Sexta-feira, 20 de Outubro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº962

CÓDIGO ABERTO > Desativado

Famosas últimas palavras

Por Luiz Weis em 12/10/2007 | comentários

Ao sair do Senado do qual deixara de ser presidente por 45 dias – ou, o futuro dirá, para sempre – Renan Calheiros disse apenas cinco palavras aos jornalistas que o assediavam:


‘Vocês não foram gentís comigo.’


Há muito tempo a imprensa brasileira não recebia tamanho elogio. Imprensa ‘gentil’ – com quem quer que seja – é imprensa servil.


Não, a imprensa não foi gentil com o político alagoano que se imaginava imune ao que fosse por ser muito, muito gentil com os seus pares, na forma dos favores que o seu cargo e a sua influência – como herdeiro de José Sarney na condição de primeiro-aliado do governo no Congresso –  lhe permitiam distribuir.


A santa falta de gentileza da imprensa permitiu aos brasileiros descobrir os podres e a prepotência que se escondiam sob a bonomia da persona pública de Renan Calheiros.


Entre esses podres não se incluem – repito, não se incluem – nem o caso dele com a jornalista que graças a isso virou, ao fim e ao cabo, a coelhinha do mês da Playboy, nem mesmo o uso de um lobista de empreiteira para que ela recebesse o acertado depois da separação.


‘Nem mesmo’, porque, apesar de todos os indícios nessa direção, a revista Veja, que expôs a promíscua triangulação, não conseguiu provar serem do lobista ou da empreita para quem ele trabalha o dinheiro repassado em cash, mês a mês, à ex-amante de Renan. 


É verdade que ele tampouco provou serem dele os reais. Mas apenas a massa de fatos e cifras que a mídia, a começar da TV Globo, levantou sobre a digamos, evolução patrimonial de sua excelência já bastaria, com sobras, para justificar a sua cassação por indecoro. Isso, sem falar no laudo devastador da Polícia Federal sobre as alegações do senador.


Veio em seguida, numa escalada de pornografia política, a crônica dos seus alaranjados negócios na área de comunicação com o usineiro (rima com cangaceiro) João Lyra, denunciados por ele à mídia e ao corregedor do Senado Romeu Tuma, e a fracassada tentativa de bisbilhotar, para chantagear, os senadores goianos Marconi Perilo e Demóstenes Torres. Com o que o gentil presidente do Senado mostrou, ao que tudo indica, não ter escrúpulo algum de importar das Alagoas para o Planalto métodos típicos do coronelato político que ainda desgraça o Nordeste.


A mídia sai da história – se é que já é tempo de falar em sair – melhor do que nela entrou. Exatamente por não ter sido gentil com quem não merece esse tratamento pela simples e elementar razão de ser uma figura pública, um político que vive dos votos e do bolso do povo.


E, do específico ângulo do que os poderosos esperam da mídia e do que a mídia deve fazer para merecer fé pública, Renan Calheiros sai da história – se é que já é tempo de falar em sair – enriquecendo, involuntariamente, a vasta coleção das proverbiais famosas últimas palavras.


P.S. Folha pega no pé da TV Brasil – e tropeça


Enganosa a manchete interna da Folha de hoje ‘TV do governo terá servidor sem concurso’.


Começa pelo uso da palavra ‘servidor’. A TV Brasil não é uma repartição. É uma empresa. Pode contratar e demitir pela CLT. Se a medida provisória que a criou usa indevidamente o burocratês, não é a razão para o jornal imitá-la. A Folha tem servidores, por acaso?


Segundo, por que raios um órgão de mídia, ainda que bancado (majoritariamente) pelo erário, deve escolher seus quadros por concurso? Para, aí sim, se igualar a um órgão oficial? Para dar aos seus empregados os privilégios a que não fazem jus os seus equivalentes da Empresa Folha da Manhã S.A., por exemplo?


Ah, mas a contratação de ‘servidores’ sem concurso público – por 36 meses, ressalve-se, é meio caminho andado para transformar a TV Brasil num cabide de empregos.


Du-vi-de-ó.


Já não bastassem a integridade testada e aprovada de seus dirigentes e as atribuições do Conselho Curador da TV para mantê-la nos conformes, é certo como dois e dois são quatro que a mídia esquadrinhará de microscópio em punho a nova emissora e a Empresa Brasil de Comunicação na qual ela se insere, em busca de malfeitos.


Não se pede que a mídia seja gentil com a TV Brasil. Basta que não invente razões para induzir o leitor a vê-la com olhos tortos.

Todos os comentários

  1. Comentou em 15/10/2007 ubirajara sousa

    Quem diria hein Sr. Weis, o senhor censurando textos. Qual foi a regra que eu desrespeitei para que a minha crítica ao seu artigo não fosse publicada? Só por causa dos acentos? Que bobagem, todos erramos. Publique o meu comentário, pois assim o livre direito à expressão estará mantido. Afinal, esse direito não é conferido apenas à imprensa. Um abraço.

  2. Comentou em 13/10/2007 Josè Lucas Ferraz

    Vocês jornalistas são surdos e cegos para alguns fatos. Todos escreveram e falaram alguma coisa sobre o Renan. Leio aqui, todos os dias, os comentários dos leitores criticando a parcialidade de vocês e nada. Nem uma linha sobre os ‘outros’.
    Inté
    Zeluca

  3. Comentou em 12/10/2007 ubirajara sousa

    Sr. Weis, o senhor, como bom jornalista que é, não fugiu à regra: ainda que sem nenhuma prova, acusou. Ou isto que que o senhor escreveu não é uma impropriedade? ‘… e a fracassada tentativa de bisbilhotar, para chantagear, os senadores goianos Marconi Perilo e Demóstenes Torres. Com o que o gentil presidente do Senado mostrou, ao que tudo indica, não ter escrúpulo algum de importar das Alagoas para o Planalto métodos típicos do coronelato político que ainda desgraça o Nordeste.’ Como se atreve o senhor a afirmar tal coisa? Seja menos apressado. Espere a conclusão das invstigações. E por falar em açodamento, eu acho que gentis não leva acento, ou já leva? E o senador Renan deixará o sanado por 45. Faltou um acento na palavra ‘deixará’. Talvez tenha sido fruto da emoção. A emoção às vezes cega.

  4. Comentou em 12/10/2007 Ivan Moraes

    Sinta se ovacionado calorosamente, Weis. Essa foi o maximo!

  5. Comentou em 12/10/2007 Henry Fulfaro

    De acordo! E espero que a imprensa não seja mais gentil do que foi até agora no caso Abril/Telefônica, e nem tampouco com o tucanoduto. Vamos aproveitar o momento e passar a limpo não só a vida íntima de Renan Calheiros, mas ao menos as falcatruas mais evidentes.

  6. Comentou em 12/10/2007 Ricardo Camargo

    Sr. Weis, mesmo as pessoas de direito privado com participação do erário público estão obrigadas, de acordo com a jurisprudência do STF e do TST, a realizarem concurso para a admissão em caráter permanente, nos termos do inciso II do art. 37 da Constituição. O fato de terem de realizar concurso não é, entretanto, suficiente para conferir estabilidade aos seus empregados, porque aí lhes é aplicável a legislação trabalhista – § 1º do artigo 173 da CF -. Para a contratação emergencial, por tempo determinado, mediante autorização legal, não há necessidade de concurso – hipótese do inciso IX do artigo 37 da CF -. E parece que é da contratação emergencial que se trata. Estes é que são os referenciais que deverão ser tomados em consideração para um julgamento mais adequado da questão.

  7. Comentou em 12/10/2007 Carlos N Mendes

    Pouca gente, mesmo sabendo que nada foi provado contra Renan, colocaria a mão no fogo pela honestidade do senador. Sua arrogância devia ser do conhecimento de todos. O que realmente irrita neste caso é oportunismo calculado de se queimar Renan Calheiros neste momento, pois fica evidente uma estratégia para minar a base de sustentação do Governo via ‘moralização’ (seletiva, é claro – ninguém cobra José Serra pelo Metrô ou FHC pelo Mensalão) – num jogo que ninguém assume. A energia, o tempo, o papel, o espaço empenhados contra Renan Calheiros são desproporcionais ao tamanho do crime. Assuntos mais relevantes para a sociedade brasileira – como a CPMF – foram alijados. Não me permito acreditar que isto não foi de propósito. Não foi uma investigação, foi uma operação concebida, planejada e executada. A tomada de Tobruk. Assusta, porque não foi a primeira vez. Quem perseguiu Renan tem todo o direito de fazê-lo – mas quando afirma que foi em nome da Justiça, me dá o direito de vomitar, e falar sobre hipocrisia. Aguardemos a próxima vítima.

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