Quinta-feira, 23 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

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Google e China num jogo de cena

Por Carlos Castilho em 23/03/2010 | comentários

O anúncio da Google de que não censurará mais os resultados de buscas feitas por internautas chineses é na verdade um grande jogo de cena que os dois protagonistas desenvolvem há pelo menos oito meses e que vai culminar com um rompimento total muito em breve.


 


A censura é apenas uma parte do problema, pois a verdadeira questão está no mercado da internet chinesa, considerado o maior do mundo e cujo crescimento nos últimos anos tem sido vertiginoso. A Google não conseguiu desbancar o sistema chinês de busca Baidu, que detém mais da metade do mercado local, e depois do incidente envolvendo espionagem no banco de dados da empresa norte-americana a questão tornou-se também política e diplomática.


 Hopme Page Google em chinês


Não há certeza sobre quais as condições que a Google teve que aceitar para criar a sucursal em Beijing inaugurada em 2006,  sob a direção de um executivo chinês que trabalhava para a Microsoft e mudou de emprego em meio a um rumoroso processo que terminou num acordo secreto entre os dois megaconglomerados norte-americanos.


 


Mas o certo é que, segundo o governo chinês, existe um documento escrito no qual a Google se compromete a nãoBaidu  Home Page listar entre os resultados de buscas do seu serviço páginas que o governo considera hostis. Isto tornou a Google cúmplice de um sistema de censura, o que tira, agora, boa parte de sua justificativa moral para mudar de posição.


 


O problema é comercial porque o mercado chinês de acesso à internet chegou a 384 milhões de internautas em janeiro de 2010 —e poderia chegar a meio bilhão de internautas nos próximos dois anos, segundo a China Internet Network Information Center. Só em 2009, a internet chinesa ganhou mais “habitantes” do que toda a população da Alemanha.


 


Estes números garantem aos chineses uma liderança folgada no ranking mundial de acessos à internet. E é aí que está a verdadeira disputa. Censura, espionagem, diplomacia e politicagem são apenas pretextos e armas nessa briga de cachorros grandes. 


 


Beijing sabe que os rumos da economia mundial estão sendo determinados hoje pela relevância que a internet passa a ter dentro de cada país, e seu governo não se mostra disposto a hipotecar o seu futuro para a Google, que é hoje a empresa que controla o maior acervo de informações sobre seres vivos no mundo e em toda a história da humanidade.


 


Ainda mais porque a China tem o Baidu, um mecanismo de buscas cujas semelhanças com o do Google são notáveis. A empresa Baidu é privada, tem registro oficial nas ilhas Cayman, no Caribe, é liderada por três executivos que cuja formação acadêmica foi feita nos Estados Unidos e desde a sua fundação, em 1999, obedece a todas as restrições impostas pelo governo chinês em matéria de acesso a páginas de dissidentes oposicionistas.


 


A Baidu é um conglomerado gigante que já tem sucursais no Japão, e que inclui, além do mecanismo de buscas, mais 27 outros serviços incluindo músicas, vídeos, enciclopédia virtual e até uma TV pela Web. Tem 63% do mercado chinês de buscas, é a oitava empresa em  negócios na bolsa norte-americana NASDAQ (de empresas de tecnologia), com um lucro anual de 88,9 milhões de dólares em 2007 e cerca de 6.200 funcionários.


 

O bate-boca entre a Google e o governo chinês já pode ser visto como uma das primeiras escaramuças de um confronto entre as duas maiores potências do mundo contemporâneo e que terá como cenário principal o controle da tecnologia e da informação como ferramentas para assegurar a autonomia nacional.  É o novo formato da velha guerra fria, agora mais fria do que nunca porque já está acontecendo no terreno dos bytes e bits.

Todos os comentários

  1. Comentou em 18/09/2010 Ana Lima

    ‘Finalmente’ onde se lê ‘Dinalmente’, desculpe o erro e o artigo da RSF é de 2001.
    Como eles raramente falam alguma coisa sobre a liberdade de expressão nos EUA eu estava lendo sobre Guantanamo que é desse ano e pensei que o de 11 de setembro também fosse de agora.
    Mas pouco mudou. Tenho um post com o widget para alerta de segurança para terrorismo em meu blog.
    Todos os dias está laranja e os séus em vermelho.
    Estão sempre com medo, oops, alertas.
    Só este estado de alerta egeral eterno já faz estragos no exercício de cidadania plena e direitos civis estão sendo perdidos.

  2. Comentou em 18/09/2010 Ana Lima

    Liberdade de expressão nos EUA?
    Basta ver CNN e FOX para constatar a manipulação.
    Dinalmente o RSF escreveu um aritigo sobre esta sofisticada maneira de censura:
    http://en.rsf.org/united-states-between-the-pull-of-patriotism-and-11-10-2001,02533.html
    Gostei muito do artigo e do comentário.
    Obrigada Castilho

  3. Comentou em 25/03/2010 eugenio fonseca

    Lembrei agora que deixei outra provocação na página que trata do Irã, Está lá desde o dia 23 e ninguém a respondeu. Lá no Irã o Ahmadinejad deve dizer: isso não é censura é ‘controle social e islâmico da mídia’ para que os valores satânicos dos ocidentais não violem as mentes puras da nossa população. Ou isso ou algo assim! É legítimo? É censura? É preservar valores? Quero saber justamente isso: quem (igrejas? sindicatos? centrais sindicais? MST? ONGs, quais?, como serão escolhidas? sindicatos patronais? partidos?) e utilizando quais instrumentos e métodos a ‘mídia será controlada’?

  4. Comentou em 25/03/2010 eugenio fonseca

    Eu juro que não quero provocar ninguém -meu problema é: quais são
    os mecanismos propostos aqui no Brasil para ‘controlar a mídia’? Na
    China Ibsen, duvido que o governo diga que está censurando. Ele
    deve dizer algo como: ‘estamos controlando a mídia, para que ela não
    deturpe os valores chineses…Ou isso ou coisa parecida. O Hugo
    Chaves ameaça fazer o mesmo com a internet na Venezuela. O que
    ele faz lá com o restante da mídia é ‘controle social da mídia’ ou é
    censura e perseguição? Se você perguntar ao Chaves, obviamente
    ele dirá que é ‘controle social e democrático e socialista e
    bolivariano da mídia.’ Qual ditador admite que está censurando,
    controlando, submetendo, pressionando? Qual? Hitler diria que não
    censurava, mas que a sociedade através dos seus defensores, os
    nazistas, a controlava para não deixar os judeus, etc, etc,

  5. Comentou em 25/03/2010 Ibsen Marques

    Eugênio, o comunismo Chinês é apenas interno. Sua política externa é plenamente capitalista e predatória sua comparação entre a censura imposta aos sistemas de busca e o controle social da mídia é non sense, até porque, esse controle deve ser exercido às concessões públicas de comunicação. Não é o caso da internet nem dos jornais escritos.
    A grande preocupação que fica nesse caso chinês é a preocupação de que o resultado dessa briga favoreça a manipulação e a censura na Internet. Uma coisa é você priorizar o resultado das buscas conforme a contribuição de cada anunciante, a outra é você simplesmente eliminá-lo. Hoje a censura é política, mas tudo indica que ele pode atender a interesses econômicos também, afinal, uma vez instalada tudo se torna possível. Isso pode provocar um decréscimo na confiabilidade dos resultados das buscas.

  6. Comentou em 25/03/2010 eugenio fonseca

    Continuemos a navegar pela internet livre:
    …’As companhias de internet da China precisam trabalhar bem perto do governo’, disse Xiao Qiang, do Projeto de internet na China mantido pela Universidade da Califórnia em Berkeley. ‘E isso significa que a agenda política do governo pode se tornar a agenda de negócios da empresa’.

    ‘…Outra vantagem para as empresas locais é o protecionismo praticado pelo governo. Porque o Partido Comunista quer manter controle estreito sobre a comunicação e mídia, companhias estrangeiras de internet operam sob suspeita…

    …Por exemplo, o YouTube está bloqueado na China há mais de um ano, desde que um usuário subiu para o site um vídeo que supostamente demonstrava violações de direitos humanos no Tibet

    …O Google não gostava da censura, e fica claro que os censores fazem com que certos materiais retornados pelo serviço de buscas Baidu se assemelhem a um boletim de propaganda, com links direcionados ao ¿Diário do Povo¿, o órgão oficial do Partido Comunista.

    Uma questão vai ser determinar se a saída do Google permitirá que as empresas chinesas se desenvolvam no mesmo ritmo dos líderes mundiais de tecnologia.

    .’Quando as companhias chinesas saírem da China, descobrirão que não compreendem os concorrentes tão bem quanto em casa’, disse Rieschel.

    Pode ser, claro, que as companhias chinesas estejam satisfeitas com o que têm em casa..

  7. Comentou em 25/03/2010 eugenio fonseca

    Mas e a censura? É ‘controle social da mída’ ou é censura? Depois são os capitalistas que só vêem mercadoria e dinheiro. Não se esqueçam: ‘a gente não quer so comida!’. Liberdade é essencial. Olha o que se dizem os foruns de informática sobre o baidu japonês: ‘Em conformidade com a política chinesa de censura, o motor de busca da Baidu filtra material controverso dos seus resultados de pesquisa. Isto não se aplica ao portal da Baidu no Japão, que desvia 60% do seu tráfego antes de chegar à China continental’.

  8. Comentou em 24/03/2010 Antonio Brasil

    Caro chefe, parabéns pelos artigo. Aprendi muitas coisas que não conhecia. Agora essa ‘briga’ faz muito mais sentido. A informação sobre o Baidu chinês foi preciosa. Parece muito com a avalanche de tantos outos produtos ‘made in China’que invadem o mundo. Os EUA já fizeram a mesma coisa no início do século XX. Produto americano era sinônimo de algo copiado e mal feito. Bom mesmo era produto europeu!!
    A História muda de lugar mas ainda se repete.
    Abraço forte
    Brasil

  9. Comentou em 24/03/2010 Cristiana Castro

    Vou ser direta. Um conglomerado desse tamanho e eu nunca tinha ouvido falar. Velu Castiho.

  10. Comentou em 24/03/2010 Rafael Medina

    Carlos Castilho,

    Com objetividade e clareza você soube ressaltar os pontos mais importantes desse impasse, e de uma forma bastante diferenciada dos veículos convencionais.

    Parabéns pelo texto.

  11. Comentou em 24/03/2010 giulliano Dias

    É por contextualizações desse tipo que ainda volto semanalmente ao Observatório. Ninguém consegue se informar de fato só nos mídia e jornais ‘convencionais’.

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