Domingo, 17 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

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Furo: uso de agrotóxicos cresce onde devia cair

Por Luiz Weis em 16/11/2006 | comentários

Com menos destaque do que o assunto merece e um título vago – ‘Sinais de resistência transgênica a herbicida’ – o jornal Valor traz hoje os primeiros e alarmantes números sobre os efeitos do plantio da soja geneticamente modificada sobre o consumo de agrotóxicos no Brasil.

Um dos argumentos mais usados pelos defensores da agricultura transgênica é que ela contribui para deter a degradação ambiental. A soja GM, por exemplo, por ter sido criada para dar à planta maior resistência a pragas, dispensaria o uso de agrotóxicos na escala exigida pela variedade convencional.

No entanto, apurou o repórter Mauro Zanatta, citando dados do Ibama, o emprego dos 15 principais agrotóxicos aumentou tanto ou mais do que a área ocupada pela soja transgênica. No Rio Grande do Sul, a aplicação do agrotóxico glifosato cresceu 162%, quatro vezes mais do que a área plantada.

Aparentemente, a culpa é dos produtores. Segundo especialistas, eles usam o glifosato ‘de forma excessiva e incorreta’. Seja como for, o resultado é a maior resistência das ervas daninhas, o que leva o sojicultor a usar mais herbicidas, no clássico círculo vicioso.

Não se trata de demonizar o uso da biotecnologia, na agricultura ou na produção de medicamentos. Graças à insulina criada pela engenharia genética, por exemplo, a crescente população mundial de diabéticos não corre perigo de ficar sem o remédio. O algodão transgênico é outra história de sucesso. Que o digam os chineses.

Mas, do mesmo modo como noticia esses fatos incontroversos, a mídia precisa estar atenta para o ‘outro lado’ do problema, como fez o Valor. Pela sua importância, eis a matéria na íntegra:

A introdução da soja geneticamente modificada elevou a aplicação de agrotóxicos no país. O aumento derivou do maior uso de herbicidas à base de glifosato, um princípio ativo recomendado para a soja transgênica Roundup Ready, da multinacional Monsanto.

De 2000 a 2004, o consumo de glifosato cresceu 95% no Brasil, enquanto a área plantada de soja avançou 71%, segundo dados do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente (Ibama). No Rio Grande do Sul, principal pólo nacional de soja transgênica, o consumo de glifosato cresceu 162% e a área total, 38%.

‘O Rio Grande do Sul é um exemplo do que vai acontecer no país com esse uso de transgênicos’, diz o geneticista Rubens Nodari, gerente de Recursos Genéticos do Ministério do Meio Ambiente. De acordo com os dados do Ibama, em Mato Grosso, maior produtor nacional de soja, a utilização dos 15 principais herbicidas usados no grão cresceu 67% no período – para 15 mil toneladas – e a de glifosato, 93%. Nos quatro anos, a área plantada registrou salto de 95%, para 6,1 milhões de hectares.

O levantamento do Ibama indica que os produtores gaúchos de soja incrementaram em 106% o consumo dos principais herbicidas. O volume saltou de 9,8 mil para 20,2 mil toneladas no período. O consumo de glifosato no Estado teve uma elevação de 162%, para 19,3 mil toneladas. No mesmo período, a área plantada de soja no Rio Grande cresceu 38% e atingiu 4,1 milhões de hectares. ‘Essa área foi ocupada pela soja transgênica, o que elevou o consumo total de herbicidas’, diz Nodari.

Estudo concluído por especialistas da Embrapa Trigo, Universidade de Passo Fundo (RS) e Fundação Centro de Experimentação e Pesquisa Fecotrigo (Fundacep) corrobora os dados do Ibama ao mostrar a relação entre o aumento da resistência de espécies de ervas daninhas invasoras em decorrência do uso contínuo de glifosato nas lavouras gaúchas de soja transgênica. ‘Aumentou o volume de glifosato porque ele tomou espaço de outros herbicidas’, diz Leandro Vargas, pesquisador da Embrapa Trigo, de Passo Fundo.

Os especialistas argumentam, porém, que os produtores têm usado o glifosato de forma excessiva e incorreta. ‘Eles usam na dessecação para fazer o plantio direto e ainda duas vezes na pós-emergência da planta’, relata Vargas. ‘Isso é terrível. Não pode usar mais que duas vezes na mesma área. Do contrário, cria-se mais ervas daninhas com resistência cada vez maior’. Segundo ele, o produtor pode usar qualquer outro produto na pós-emergência da soja transgênica. ‘Não é apenas o glifosato‘.

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Todos os comentários

  1. Comentou em 17/11/2006 Cleber Valgas Gomes Mira

    Eu acho que há um equívoco nessa discussão: o que está causando o aumento do uso de agrotóxicos é a falta de informação doa agricultores, não o uso de sementes transgênicas. O máximo que alguém poderia argumentar seria que o fornecedor dar das sementes poderia dar mais suporte e informação aos agricultores para tornar mais efetivo (melhorar a produtividade e diminuir os gastos com agrotóxicos) o plantio. Ainda assim o principal alvo das críticas deve ser o fazendeiro que não busca estudar (ou contratar um especialista que as estude e aplique) as técnicas modernas na agricultura.

  2. Comentou em 17/11/2006 vincensini thomas

    Luiz,

    tu soulèves exactement le probleme OGM. le débat est malheureusement focalisé entre les ecologistes anti-OGM, qui refusent la nouvelle technique, et l´industrie qui met en avant les avancées médicales et environnementales qui en résultent.
    Pourtant, il ne s´agit pas de diaboliser une technique, mais ce qui en est fait.
    le soja Roundup ready a pour particularité de résister à l´herbicide du meme nom, qui est lui-meme le plus puissant de tous (mais aussi le plus nocif), car il détruit toutes les plantes. la logique de son utilisation est purement économique (car l´utilisation du soja augmente celle de l´herbicide) et est nocive pour l´environnement : plus de polluant déposé sur les terres, et le risque que le gene resistant au Roundup s´implante dans d´autres végétaux qui deviendraient aussi résistants.
    cependant, je fais confiance à Monsanto pour vendre alors un nouveau produit encore plus nocif avec un nouveau soja encore plus resistant (et peut-etre même un peu plus cher…)
    PS : je m´excuse auprès de ceux qui ne lisent pas le francais, mais je suis encore incapable d´écrire dans un portugais correct.

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