Sábado, 17 de Fevereiro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº974

CÓDIGO ABERTO > Desativado

Fontes não identificadas esquentam noticiário e iludem leitor

Por Alceu Nader em 23/11/2005 | comentários

E não é que o ministro da Fazenda não caiu, apesar do que os jornais anunciaram nos últimos dias?


Ontem, com diversos tons e ênfases, vários jornais acolheram em suas manchetes principais a versão de que o ministro estava com um pé fora do governo. Hoje, esses mesmos jornais contorcem-se em explicações para justificar a previsão que não se confirmou. Algumas delas, como a da Folha de S.Paulo, apontavam até mesmo que o senador Aloizio Mercadante seria seu substituto.


Segundo o versão comum adotada na maioria das reportagens de hoje sobre a reversão das expectativa (que os próprios jornais criaram, diga-se de passagem), o futuro do ministro foi decidido na reunião da última segunda-feira à noite. Nela, Palocci bateu na mesa e, com o apoio do presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, convenceu o presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, a manter a política de superávit fiscal no médio prazo, tal qual o ministro defendera na audiência da Comissão de Assuntos Econômicos do Senado.


Contam os jornais que Palocci queria elevar a projeção de superávit dos atuais 4,5% do PIB para 5%, mas convenceu-se com o meio-termo de 4,75% sugerido pelo presidente da República. A chegada a bom termo, porém, foi precedida de queixas do ministro contra o fogo amigo disparado de dentro do governo (ministra Dilma Rousseff), e a decisão de Palocci de deixar o governo.


Essa é a versão que permeia a reportagem que sustenta a manchete principal do O Globo de hoje, no único exemplo de título nobre que atribui ‘fortalecimento’ ao ministro. A reportagem do O Globo descreve no detalhe os diálogos ríspidos entre Lula e seu ministro. Porém, da mesma forma que as reportagens dos dias anteriores dos demais jornais, que davam a saída do ministro como líquida e certa, a fonte das preciosas informações não é identificada.


Também, mais uma vez, O Globo atribui a origem das indiscrições a ‘petistas’ ou a ‘amigos petistas’. Além de vago e repetitivo, a mídia concede importância crucial a depoimentos e revelações de ‘petistas’, algumas vezes sem sequer identificar sua proximidade com o assunto em pauta. Esse recurso da denominação vaga de fontes com informações cruciais não é novo na imprensa brasileira. No período da ditadura, era comum encontrar ‘segundo fontes militares’ nas reportagens para maquiar falhas na apuração, plantações de meias-verdades ou meias-mentiras e até mesmo opiniões pessoais dos jornalistas.


O mesmo uso abusivo de fontes não identificadas repete-se agora com o superpopulação de ‘petistas’ nas reportagens. Nos últimos dias, esses ‘petistas’ apontaram até que o senador Aloizio Mercadante seria o novo ministro. Se fosse verdade, e se confirmasse, não faltariam menções do tipo ‘como este jornal antecipou’. Mas como deu em nada: o furo n’água sobra para ‘o petista’ – e os repórteres se recolhem por alguns dias, até nova onda do noticiário justificar a presença de novos ‘petistas’ como fontes não identificadas.


Está se tornando monótono e motivo para não acreditar integralmente no que se lê.

Todos os comentários

  1. Comentou em 24/11/2005 José Ronaldo Gonçalves

    Caros Srs.:

    Concordo com as colocações sobre o ‘Off’. Me parece que, assim como na ditadura se adotavam estes métodos que, destarte o assassinato da ética no processo, em muito se assemelhaam à estratégias de Contra-Informação. Há uma linha muito tênue a ser respeitada entre paixão e profissão. Explico: Desde o início da campanha do Lula o grupo Band se opôs à ele e vem se opondo de forma sistemática e, quase sempre, subliminar . A edição das notícias os comentários do ancora, etc. Sobrando tempo, dêem uma olhada. Às vêzes até parece que o eeditor-chefe é o indefectível Cláudio Humberto.
    Costumo achar que o trabalho de informar é para ser levado à sério, com profissionalismo e neutralidade. Opiniões, se houverem, deveriam ser destacadas em editorial à parte.
    No mais acho que um único jornalista até hoje tratou o assunto Zé Dirceu/Governo Lula com o entendimento correto dos fatos: O Paulo Guedes do jornal O Globo. Deixou claro o real funcionamento do sitema de desintermediação das verbas da corrupção/compra de governabilidade, vulgo mensalão. Realmente o Pais estava um queijo suíço. Loteado em feudos, alguns bem antigos e outros mais recentes e todos carreando recursos diretamente para os membros da corte. O que o ZeDirceu fez foi organizar a bagunça, estabelecer valores e despachar um bom lote para o limbo. Bom, isso deixou um bocado de gente à nenhum…
    Saudações…

  2. Comentou em 24/11/2005 Eduardo de Almeida e Cunha

    A imprensa brasileira não sabe lidar com a liberdade de imprensa. Está instituído no Brasil a ‘irresponsabilidade de imprensa.Cito apenas um ex.:ano passado, toda a imprensa nacional, iludiu a opinião pública que a decisão do STF, de reduzir o número de vereadores,era uma excelente decisão e combateu a proposta da Cãmara que reduzia o valor de repasse das prefeituras para as câmaras. Esta, sim reduziria custos.Resultado hoje a câmara de Pinhais-Pr, onde moro gasta mais, com 11 vereadores, do que gastava com 17. Em tempo o salário do nosso prefeito é de 19.000,00.

  3. Comentou em 24/11/2005 Paulo de Tarso Neves Junior

    Isso me lembra as fofocas de celebridades quando uma revista diz ‘Uma amiga do ator revelou para a revista que ele traiu a esposa ontem’. Que espécie de amiga é essa?
    A Veja é uma que adora pegar depoimentos de ‘petista ligado ao governo’. Só que os depoimentos são sempre para destruir o governo.
    É engraçado a banda podre da imprensa achar que um boato falso ou um depoimento mentiroso são verdadeiros só porque foram contados com ‘riqueza de detalhes’; como se isso não fosse fácil de ser inventado.
    Quer plantar uma notícia falsa que tenha o respaldo da banda podre da imprensa? Invente fatos pitorescos como ‘estávamos só eu e fulano, então fulano chorou’, ‘ele estava de terno escuro’ (como se ninguém usasse terno escuro), ‘a conversa foi interrompida para ele atender o celular’ (como se isso fosse muito difícil de acontecer). Obviamente o fulano vai negar mas não vai haver testemunha para provar nada e , para a banda podre da imprensa, vai prevalecer a ‘riqueza de detalhes’.

  4. Comentou em 23/11/2005 Silvano Carvalho

    A maioria das noticias veiculadas na midia, sao assim.. fulano disse, beltrano ouviu disser..etc. Fica dificil acreditar como certos jornalistas( jornalistas…), continuam exercendo suas atividades( fulano e beltrano falaram que eles recebem por fora).

  5. Comentou em 23/11/2005 Ary Carlos Moura Cardoso

    Eu vou deixar a mestra Eni P. Orlandi nos dar uma aulinha sobre boatos, fofocas e coisas do gênero. Diz ela então: ‘Conhecer, controlar e fazer cicrcularem os boatos são um meio de estabelecer uma forma de poder. A existência do boato é o índice de que o espaço territorial tornou-se um espaço político em que silêncio e linguagem se batem por um espaço de significação (…) O boato é assim um fato da vida social pública, traço do funcionamento coletivo da palavra’.

  6. Comentou em 23/11/2005 Luiz Claudio Leão

    Este não é o primeiro caso que me chama atenção para as notícias sem fonte. Uma vez li uma reportagem que tratava de uma reunião onde teriam participado o Ministro Márcio Thomaz Bastos, o Ministro Palocci e o Presidente Lula. No texto era descrito com detalhes o que foi tratado e também as reações corporais feitas pelos participantes. Imaginei como o jornalista poderia ter obtido estas informações pois em determinados momentos é mais prudente não deixar entrar nem a moça do cafezinho e se isso acontece a única dedução é que algum dos participantes tenha dado com a língua nos dentes porém pelas pessoas que participaram era pouco provável. Daí só resta imaginar que o texto não tinha como retratar a verdade o que seria possível só com o uso de alguma escuta ou camera escondida. No caso mais recente, o boato lançado em jornais de grande circulação causou uma variação de mais de 3% no índice da Bovespa em um único dia. Este ato ( de noticiar coisas sem fonte definida ) não poderia ser considerada crime? Até onde vai a liberdade de imprensa? Em uma brincadeira dessas, muita gente pode ter ganho muito dinheiro ou tido um grande prejuízo.

  7. Comentou em 23/11/2005 Zilda de Araujo Rodrigues Araujo

    O autor desse artigo ainda é otimista ao pensar que a imprensa vai perder a credibilidade diante de tantas ‘meias-verdades’ e ‘meias-mentiras’. Para mim, já perdeu. Não leio nem vejo jornais desde o início da crise aliás, meio criada e totalmente alimentada pela imprensa).Procuro me manter a par do que está ocorrendo em nosso país, por meios alternativos de informação. Não tenho paciência, nem saco para suportar tanto desrespeito à opinião pública. Sem falar que os interesses do Brasil e do povo brasileiro não são nem cogitados: só o das elites.

  8. Comentou em 23/11/2005 Odracir

    Mas fuxicos sao noticias tambem, nao? Aquela parte do ‘Painel’ da folha, e os colunistas politicos como o Anselmo Goes e o Moreno sao como coluna social, soo fofocas, nee? alias a Joyce Pascovitch e a aquela louca que queria fazer um apartheid no Rio de Janeiro sao colunistas sociais, mas vira e mexe ficam falando de politica. Mas estas ‘fofocas’ sao noticias? ou os ‘fuxicos’ sao eticos? ou soo quem ee ‘colunista’ pode fazer ‘fuxicos’? de qualquer forma daa um ibope danado…

  9. Comentou em 23/11/2005 Vera Pereira

    O sr. Luiz Seixas esqueceu-se do Moreno, do Blog do Moreno, O Globo, que deu ontem em primeira página (pelo menos do Globo online, o único que leio) que o Palocci estava demissionário. Que coisa!

  10. Comentou em 23/11/2005 Luiz Seixas

    Francamente, já passou da hora de chamar às falas jornalistas como KAlencar, FRodrigues, Josias de S., RNoblat, Cantanhede et caterva. Como jornalistas ou blogueiros escondidos em jornais engajados contra o governo, revelam tal intimidade com o presidente, seus assessores e ministros — ou mantêm escuta em todos os recantos do Alvorada, da Granja e dos ministérios — que chega a enojar. Pô. Dêem-se ao respeito! Respeitem os leitores! Ajam como de fossem profissionais sérios! Que M.

Código Aberto

x

Indique a um amigo

Este é um espaço para você indicar conteúdo do site aos seus amigos.

O Campos com * são obrigatórios.

Seus dados

Dados do amigo (1)

Dados do amigo (2)

Mensagem