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Terça-feira, 21 de Agosto de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1000
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Futebol, caipirinha, etanol e PCC

Por Bruno Blecher em 14/07/2006 | comentários

Depois do futebol, em baixa diante do fracasso de Ronaldinhos & Cia, o álcool é o produto brasileiro de mais sucesso na Alemanha. Para beber e para abastecer o tanque. Uma pesquisa recente mostrou que a nossa caipirinha já é a segunda bebida mais consumida nos bares alemães. Só perde, é lógico, para a cerveja.


Mas na Alemanha, assim como em vários outros países da Europa, o etanol e o biodiesel estão em alta. São encarados como a melhor alternativa para combustível, capazes de reduzir a poluição das grandes cidades.


Um release do MAPA (Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento) informa que a Ford está muito interessada nos chamados biocombustíveis. Durante um seminário sobre agronegócio, realizado esta semana na Alemanha, Norbert Krueger, da área de sustentabilidade e cidadania coorporativa da Ford, destacou as vantagens do ‘carro verde’. Mas ao mesmo em que elogiou o programa brasileiro do álcool combustível, ele deu uma alfinetada ao sugerir que a expansão da cana no Brasil já estaria comprometendo a preservação do meio ambiente em algumas regiões, além de desrespeitar direitos dos trabalhadores.


‘Os biocombustíveis precisam ser produzidos de forma responsável do ponto de vista do meio ambiente e do social. O etanol tem que ser limpo ecologicamente e socialmente. Isso é chave no mercado da Alemanha’, disse o executivo da Ford.


Até agora elogiado pela mídia mundial, o etanol brasileiro já foi tema de reportagens especiais em publicações de prestígio como The Economist, Wall Street Journal e The New York Times. Nos últimos meses, porém, a mídia alemã começou a publicar matérias negativas sobre a cultura da cana no Brasil, alegando que sua expansão já está provocando a derrubada da floresta ou a utilização de trabalhos forçados.


Onde há fumaça, há fogo. Neste caso, porém, é mais fumaça. Como advertiu o professor José Goldemberg, secretário de Meio Ambiente do Estado de São Paulo, em entrevista a revista Agroanalysis de junho último, corre-se o risco de a cana invadir áreas ecologicamente inapropriadas como já aconteceu no Pantanal. ‘Em São Paulo, porém, isto não vem ocorrendo porque a cana está ocupando áreas de pastagens’, disse o secretário.


De qualquer forma, se desejam conquistar o mercado internacional de biocombustíveis e buscar parceiros fortes como a Alemanha, os usineiros precisam estar atentos a duas questões fundamentais: responsabilidade social e respeito ao meio ambiente


No seminário da Alemanha, o ex-ministro da Agricultura Roberto Rodrigues, representando o governo brasileiro, explicou que é tecnicamente impossivel produzir cana na floresta amazônica. ‘Chove muito na região. A chuva em excesso impede que a cana produza sacarose, tornando-se apenas um bambu’, explicou Rodrigues.


Ele falou também sobre o trabalho em más condições. ‘São casos isolados e o governo atua com firmeza para combatê-los. Se observarmos a classificação da ONU de acordo com o Indice de Desenvolvimento Humano (IDH), vamos ver que esse índice subiu justamente nos municípios em que a cana de açucar se instalou’, disse Rodrigues.


São justificativas corretas. O problema é que fica cada vez mais difícil defender a imagem do Brasil no exterior, quando as manchetes dos jornais mostram que a principal cidade do país continua sob o domínio do medo.

Todos os comentários

  1. Comentou em 19/07/2006 Tobias Ferraz

    Caro Mestre Bruno, vamos abrir a ‘caixa preta’ então?
    Como bem lembrou do Dr. Luiz Antonio Barros da Silva, o Gurgel falava nas décadas de 1980 e 1990 que a conta energética do álcool ‘não fechava’ porque tinha que usar diesel nos caminhões e tratores das roças de cana, o que ocorre até os dias de hoje.
    Grande Mestre, tem mais fogo que fumaça. A questão da vinhaça vai ser a próxima barreira ao nosso álcool. São milhões de litros de vinhaça produzidos diariamente por uma destilaria.
    Espero que agora a gente consiga construir uma política para a plantação de cana e produção de álcool para não se repetir os erros e falhas das décadas de 70 e 80 com o Proálcool.
    Agora precisamos também de uma política firme para todos os produtos agropecuários. Precisamos urgentemente de um equilíbrio de renda entre as várias culturas e atividades no campo. Enquanto cana estiver rendendo cem vezes mais que boi toda a sociedade paga por essa disparidade. A roça indo bem o comércio das cidades também vai bem e aquece o setor de serviços. Precisamos é discutir mais sobre diversificação e barrar os modismos.
    Abração procê.

  2. Comentou em 17/07/2006 Odracir Silva

    Caro Bruno. Laa pelos idos de 80, o engenheiro Gurgel (empresario e fundador da montadora de carros) escrevia q usar o etanol era deficitario, tanto energeticamente como economicamente. Isto ee, para produzir um listo de etanol, gastava-se mais energia para produzi-lo, alem de ser caro. Acredito q c/ as novas tecnologias, o custo deve estar menor… qto estaa a relacao de custo vs. preco? E energeticamente, haa realmente este deficit. Sobre o balanco energetico, o mesmo pode ser colocado sobre a soja no cerrado e na amazonia, nao?

  3. Comentou em 17/07/2006 Luiz Antonio Barros da Silva

    Bruno,

    Como não tive capacidade de sintese suficiente para expor todos os meus argumentos na mensagem anterior, gostaria de retomar a discussão sobre o seu texto. Quanto à afirmativa de que no estado de São Paulo essa monocultura não está invadindo àreas ecológicamente inapropriadas seria interessante, principalmente, para o leitor interessado conhecer quais os procedimentos adotados tanto pelo estado quanto pelo próprio setor, para o planejamento e controle da aitvidade e de sua expansão.

    Além disso, não vejo qualquer correlação entre a produção de alcool as matérias de jornal que mostram São Paulo sobre o domínio do medo ( uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa – como já dizia o Gerson das Seleções de 66 e 70). A menos que, quem esteja patrocinando essa violencia seja o dinheiro da exportação de álcool (é claro que não!!!).

    O difícil, não é defender a imagem do Brasil (acho que é reascunho), mas sim reconhecer nossos próprios erros e fazer algo para que atudo mude (para melhor éclaro!!). Infelizmente, o Brasil não é só o país do abandono é também da hipocrisia.

    De todo modo, acho que sua matéria traz à tona um excelente tema, que cabe muitas reflexões, as quais poderão ajudar o país tanto em termos de planejamento energético quanto em termos de expansão do setor agrícola.

  4. Comentou em 17/07/2006 Luiz Antonio Barros da Silva

    Caro Bruno,

    Apesar de nunca ter trabalhado com o setor sucro-alcoleiro (é assim mesmo que se escreve?), ao contrário de você naõ acredito que seja mais fumaça do que fogo!!! A minha percepção, ainda que restrita, diz respeito a um vasto passivo ambiental deixado na zona da mata mineira, onde o cultivo da cana não respeitou as leis florestais (APP, Mata ciliares) e etc. comprometendo a função ambiental dessas áreas de preservar os recursos hídricos, a paisagem, a estabilidade geológica, a biodiversidade, o fluxo gênico de fauna e flora. Inclusive, vários municípios dessa região (Ubá, Rodeiro, Visconde de Rio Branco) sofrem com escassez de água nos períodos secos do ano, existem graves problemas de erosão, principalmente, na bacia do rio ubá e acredito que muito em função do uso inadequado do solo por esta atividade.
    Ao que me parece o executivo da Ford nos conhece melhor do que nós mesmos. Talvez, a palavra correta não seja conhecer, mas reconhecer. Quanto às condiçoes inadequadas de trabalho não se pode deixar de reconhecer os esforços empreendidos, mas a muito por fazer (cabe aí uma extensa discussão!). Sobre a relação IDH e a cana de açucar (cabe outra discussão!).
    Portanto, devemos refletir profundamente sobre os prós e contras do desenvolvimento dessa atividade e não fechar os olhos aos diversos problemas que podem e/ou poderão estar associados a expansão do setor.

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