Segunda-feira, 11 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº969

CÓDIGO ABERTO > Desativado

Excessos, abusos – e a hipocrisia da mídia

Por Luiz Weis em 25/05/2007 | comentários

Dia de unanimidade nas manchetes:

‘Governo reconhece ´excessos` da PF’ (Folha). ‘Congresso, Judiciário e Lula reclamam de abusos da PF’ (Globo). ‘Ministério vai apurar se PF cometeu abuso na operação’ (Estado).

Excessos e abusos da PF não hão de ser as escutas telefônicas da Operação Navalha. Não se sabe de nenhuma que não tenha sido autorizada previamente pela Justiça.

Não hão de ser tampouco as 48 prisões efetuadas pela PF. Ela cumpriu ordens de um ministro – aliás, uma ministra, Eliana Calmon – do Superior Tribunal de Justiça. Quando a ministra disse não, no caso do governador do Maranhão, Jackson Lago, preso ele não foi. Dos que foram, 35 já saíram, também por ordem judicial, cumprida sem contestações nem corpo-mole.

Até aí, Estado democrático de direito para ninguém pôr defeito.

O que há de errado é público e notório: os muitos vazamentos para a imprensa de trechos de um inquérito que era para correr em segredo de Justiça. Principalmente, de passagens dos grampos telefônicos. Geralmente, para mostrar serviço. Possivelmente, em alguns casos, por vingança: para ferrar com certos grampeados ou com pessoas citadas nas conversas interceptadas. Ou ainda para fazer favor a um desafeto político dos dedurados.

É o que o ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal, chamou de ‘canalhice’.

Pois bem. Tem um ditado americano que diz que para dançar tango se precisa de dois – ‘two to tango’.

Sem a parceria da mídia, os vazadores não teriam com quem dançar. E a isso, a mesma mídia que mancheteia queixas de ‘excessos’ e ‘abusos’ dá as costas, como se não fosse com ela.

Vamos nos entender: está para nascer o jornalista que deixará de divulgar trechos incriminadores de documentos oficiais, não apócrifos, portanto. Quanto mais sigilosos, quanto mais apimentados, melhor. Foram recebidos de ou garimpados junto a autoridades cujos nomes serão devidamente preservados, conforme as regras desse tipo de acordo tácito de mútua conveniência.

É da natureza do jornalismo, como diria o escorpião ao sapo, antes de ferroá-lo e afundar com ele no meio do rio.

O que não dá para tolerar é a hipocrisia: jornais e emissoras que participaram gostosamente da pirotecnia de que se acusa a Polícia Federal fazendo no outro dia eco às denúncias – procedentes – de violação de privacidade, linchamento moral, condenações sem julgamento. Enfim, de graves atentados aos direitos individuais teoricamente garantidos pela Constituição.

Constituição que não distingue entre corruptos e não corruptos, bandidos e mocinhos.

Não é porque certas coisas são inevitáveis que elas mudam de figura. O jornalista não pode fingir que entra de gaiato na história. Nem alegar que o direito à informação é absoluto, em nome do interesse coletivo.

Afinal, se é canalhice um agente público repassar informações de inquéritos sob segredo de Justiça, como se chamará o ato de divulgá-las?

***

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Todos os comentários

  1. Comentou em 29/05/2007 Maria Izabel Ladeira Silva Silva

    Caro Weis. Poucas vezes, neste OI, encontrei um texto tão pertinente quanto este seu. Excesso, abuso, e hipocresia são termos que definem com perfeição a atuação da grande Imprensa em assuntos sérios, que mereceriam menos pirotecnia e mais responsabilidade. As nossas instituições precisam ser respeitadas e fortalecidas, a fim de que essa lama toda possa ser limpa. Porém, o papel da Imprensa tem sido pífio, e só tem contribuido para afundar o país.

  2. Comentou em 27/05/2007 Marnei Fernando

    O comentário do eduardo oliveira, jornalista (brasilia/DF)… demonstra bem o nível de jornalistas que infestam as redações Brasil afora… É evidente que não se pode afirmar coisas sem provas…. contra o Collor ou contra quem quer que seja… A imprensa que este senhor representa é um cãncer da democracia que tem que ser curado… Só uma nova geração de jornlistas frmados por mestres como o Sr. Weis pra dar jeito nisso.

  3. Comentou em 26/05/2007 valter silva silva

    a imprensa é esquisita, mas o que se pode esperar de jornalistas que são patrocinados por bancos? apregoa que o povo tem memória fraca quando é o seu dever , e para isso foi inventada, não deixar os fatos e descobertas serem subtraídos da história caso fosse uma imprensa investigativa -mas eu duvido que nas faculdades-franchise de comunicação até mesmo saibam o que isso significa – não ficariam na dependência de envelopes enigmáticos ou telefonemas a partir de numeros restritos: investigariam … o caso do senador […], digo, calheiros, é bem ilustrativo – basta ir lá nos jornais da era collor para relembrar que o distinto político sempre viveu de mesadas […] Se eu, que não sou ninguém, sei disso … at valter silva

  4. Comentou em 26/05/2007 Jussara Seixas

    Perfeito o seu texto, a mídia é abusada. A mídia corrompe servidores das instituições, para obter os ‘vazamentos’. A palavra ‘exclusividade ‘para a mídia é o mote para a compra de informações sigilosas. A mídia tão empenhada em denunciar corrupção, e os corruptos que lhe convier, não olha para próprio rabo. Ela denuncia, julga,condena ao seu bel prazer, conforme os seus interesses do momento.

  5. Comentou em 25/05/2007 ubirajara sousa

    Posso estar errado, mas, que eu saiba, Lula mandou averiguar se houve excessos nas prisões efetuadas pela PF ; não reclamou de abusos dela. Quanto ao texto, seja do Noblat, seja do Weis, está excelente: como deveriam ser todos os textos do OI. Aliás, que eu saiba, aqui está o suprasumo do jornalismo tupiniquim. Parabéns.

  6. Comentou em 25/05/2007 José Ayres Lopes

    E que nome daremos ao destempero e ao nervosismo do ministro Gilmar Mendes?

  7. Comentou em 25/05/2007 Augusto César Mourão e Lima

    Caro Weis,
    Mais uma vez análise perfeita, Aliás, o Noblat parece que anda estudando os teus escritos. O blog dele é, na essência, igualzinho ao seu comentário.
    Parabéns
    Augusto César

  8. Comentou em 25/05/2007 Dante Caleffi

    O Globo ,perdeu a noção de jornalismo,com essa manchte ‘non sense’
    :Lula reclama da PF!Chefe ,não reclama ordena; exige explicações,pune ou não.Em hierarquia nenhuma, superior queixa-se ao subordinado.

  9. Comentou em 25/05/2007 Marco Costa Costa

    A Constituição distingui sim senhor, entre corruptos e não corruptos, bandidos e mocinhos. Então vejamos, quando se trata de um corrupto pobre, que pega migalhas de terceiros, a imprensa detona com a imagem do facínora menor, a Justiça zelosa rapidamente julga e condena o marginal, apenando o cara com vários anos de cadeia, a qual será curtida numa dessas masmorras de alto luxo. No entanto, quando se trata de um corrupto abonado e com patente graduada, uma liminarzinha ou uma absolvição rapida libera o bandido para ficar no ceio da família. Temos o bandido pé de chinelo, quando é pego numa conduta inadequada vai para a cadeia sem direito a defesa, logicamente pôr falta de dinheiro e permanece anos aguardando uma definição da Justiça, bem com a imprensa escracha o vigarista. Agoira quando o mocinho(bandido) comete um deslize, a Justiça não dá a mínima, como também a imprensa não noticia ou quando o faz, faz de forma superficial. Portanto, temos duas Constituições, uma para o homem rico, e a outra para o pobre. Alguma duvida?

  10. Comentou em 25/05/2007 Ivan Moraes

    ‘como se chamará o ato de divulgá-las?’: manipulacao das massas.

  11. Comentou em 25/05/2007 Marnei Fernando

    É exatamente isso Sr. Weis… esta mídia que está aí, com os profissionais viciados que estão aí, vai ser dificil de ser corrigida… Só mesmo uma próxima geração de jornalistas para dar jeito… e como eu já disse noutra oportunidade: Seu trabalho é fundamental para melhorar o Brasil dos meus filhos Sr. Weis… Obrigado!

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