Quarta-feira, 13 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº969

CÓDIGO ABERTO > Desativado

Formidáveis fachos de luz

Por Luiz Weis em 01/05/2007 | comentários

É um truísmo da sociologia que toda sociedade, em qualquer época e lugar, cria ou utiliza ritos periódicos para promover a coesão social e a propagação de valores sem os quais ela seria impossível.


Isso não quer dizer que os valores pautem necessariamente o comportamento individual e as relações entre os setores que formam a sociedade. Nem por isso a sua reiteração é um exercício oco, sem consequências.


Quando se fala que a hipocrisia é a homenagem que o vício presta à virtude se reconhece que, com certeza no plano dos símbolos e das convicções, e em alguma medida no plano dos atos, a virtude – os valores compartilhados ao menos pela maioria dos membros de um corpo social – prevalece sobre os vícios, a sua negação.


As cerimônias do adeus, como diria Simone de Beauvoir, são um desses momentos que se prestam à difusão dos valores que presumivelmente cimentam a integração social. Ou, no mínimo, impedem o esgarçamento completo do tecido social.


Portanto, quando morre alguma figura de destaque numa sociedade, destilam as crenças dessa sociedade os elogios fúnebres a sua pessoa e o que se divulga como sendo a sua biografia – ‘como sendo’, porque, nessas horas, mais do que nunca, vale o De mortuis nil nisi bonum dos romanos [dos mortos, só se devem afirmar coisas boas].


Por exemplo, a ética do trabalho emerge vitoriosa das manifestações que louvam, numa palavra, o empreendedorismo do falecido, o contraste entre a sua frugalidade pessoal e a dedicação plena à atividade de sua escolha. Esses registros servem objetivamente para consagrar, no caso, a noção de que o empenho em progredir é um comportamento a ser imitado.


Leu-se muito disso nos relatos, comentários e depoimentos pessoais sobre o legendário publisher da Folha, Octavio Frias de Oliveira, falecido domingo aos 94 anos e sepultado ontem.


Mas leu-se reiteradamente outra coisa também, que remete aos valores do ofício jornalístico. Da reconstrução da biografia desse que foi um dos mais talentosos jornalistas-não jornalistas da história brasileira, da memória de episódios que dele exigiram decisões críticas e até do seu anedotário profissional emerge uma espécie de ideal midiático, construído sobre um par de fundamentos.


Um, a independência: a credibilidade de uma empresa jornalística, pedra de toque do seu êxito emprearial, será tanto maior quanto maior for a sua independência dos poderes político e econômico. [Os americanos chamam isso de ‘imprensa sem favor nem temor’.]


Outro, o pluralismo: o respeito e a importância dados a um órgão de mídia serão tanto maiores quanto maior for a diversidade de opiniões que acolher nos seus espaços.


Existem, é verdade, empresas de comunicação bem sucedidas que não apenas não são independentes, no sentido de que tanto falava o velho Frias, como tampouco se abrem para a divergência das convicções de seus donos, especialmente diante da política e da economia.


Mas o ponto a destacar não é a firmeza dos laços entre a realidade e os valores. E sim o de que, seja a mídia brasileira menos ou mais independente, menos ou mais pluralista, o que se dela se espera é a nota máxima nos dois quesitos. 


A ênfase nesses valores, quando morre o último dos megaempresários do jornalismo brasileiro, e a associação entre eles, robustecida pelo fato de a Folha que ele reinventou ser o mais lido jornal do país, representam dois formidáveis fachos de luz.


P.S. Enfim o presidente Lula e o antecessor Fernando Henrique ficaram lado a lado: significativamente no enterro do velho Frias, cujo diário bate(u) bastante em um e no outro.


***


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Todos os comentários

  1. Comentou em 04/05/2007 Maurício Tuffani

    Para os que não viram ainda, vale a pena ver como o ‘Seu’ Frias lidou com a insurgência contra a implantação do Projeto Folha — e ver também como os eloqüentes insurgentes se portaram. Trata-se da transcrição da gravação da famosa reunião dele com diversos jornalistas da Folha e da Agência Folha, em 1985: ‘A voz do dono: Saiba quem foi o empresário Octavio Frias de Oliveira’, por Márcio Chaer, ‘Consultor Jurídico’ (1º/5/2007)
    http://conjur.estadao.com.br/static/text/55227,1

  2. Comentou em 02/05/2007 Fabiana Tambellini

    É parte do ritual, em nossa sociedade, esse tipo de homenagem a ‘ilustres’ que morrem. Para meu gosto, são sempre exageradas na dose. Octavio Frias de Oliveira foi sem dúvida pessoa importante no jornalismo nacional mas quando ouço afirmações do tipo ‘as diretas não existiriam sem a Folha de São Paulo’…me arrepio.

  3. Comentou em 02/05/2007 Fábio de Oliveira Ribeiro

    Você disse que ‘a credibilidade de uma empresa jornalística, pedra de toque do seu êxito emprearial, será tanto maior quanto maior for a sua independência dos poderes político e econômico’. Como fica a questão da credibilidade em se tratando de empresa jornalistica ligada à uma religião ou que se presta a servir de instrumento para arrecadação de fundos da mesma?

  4. Comentou em 02/05/2007 Dalton de Barros Santos

    Weis: Basta observar os comentários abaixo para notar a residência da insegurança. O jovem brasileiro está carente da História completa e bem contada. Observa-se no primeiro deles uma associação da Imprensa ao Empresário. Não ao significado que o termo encerre, mas ao rótulo conceitual que ganhou ao longo dos anos em que esteve associado à Especulação Financeira. Pouco estudei sobre o Frias. Embora a paz derradeira não redima ou culpe ninguém, qualquer juizo se concebe menos precário quando provido de elementos que o permita periférico. Isso só a História fornece. É aí que mora o pepino! Como contá-la sem que se manche o ícone ou o aluno que busca a raiz confiável para se firmar como árvore, que formará a mata social? Escreví agora pro Malim e bolei um trinômio: Castro-Brabeck-Oliveira interpretado por Malba Tahan. Lendo agora o seu artigo, posso até ter cometido alguma imprudência, elemento fundamental à sanidade da raiz. Ao jovem pouco importará o que o poder financeiro fez com a imprensa até então, desde que se sinta seguro da raiz. Quando Aldous Huxley nos alertou para as Máquinas de Ensinar, o educador sabia que o educando estava trocando de mãos. Não importa quais sejam, desde que responsáveis e prudentes. Bastará isso para que formemos bosques nacionais, sociais ou anárquicos, tanto faz a cor da folhagem, desde que plantada e tratada com carinho.

  5. Comentou em 01/05/2007 Claudio Deno Domingos Cruz

    O passado de cada homem tem o seu peso na historia que o próprio constrói, essa frase seria celebre se não fosse de minha autoria, e sim de cunho de um homem com sobrenome “Frias de Oliveira”, isso é crime? Acredito que medir as atitudes de alguém por gestos isolados, seria crime maior, analisar o conjunto de ações de alguém por uma vida e remontar os fatos na reconstrução de sua historia, e historia convence a quem consiste em querer que ela tome o caminho que lhe for mais propicio, o opróbrio da tese e antítese vem a fluir na sociedade envolvida nos casos portanto pensem sobre o falecido, e mudem a sua própria historia.

  6. Comentou em 01/05/2007 Marnei Fernando

    Quando eu soube da morte do Seu Frias (que em meu conhecimento seria apenas o dono da Folha) pensei… fiquei sabendo que esse senhor é um descendente da fidalguia que veio nas caravelas e que sempre defendeu os ricos e o modelo de exploração do homem pelo homem… não me parece ter sido ele um exemplo assim a ser seguido… mas… diante da morte de alguém… até por respeito aos que dele gostam… é tremendamente de mal tom fazer comentários do tipo ‘já foi tarde’… Quanto ao presidente Lula eu preferia que não tivesse ido ao enterro… mas sei que isso pegaria super mal por se tratar de um homem de mídia tão poderoso… caso ele não fosse, isso iria jogar muito mais gasolina no fogaréu que se tornou a relação da mídia com o governo Lula… portanto… honestamente… não posso falar pelo presidente… mas penso que foi melhor ele ter ido cumprir esse ritual que ao meu ver foi essencialmente um ato político.

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