Quarta-feira, 19 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1018
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Etanol: duas FAOs e duas medidas

Por Bruno Blecher em 10/08/2007 | comentários

 


Enquanto o presidente Lula buscava parcerias no Caribe para driblar as barreiras tarifárias para etanol brasileiro nos EUA, no Brasil dois de seus mais conhecidos ‘braços esquerdos’ (Frei Betto e José Graziano) travaram uma batalha pela internet sobre as vantagens e ameaças do biocombustível.


Embora seja um tema importante, passou batido na imprensa. A mídia, principalmente nas páginas de economia e negócios, fala muito das qualidades do etanol como combustível limpo e renovável, mas dedica pouco espaço para avaliar seus eventuais impactos.


Na queda-de-braço entre Frei Betto e José Graziano, discutiu-se se a expansão da agricultura energética pode causar aumento dos preços de alimentos e até uma eventual escassez de comida. Como bom pugilista cubano, Frei Betto compartilha do argumento de Fidel Castro, para quem o ciclo dos agrocombustíveis já provoca o aumento dos preços dos alimentos. Ele vai além: chama os biocombustíveis de necrocombustíveis.


Para comprovar sua tese, Frei Betto aponta estudo da OCDE e da FAO, de julho último, que falam em forte impacto na agricultura entre 2007 e 2016, gerado pelo crescimento da agroenergia. Os preços agrícolas ficariam acima da média dos últimos dez anos. Os grãos podem custar de 20 a 50% mais. ‘Vamos alimentar carros e desnutrir pessoas. Há 800 milhões de veículos automotores no mundo. O mesmo número de pessoas sobrevive em desnutrição crônica. O que inquieta é que nenhum dos governos entusiasmados com os agrocombustíveis questiona o modelo de transporte individual, como se os lucros da indústria automobilística fossem intocáveis’, diz Frei Betto.


Seu ex-colega de governo, o professor José Graziano, o idealizador do programa Fome Zero, discorda. Na opinião de Graziano, há uma ideologização descabida nessa discussão. O engraçado é que Graziano, que hoje é representante da FAO para a América Latina e Caribe, diz que a organização vai entrar na briga do etanol, provando que o biocombustível não vai competir com a produção de alimentos. Ou seja, a mesma FAO que produziu estudos sobre as ameaças do etanol à alimentação, também vai apresentar argumentos contrários a essa tese.


Segundo Graziano, a FAO, a pedido do presidente Lula, fez um diagnóstico sobre o assunto e concluiu que os biocombustíveis não prejudicam a produção de alimentos no mundo, como dizem Hugo Chávez e Fidel Castro. Esse estudo, ao contrário do estudo do Frei Betto, revela que dos anos 1960 até hoje a América Latina e Caribe triplicaram a produção de alimentos.


Resta saber qual FAO está correta: a de Frei Betto/Fidel Castro ou a de Lula/Graziano? Prefiro o dito popular: nem tanto ao mar, nem tanto a terra.

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