Terça-feira, 21 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

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Fórmulas heterodoxas ganham adeptos na busca de saídas para a crise na imprensa

Por Carlos Castilho em 23/04/2009 | comentários

O debate sobre o futuro da imprensa entrou agora numa fase mais séria, tanto no Brasil como no exterior. Aqui, o tema começa a aparecer na agenda, embora a maioria esmagadora dos jornais ainda tente fazer de conta que não existe crise. Um dos sintomas desta mudança é o aumento das notas publicadas pelo Observatório sobre a crise e o futuro dos jornais. 


 


Mas é nos Estados Unidos que as idéias e propostas sobre o futuro dos jornais começam a ser debatidas desde as mesas de bares até as comissões especializadas no Congresso, em Washington. As propostas variam desde o subsidio governamental até soluções pouco convencionais como a do editor do jornal Philadelphia Inquirer, Brian Tierney, para quem a imprensa deveria adotar a fórmula financeira de algumas casas noturnas e boates.


 


“A nossa salvação pode estar nos clubes masculinos onde você entra de graça, não paga nada para dançar, ouvir música e olhar as garotas, mas é obrigado a gastar 10 dólares (equivalente a cerca de 23 reais) por um copo de cerveja”, disse ele durante o intervalo de uma audiência de empresários jornalísticos com parlamentares norte-americanos.


 


A fórmula de Tierney, um dos grandes barões da imprensa norte-americana, pode não passar de uma brincadeira, mas a opção de criar duas faixas de noticiário está sendo levada a sério por executivos tanto da imprensa como da publicidade. Uma seria gratuita, formada pelo chamado hard news ou notícias de atualidade, e a outra faixa composta por reportagens investigativas, análises, comentários e artigos de opinião, que seriam pagos.


 


A notícia perderia o lugar nobre nos jornais impressos, que passariam a apostar no material de qualidade como grande chamariz de vendas. Seria quase que uma transformação da imprensa escrita em verdadeiras butiques informativas com conteúdo qualificados para públicos segmentados.


 


Tudo indica que o varejo informativo formado pelo noticiário de atualidade deve migrar em massa para a internet, onde o acesso é gratuito. Já as butiques jornalísticas estarão tanto na Web como no papel, com uma provável predominância da versão impressa porque esta tem, por enquanto, uma leitura menos cansativa.


 


A grande incógnita é o período de transição dos atuais grandes títulos jornalísticos, cuja sobrevivência no papel depende da sua transformação em butiques informativas. Esta transformação passa por um período crítico em que o leitor desenvolverá uma nova noção de valor informativo que o motivará a pagar por um conteúdo.


 


A cultura predominante atualmente na imprensa é a da tradição. O público ainda vê os jornais como a sua principal fonte de informações, embora a maioria saiba das últimas notícias pela televisão, rádio e internet. A imprensa escrita, por seu lado, resiste o quanto pode à mudança por associá-la a um futuro incerto.


 


Os jornais impressos terão que mudar o perfil do seu produto informativo para torná-lo realmente  indispensável ao leitor exigente. Isto implica desenvolver conteúdos jornalísticos com qualidade real capaz de criar diferenciais identificáveis pelo leitor, sem a ajuda de artifícios publicitários.


 


Neste processo ainda existem muitas incógnitas, como por exemplo:


 


a)     A proposta de butique informativa traz consigo a idéia de segmentação e fragmentação do mercado produtor de informações qualificadas, contradizendo a tendência à concentração, típica de grandes empresas;


 


b)     O modelo butique parece atraente, mas sua viabilidade financeira ainda não está amparada num modelo considerado seguro, especialmente num mercado consumidor de informações onde as necessidades mudam rapidamente;


 


c)     O sistema de produção de informações qualificadas e segmentadas gera a necessidade de formação de pessoal, coisa que não acontece da noite para o dia e nem pode ser feita só com profissionais que já atuam na área impressa;


 


d)     No segmento do varejo das notícias de atualidade também será necessária uma mudança na estrutura e rotinas atuais, com a incorporação do sistema colaborativo no processamento de informações. Sem a participação pessoas sem formação técnica em jornalismo, será impossível obter notícias a um custo baixo capaz de agüentar a gratuidade na distribuição ao público.


 


São desafios enormes e urgentes, mas os grandes conglomerados jornalísticos continuam apostando em soluções essencialmente financeiras para sair da crise no setor. Eles deveriam apostar tudo em estratégias para conquistar os leitores do ano 2020.

Todos os comentários

  1. Comentou em 24/04/2009 Felipe Izar

    O jornal impresso está enfadonho. Ricardo Noblat alertou sobre isso quando passou a trabalhar no blog. As notícias são construídas com uma linguagem dura: textos caracterizados pela prática e expressões repetitivas. Isso se deve à famosa velocidade do jornalismo, que, dizem, impede a construção de matérias elaboradas e dispensa a formação de bons jornalistas. Está na hora de mudar. Se é perceptível que as informações rápidas e atuais são mais fáceis de serem lidas na internet, não é conveniente que os jornais encarem essa tendência. Eu gostaria de ver os impressos se transformarem, mais uma vez, num centro transmissor de conhecimento. Para isso, basta fazer um jornalismo sério, com reportagens bem trabalhadas, uma linguagem mais leve e profissionais calibrados. Sim, é preciso convencer as pessoas – desacreditadas com a mídia – da importância de aprender com o jornal. Mas isso está nas mãos dos editores. Basta incentivar a opinião pública que, pelo que sei, é formada pela mídia.

  2. Comentou em 24/04/2009 mano nuno

    …então a imprensa é dependente! vem literalmente pagando a apadrinhamento de reportagens pagas, politicagens, concorrendo um veículo com outros em midia falsa e sensacionalista. Quantos donos de jornais são políticos profisionais, e por aí vai…

  3. Comentou em 24/04/2009 lian robson gadelha

    O grande drama,é como manter a alienação

  4. Comentou em 23/04/2009 William Robson cordeiro

    Tudo isso é mais uma forma de tentar dar uma sobrevida a algo que já está morto. Não há qualquer saída para o jornal impresso, pq nao consegue oferecer atrativos q a internet oferece. Mais q isso: os jornais querem fazer o papel da revista com a tal butique? Estamos vendo realmente a crise de identidade dos impressos. E essa butique vai estar na internet tb, pq na rede nao existe restrições. A internet vai continuar com os hard news e tambem com as reportagens investigativas. O papel nao será necessário. Quanto à leitura ‘menos cansativa’, o professor Phillip Meyer já tinha dado a saida: quem estiver cansado com a tela, imprima a reportagem em sua propria casa. Nao será preciso q uma industria faça isso. Ou seja, qual é a vantagem mesmo do impresso?

  5. Comentou em 23/04/2009 fernando arteche hamilton

    Então os jornais vão se transformar em revistas diárias? Afinal, atendimento a públicos específicos, com aspecto de boutiques informativas, as revistas já são. Só que a periodicidade delas não é diária. E haja mulher pelada para atrair todo o dia o público que frequenta zonas! Aliás, a fonte de inspiração do editor do Inquirer é inadequada. Acaba por misturar jornalismo com porostituição.

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