Sexta-feira, 24 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

CÓDIGO ABERTO > Desativado

Europeus advertem: a mídia não pode tudo

Por Luiz Weis em 16/02/2006 | comentários

Deu na Folha:


O Parlamento Europeu deve votar hoje uma resolução exortando os países-membros a ‘não abusar’ da liberdade de expressão e a não usá-la para ‘incitar o ódio religioso ou divulgar declarações xenófobas e racistas’.


A proposta foi feita por todos os sete grupos políticos do Parlamento depois da eclosão de violentos protestos no mundo islâmico por conta da publicação, na Dinamarca, de charges do profeta Muhammad e de sua subseqüente reprodução por outros órgãos da imprensa européia e mundial.


O texto, que pede o ‘uso responsável’ da liberdade de expressão, também condena a violência dos protestos, cujo saldo em pouco mais de duas semanas é de 18 mortos.


‘A liberdade de expressão é um bem precioso. Mas seu exercício prevê a responsabilidade do indivíduo’, declarou o secretário de Estado para Assuntos Europeus da Áustria, Hans Winkler. A Áustria hoje detém a presidência rotativa do bloco. Winkler afirmou que a liberdade de expressão ‘tem limites’, sobretudo quando ‘fere suscetibilidades religiosas’.


[Mais ainda, acrescento eu, quando insufla a xenofobia.]


Mas o presidente da Comissão Européia, José Manuel Durão Barroso, advertiu contra a censura – o Parlamento estuda criar um código de conduta para a mídia, ao qual os veículos obedeceriam voluntariamente – e se solidarizou com os dinamarqueses, ‘um dos povos mais abertos e tolerantes da Europa e do mundo’. [Fim da citação].


Os podres da Dinamarca


“Um dos povos mais abertos e tolerantes da Europa e do mundo”?


Domingo passado o New York Times publicou um artigo do jornalista Martin Burcharth, correspondente nos Estados Unidos do jornal dinamarquês Information. Trechos:


“Nós, dinamarqueses, ficamos cada vez mais xenofóbicos com o passar dos anos. A publicação das charges só pode ser vista no contexto de um clima de disseminada hostilidade em relação a tudo que seja muçulmano na Dinamarca”.


“Há mais de 200 mil muçulmanos nesse país de 5,4 milhões de habitantes. Poucas décadas atrás, não havia nenhum. Não surpreende que o Islã seja visto por muitos com uma ameaça à sobrevivência da cultura dinamarquesa.”


“Durante 20 anos, os muçulmanos na Dinamarca não podiam construir mesquitas em Copenhage. Mais ainda, não há cemitérios muçulmanos no país, o que significa que os corpos de muçulmanos mortos ali devem ser transportados para as suas terras de origem, a fim de terem um sepultamento adequado.”


“Depois das queimas de bandeiras [em países islâmicos], a mídia dinamarquesa passou a se referir à cruz branca sobre campo vermelho na bandeira nacional como um símbolo cristão.”


“A Dinamarca é um dos países mais seculares da Europa. Apenas 3% dos dinamarqueses vão à igreja uma vez por semana. Agora, a sua bandeira se tornou o símbolo mundial do desprezo da Dinamarca por outra religião mundial.”


***

Serão desconsideradas as mensagens ofensivas, anônimas e aquelas cujos autores não possam ser contatados por terem fornecido e-mails falsos.

Todos os comentários

  1. Comentou em 23/02/2006 MANOEL PINTO

    Pois é. O comportamental ético mede a exata dimensão sensacionalista ou não de um indivíduo.A liberdade de expressão exige muita atenção no que se fala, no que se diz.Adversidades se discute, se dialoga, não se agride, ainda mais religião onde todas devem ser no mínimo tão respeitadas quanto a liberdade de expressão de cada um.

  2. Comentou em 17/02/2006 Jorge Lima

    ‘A história só se repete como farsa’, escreveu um pensador cujo nome não recordo no momento. Discordo. O que está acontecendo no momento justifica a frase de Santaiana: ‘Aqueles que não conhecem a história, estão condenados a repetir os erros do passado’.
    Parece que recuamos 900 anos no tempo, e revivemos as ‘guerras santas’ pela retomada de Jerusalém. Com o agravante de que alguns malucos, xenófobos ou fanáticos religiosos, resolveram afrontar uma religião que possui 1.000.000.000 de seguidores.
    Se já não bastava o ‘Júnior’ dizer que a guerra contra um terrorismo era uma ‘Cruzada’, agora aparecem outros, jogando gasolina na fogueira, para dizer que a bandeira da Dinamarca, origem de toda a crise, é um ‘símbolo da cristandade’.
    O próximo passo, com certeza, é surgir um herdeiro dos Plantagenetas para reinvindicar o cetro de Ricardo Coração de Leão e organizar um exército (Brancaleone, com certeza), para invadir o Oriente Médio.
    Menos, gente, menos.

  3. Comentou em 16/02/2006 Helenice Araújo Costa

    Toda essa polêmica tem subjacente a intolerância que volta e meia ressurge nos ditos países de primeiro mundo, a ponto de, há alguns anos, o primeiro ministro italiano ter afirmado a necessidade de ‘ocidentalizar’ o mundo.
    A bem da verdade, muito mais do que irresponsabilidade, a atitude da mídia é de segregação, de intolerância, de desrespeito às diferenças culturais. É essa mesma visão preconceituosa que está por trás do assassinato cruel do brasileiro Jean Charles pelos policiais britânicos. Hitler deixou muitos seguidores.

  4. Comentou em 16/02/2006 Washington Ferreira

    Poxa, cheguei depois do Fábio de Oliveira Ribeiro. Tudo bem, azar o meu, mas tenho ainda duas coisas a dizer. Uma, é que os ‘reaças’ entrincheiraram-se na mídia convencional, sabedores de que nos blogs sempre haverá o contraditório. Outra, é que Luiz Weis dignifica e honra a nossa classe.

  5. Comentou em 16/02/2006 Fabio de Oliveira Ribeiro

    Suas observações acerca da suposta ‘liberdade religiosa’ na Dinamarca são excelentes. A cobertura da TV sobre o incidente deu a enteder que os dinamarqueses são santinhos tolerantes e os árabes demônios insuportáveis. É realmente um prazer consultar seu blog. Continue assim.

    PS: Creio que o Parlamente Europeu cometeu um engano. Ao invez de recomendar cautela no emprego da liberdade de imprensa deveria ter condenado a Dinamarca se retratar diante dos mulçumanos e recomendar a condenação do jornal que publicou as charges ofensivas ao profeta a reproduzir as iranianas (que além de esteticamente superiores não são tão ofensivas quanto as anteriores).

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