Domingo, 17 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

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Etanol: duas FAOs e duas medidas

Por Bruno Blecher em 10/08/2007 | comentários

 


Enquanto o presidente Lula buscava parcerias no Caribe para driblar as barreiras tarifárias para etanol brasileiro nos EUA, no Brasil dois de seus mais conhecidos ‘braços esquerdos’ (Frei Betto e José Graziano) travaram uma batalha pela internet sobre as vantagens e ameaças do biocombustível.


Embora seja um tema importante, passou batido na imprensa. A mídia, principalmente nas páginas de economia e negócios, fala muito das qualidades do etanol como combustível limpo e renovável, mas dedica pouco espaço para avaliar seus eventuais impactos.


Na queda-de-braço entre Frei Betto e José Graziano, discutiu-se se a expansão da agricultura energética pode causar aumento dos preços de alimentos e até uma eventual escassez de comida. Como bom pugilista cubano, Frei Betto compartilha do argumento de Fidel Castro, para quem o ciclo dos agrocombustíveis já provoca o aumento dos preços dos alimentos. Ele vai além: chama os biocombustíveis de necrocombustíveis.


Para comprovar sua tese, Frei Betto aponta estudo da OCDE e da FAO, de julho último, que falam em forte impacto na agricultura entre 2007 e 2016, gerado pelo crescimento da agroenergia. Os preços agrícolas ficariam acima da média dos últimos dez anos. Os grãos podem custar de 20 a 50% mais. ‘Vamos alimentar carros e desnutrir pessoas. Há 800 milhões de veículos automotores no mundo. O mesmo número de pessoas sobrevive em desnutrição crônica. O que inquieta é que nenhum dos governos entusiasmados com os agrocombustíveis questiona o modelo de transporte individual, como se os lucros da indústria automobilística fossem intocáveis’, diz Frei Betto.


Seu ex-colega de governo, o professor José Graziano, o idealizador do programa Fome Zero, discorda. Na opinião de Graziano, há uma ideologização descabida nessa discussão. O engraçado é que Graziano, que hoje é representante da FAO para a América Latina e Caribe, diz que a organização vai entrar na briga do etanol, provando que o biocombustível não vai competir com a produção de alimentos. Ou seja, a mesma FAO que produziu estudos sobre as ameaças do etanol à alimentação, também vai apresentar argumentos contrários a essa tese.


Segundo Graziano, a FAO, a pedido do presidente Lula, fez um diagnóstico sobre o assunto e concluiu que os biocombustíveis não prejudicam a produção de alimentos no mundo, como dizem Hugo Chávez e Fidel Castro. Esse estudo, ao contrário do estudo do Frei Betto, revela que dos anos 1960 até hoje a América Latina e Caribe triplicaram a produção de alimentos.


Resta saber qual FAO está correta: a de Frei Betto/Fidel Castro ou a de Lula/Graziano? Prefiro o dito popular: nem tanto ao mar, nem tanto a terra.

Todos os comentários

  1. Comentou em 21/09/2007 Murilo De Paula Souza

    O bio-combustível já provocou aumento de preços de alimentos. Ocorreu com maior intensidade principalmente no México, que usa milho para seu alimento básico, a tortilha, e importa parte substancial do milho para sua produção. Mas no caso parece haver oportunismo de mercado, pois o milho para a tortilha é o branco, que não é usado para biocombustível embora possa ser afetado por redução de área planta em favor do milho amarelo. Por outro lado, a produção de tortilha no México que é majoritáriamente industrial é altamente oligopolizada, dando oportunidade para manobras altistas de preço para o consumidor. Segundo estudos recentes do USDA, abrem-se oportunidades para o Brasil como exportador de milho, ocupando parte do lugar dos EUA, maior produtor e exportador de milho. Lembrando que o resíduo da transformação do milho em etanol, é perfeitamente aproveitável como ração proteica de alta qualidade. Só se perde o amido que vira etanol. Como os EUA usam largamente o milho para adoçantes, abrem-se oportunidades para o açucar de cana também.

  2. Comentou em 01/09/2007 paulo de almeida

    Dá p entender a contradi#ao: a FAO está em crise profunda.

  3. Comentou em 12/08/2007 Arthur Alencastro Puls

    Por que diabos não investem no hidrogênio?

  4. Comentou em 12/08/2007 Luiz Rodriguez Noriega

    Eu não vejo contradição nestes dois estudos. José Graziano está se baseando no período dos anos 60 até hoje. Enquanto Frei Betto está apontando um estudo que projeta pra 2016. Um diz que por enquanto(do passado até hoje) está tudo normal, outro diz que a coisa no futuro vai piorar. Embora eu não tenho a mínima simpatia por nenhum dos dois, me parece que Frei Betto levou uma pequena vantagem nessa discussão. Ele parte do princípio de que muitos países estão começando a mudar sua política energética, seja por causa dos informes sobre aquecimento global, ou em função dos preços do petróleo, resultando num aumento razoável (exponencial?) da demanda por grãos, desse modo, elevando os preços. Dos anos 60 até hoje, os países não experimentaram a produção e consumo de etanol em larga escala, isto é, a relidade que José Graziano compara não é a mesma citada por Frei Betto. Em todo caso, creio que ambos têm razão, por enquanto. A oferta não logrará cobrir o aumento da demanda, porém, as pesquisas e a tecnologia disponível estão aí pra enfrentar este problema, obtendo etanol eficientemente a partir de fontes que não são usadas na alimentação de pessoas ou animais. O futuro dirá quem estará com a razão.

  5. Comentou em 11/08/2007 pompilio canavez

    A invasao da cana já é realidade. Agora é necessário criar regras e restriçoes para o plantio nas regioes agrícolas do Brasil. No sul de Minas, a cana disputa espaço com diversas outras culturas, sendo que na regiao, a monocultura do cafe ja ocupa parte das nossas montanhas. Meu temor é que, sem restrições, a cana invada e ocupe tdas as planícies, o que pode transformar uma das mais ferteis regioes do país num deserto verde…

  6. Comentou em 10/08/2007 Milton Correa de Morais

    A teoria do Frei Betto é muito fora de lógica. Nós somos um país agrícola e com potencial de aumento de produção e produtividade. Quando se fala em óleo vegetal para combustíveis, não se fala em soja, já que a produção do óleo pro ha é pequena, se fala em pinhão manso, mamona e em palma, que produzem muito mais óleo por hectare e são culturas com tendência para a agricultura familiar ou pequeno produtor. Não há razão para temermos os biocombustíveis, eles serão muito úteis e em todos os sentidos. E terra para ser explorada ainda temos de montão.

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