grupo de 100 mil habitantes. Talvez ultimamente até de 40 para menos. Na média da cidade. Na Baixada, está num patamar de 76 assassinatos por grupo de 100 mil habitantes. Uma diferença considerável. Se você vai para Itaguaí, que é no fundo da Baixada, virou a quarta cidade mais violenta do país. A primeira do estado do Rio de Janeiro. É uma cidade pela qual você não dá nada. Na década de 90 mataram-se lá vários políticos. Teve um mata-mata ali. Como se entende Itaguaí? Onde o capital se desloca, parece que é isso, a violência aumenta. Itaguaí virou uma franja de vários negócios, uma nova prefeitura, uma nova urbanização da cidade, parece que está atraindo, numa lógica econômica, a que se seguem as execuções sumárias e a “limpeza” da área.


Quando se compara a Zona Sul com o subúrbio, periferia ou favela, Copacabana, Ipanema, Leblon, Lagoa, Barra, há várias repúblicas. Na República de Ipanema o IDH é um dos mais altos do mundo, disputa com Suécia, Suíça. Também na Barra da Tijuca. Homicídio nessas regiões? ? baixíssimo. Há um policial por 400 habitantes. Na Baixada é um policial por 1.500 habitantes. Policiamento absurdo na Zona Sul, controle. Vêem-se poucos crimes. Alguns roubos, furtos, assassinatos de turistas aparecem esporadicamente, mas em termos de segurança…


Mauro Malin – Não é a sensação da população.


J.C.S.A. – O jornal é comprado lá.


Paulo Baía – Os que detêm as agências discursivas moram exatamente nessa faixa, faixa Tim Maia, do Leme ao Pontal. Quem trabalha na universidade? Quem são os estudantes do mestrado? Quem são os jornalistas, os artistas, quem tem voz? Estão aí. Não estão em Marechal Hermes, no subúrbio, de onde eu sou.


J.C.S.A. – Vigário Geral… (risos)


P.B. – Eu não tenho voz por ter nascido em Marechal Hermes e sim porque abandonei Marechal Hermes, moro na Praia do Flamengo e sou professor da UFRJ. Aí eu tenho voz.


As agências discursivas que vocalizam o sentimento de insegurança não se fazem ouvir onde efetivamente está ocorrendo o genocídio. O Estado brasileiro, nessas áreas, é um Estado genocida. É um Estado mentiroso. O Estado do confronto. O termo não é meu, é do Jorge da Silva, está na tese de doutorado dele.


E isso já estava presente na tese do [João Luiz] Pinaud, quando ele estuda o quilombo de Manuel Congo [Insurreição Negra e Justiça, 1987]. O responsável pela repressão ao quilombo escreve: “Estes malvados serão mortos, ou presos”. A idéia do genocídio orientou a formação dos aparelhos repressivos brasileiros.


Andrelino Campos – Se pegarmos a formação da polícia, não é que ela tenha sido deformada, a lógica é a mesma, de caça. O capitão-do-mato buscava quem estava fugido. E a polícia foi formada para caçar quem ela acha que está fugido.. Quem está fugido está sempre em comunidades afastadas. Nunca é central.


Entre 1870 e 1900, quando houve a proibição de construção de novos cortiços na área central do Rio de Janeiro, a primeira coisa que se fez foi montar operações policiais – e, obviamente, com a mídia, porque quem está na condução do Estado sempre gosta de aparecer –, com Exército e polícia, para derrubar os cortiços. Obviamente noticiado no dia seguinte pela imprensa.


E o deslocamento dessas pessoas tem endereço certo: são as favelas. ? lá que elas vão ser caçadas depois. Tanto é que Benjamin Costallat, quando quer fala da Providência, onde era o Morro da Favela, diz “é lugar de bandido, de à toas, lugar que a Polícia não deveria ter deixado existir”.


Essa população sempre foi tratada como lixo. Falar de cidadania é um paradoxo.


Sérgio Torres – Eu queria comentar o que o professor Paulo falou sobre o Estado genocida, a partir de minha experiência. Quando, no finzinho do governo Garotinho, se criaram as ?reas Integradas de Segurança Pública, dividiram o estado em não sei quantas áreas e ali dentro o comandante do batalhão e o delegado tinham algumas atribuições de redução de criminalidade. E quem tivesse sucesso teria, não me lembro se uma remuneração adicional, ou promoção, o que seja.


Eu descobri, depois de uns seis meses de implantado o esquema, que os locais onde mais se matava eram Itaboraí e Itaguaí. Eu sugeri uma matéria nesses locais e fui a Itaboraí. Deve ter sido em 2000, 2001. Itaboraí tinha uma Delegacia Legal, uma das primeiras. Era um delegado novo, que me pareceu muito competente no que dizia, no que fazia, hoje está até aparecendo muito. Me contou por que as coisas era como eram, o que ele fazia. Se queixava muito que São Gonçalo tinha um número menor de homicídios. Mas ele dizia: Quem mata e joga aqui é o comandante da PM de São Gonçalo, ele é matador – e pode ver, você atravessa dez metros, é Itaboraí, ele joga tudo lá.


Num outro dia eu fui para Paracambi. Paracambi era superviolento. Paracambi não tinha um homicídio há oito meses. A delegacia de Paracambi não era uma Delegacia Legal, o delegado devia ter uns 100 anos, estava sentado lá, de saco cheio: Meu filho, aqui não morre ninguém. Você não sabe que aqui não morre ninguém? O último que morreu foi há oito meses, um marido bêbado matou o amante da mulher, uma coisa assim. Eu pensei: Um ao lado do outro, enquanto num morre gente à beça no outro não morre ninguém?


Fui para Itaguaí (ver mapa, adiante). O delegado falou: Eles jogam tudo aqui! Matam lá, jogam aqui!



(Mapa montado por Tatiane Klein.)


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