Segunda-feira, 18 de Junho de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº991
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Grande imprensa volta-se para o micro jornalismo

Por Carlos Castilho em 26/03/2008 | comentários

Visto até bem pouco tempo atrás como uma idéia romântica e quase utópica, o jornalismo hiper local, também conhecido como micro jornalismo começa a chamar a atenção de universidades e grupos de mídia interessados em identificar modelos de negócios alternativos.



Esta procura ganhou ares dramáticos com os últimos relatórios da agência de crédito Standard & Poors que advertiram sobre uma possível incapacidade financeira de grandes grupos jornalísticos norte-americanos de honrar débitos contraídos com o sistema bancário.



Os jornais haviam previsto quedas de 2 a 3% em sua performance financeira até dezembro, mas os últimos indicadores apontam na direção de assustadores 18%. Isto está espalhando o medo entre os acionistas de empresas jornalísticas e angustia entre os executivos da mídia.



Esta semana, o informe The State of the News Media 2008 (ver também post do dia 17/3) mencionou especificamente a possibilidade do jornalismo local, produzido localmente, ser uma opção para garantir a sobrevida de jornais de maior circulação. Em fevereiro, na cidade de Northfield, no estado de Minnesota, passou a ser a primeira nos Estados Unidos a ter um projeto de jornalismo hiper local, financiado por uma universidade.



O jornalismo hiperlocal começou a surgir como alternativa para a crise nos jornais quando estes passaram a se preocupar com a perda de leitores para os blogs e páginas noticiosas sobre assuntos comunitários. (ver post do dia 7/3) Este fenômeno é uma conseqüência do divórcio da agenda da mídia em relação à agenda dos consumidores de notícias.



Mas os jornais também se deram conta que a cobertura local em cidades com menos de 50 mil habitantes é demasiado cara para empresas obrigadas a sucessivos cortes na redação para tentar manter o equilibro financeiro abalado pela queda da publicidade, nas assinaturas e vendas em bancada e pelas dívidas bancárias.



O dilema entre a necessidade de reconquistar leitores e o alto custo começa a ser rompido por um novo modelo de coleta e processamento de notícias baseado nos moradores de comunidades rurais, cidades com menos de 50 mil habitantes, bairros e ruas de cidades médias e grandes. Esta solução provoca um pouco de alergia entre os jornalistas porque implica transferir para amadores uma função que até agora era exclusiva dos profissionais.



Mas pelo andar da carruagem, não haverá outra alternativa. O jornalismo produzido por cidadãos tem todas as chances de se transformar na tábua de salvação de vários jornais e a base de um novo modelo de produção de notícias, onde conteúdos informativos (textos, fotos e vídeos) gerados e processados por amadores para publicação em páginas web locais são reproduzidos por jornais impressos, emissoras de radio e de televisão.



Um dos grandes obstáculos do jornalismo comunitário sempre foi o seu financiamento. Há duas opções predominantes: a baseada na colaboração não remunerada e o custeio mediante contribuições de moradores. A primeira sempre foi vista com desconfiança pelo risco de ser contaminada por interesses pessoais ou de grupos de moradores. Já a segunda, tinha como principal dúvida a sua sustentabilidade a médio e longo prazo.



O caso da enciclopédia virtual Wikipédia mostrou que a colaboração não remunerada pode funcionar. O mesmo princípio foi seguido por moradores da cidade de Fort Meyers, na Flórida, formaram um grupo de 40 voluntários, chamado TeamWatchdog, para produzir notícias hiperlocais que são reproduzidas no jornal local The News Press.



A Universidade Kennesaw, no estado norte-americano da Geórgia acaba de receber um financiamento de 51 mil dólares para desenvolver em Northfield um projeto de jornalismo hiperlocal chamado LocallyGrown. A verba destina-se ao pagamento parcial de jornalistas e de colaboradores residentes na comunidade, que arcará com o resto das despesas com a produção de notícias.


É o velho modelo de custeio pelos leitores de publicações sem publicidade, adotado há mais de uma década pela revista Consumers Report, cujo segredo é oferecer ao seu publico informações sobre bens de consumo. Uma fórmula antiga, mas que a grande mídia esqueceu.

Todos os comentários

  1. Comentou em 31/03/2008 Fábio de Oliveira Ribeiro

    Standard & Poors não é aquela agência de risco que pisou na jaca ao avalisar como bons os empréstimos subprime? Não foram eles ajudaram a criar e a inflar a bolha que explodiu na cara das empresas de mídia (que também diziam que o subprime era o que era o máximo)? Agora que o circo dos grandes está a pegar fogo eles querem jogar uma aguazinha às custas dos pequenos? Só rindo mesmo.

  2. Comentou em 29/03/2008 José Orair Silva

    Parabéns Marcos Simões pelo seu comentário e pelo jornal. A situação da mídia brasileira é parecida com a estorinha do garoto que mentia tanto que um dia, mesmo quando dizia a verdade, não foi acreditado…Aquí em Minas nós costumamos dizer que a única coisa em que você pode confiar plenamente nos jornais é a data…

  3. Comentou em 29/03/2008 Paulo Nuno Vicente

    Convido a uma visita.

    O weblog JORNALISMO EM SEGURANÇA acaba de iniciar a rubrica VIVER PARA CONTAR.

    O endereço é este: http://reportsafety.wordpress.com/

    Jornalistas, académicos, diplomatas, pessoal humanitário, forças de segurança, etc são convidados a reflectir sobre a segurança
    dos repórteres, nomeadamente em ambientes hostis e zonas de conflito.

    O texto Notas soltas sobre o Jornalismo no Iraque, da autoria do eurodeputado socialista Paulo Casaca, inaugura
    este espaço.

    A participação é aberta a todos.

    Os contributos – texto, fotografia, vídeo, etc – podem ser enviados para pnvicente@gmail.com

    O objectivo é criarmos um espaço de partilha colectivo sobre o tema.

  4. Comentou em 28/03/2008 Marcos Simões

    Trnasferindo esse artigo para o Brasil, vejo dois aspectos para a perda de leitores de jornais. O primeiro é a campanha massiva contra o governo federal, quando qualquer factóide tem o imapcto de uma catástrofe nas páginas dos jornais, enquanto nos estados e minicípios governados pelos partidos PSDB e DEM não se vê uma linha sobre barbaridades com dinheiro público, por exemplo. São Paulo é o ponto alto dessa omissão. Tanto o estado como o município estão blindados das notícias ruins no noticiário, fazendo o leitor perder a confiança nos impressos.
    O segundo, com a popularidade da intenerte, ficou mais fácil conhecer o que acontece no Brasil e no mundo de forma super rápida, exceto aquilo que ocorre na região.
    Tenho um pequeno jornal na Baixada Santista. É um tablóide com oito páginas que, além de repercutir o que a grande imprensa esquece de noticiar, explora também as oportunidaddes da região (emprego, concursos, cursos, etc.). Ainda está na quinta edição. É mensal, embora a idéia seja diminuir a periodicidade. A impressão de cada tiragem é cara; tem distribuição gratuita, sustentado pelos anúncios.
    É um filão a ser explorado, pois os jornais de grande circulação oferecem esta oportunidade em razão de terem partidarizado o seu conteúdo. Como o cidadão não quer ser enganado, o jornal tem boa aceitação. Ainda é cedo para maiores comemorações.

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