Terça-feira, 21 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

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Guernica em Gaza

Por Luiz Weis em 09/01/2009 | comentários

Há qualquer coisa de surrealista na matéria “Cobertura da imprensa desagrada a israelenses”, do enviado especial do Estado de S.Paulo, Gustavo Chacra, publicada na sexta-feira, 9.

Nada de errado com a reportagem. Tudo, francamente, com a reação de Israel, que ela descreve, ao noticiário sobre os seus atrozes ataques a Gaza.

Um jornal israelense, relata o repórter, “chegou a chamar a imprensa internacional de mentirosa” em matéria de primeira página.

”Mentirosa”? Relatório da ONU divulgado na mesma sexta diz que 257 crianças palestinas morreram e 1.080 ficaram feridas nos 14 primeiros dias da ofensiva.

Como escreve o brasileiro, “o cenário [midiático] poderia ainda ser pior [para Israel] se jornalistas estrangeiros tivessem permissão para entrar no território palestino”.

Ou, conforme o correspondente da revista britânica The Economist, Gideon Lichfield, escrevendo no diário israelense Haaretz, é difícil vencer a guerra de propaganda [se é que de “propaganda” se trata], quando os números mostram [mostravam, àquele altura] “600 palestinos mortos de um lado e 9 israelenses de outro”.

Impossível não lembrar da resposta de Picasso ao oficial alemão na França ocupada que lhe perguntara se ele é que tinha feito ‘isso’ – o retrato da destruição da cidade basca de Guernica pela aviação alemã na guerra civil espanhola. ‘Não’, respondeu o pintor. ‘Foram vocês.’

‘O que você não sabe sobre Gaza’

Sob esse título, o New York Times publicou na quinta-feira o seguinte artigo de Rachid Kahlidi, professor de Estudos Árabes da Universidade Columbia:

”Quase tudo o que você foi levado a crer sobre Gaza está errado. Abaixo, alguns pontos essenciais que parecem ausentes da conversação, muito da qual se desenrola na imprensa, sobre os ataques de Israel à Faixa de Gaza.

A maior parte dos habitantes de Gaza não está lá por escolha. A maioria do 1,5 milhão de pessoas que abarrotam os cerca de 360 quilometros quadrados da Faixa de Gaza pertencem a famílias que vieram de cidades e aldeias em outros lugares, como Ashkelon e Beersheba. Foram tocadas para Gaza pelo exército israelense em 1948.

Os gazenses têm vivido sob ocupação israelense desde a Guerra dos Seis Dias em 1967. Israel continua sendo considerado em ampla medida um poder ocupante, mesmo depois de retirar as suas tropas e colonos da Faixa em 2005. Israel continua controlando o acesso à área, as importações e exportações, e a entrada e saída das pessoas. Israel controla o espaço aéreo de Gaza e a costa marítima, e as suas forças entram na área ao seu bel-prazer. Como poder ocupante, Israel responde, sob a Quarta Convenção de Genebra, pelo bem-estar da população civil da Faixa de Gaza.

O bloqueio da Faixa por Israel, com o apoio dos Estados Unidos e da União Européia, tornou-se cada vez mais estrito desde que o Hamas venceu as eleições para o Conselho Legislativo Palestino em janeiro de 2006. Combustível, eletricidade, importações, exportações e o movimento pela fronteira têm sido lentamente sufocados, criando problemas devastadores de saneamento, saúde, suprimento de água e transporte.

O bloqueio sujeitou muitos ao desemprego, à penúria e desnutrição. Isso equivale à punição coletiva – com o apoio tácito dos Estados Unidos – de uma população civil por exercer seus direitos democráticos.

O levantamento do bloqueio, juntamente com a cessação dos lançamentos de mísseis, era um dos termos cruciais do cessar-fogo de junho entre Israel e o Hamas. Esse acordo reduziu o número de mísseis disparados de Gaza de centenas, em maio e junho, a um total inferior a vinte nos quatro meses seguintes (conforme dados do governo israelense). O cessar-fogo ruiu quando forças israelenses lançaram ataques por ar e terra no início de novembro; seis ativistas do Hamas foram mortos, ao que se divulgou.

Usar civis como alvo, seja pelo Hamas ou por Israel, é um crime de guerra em potencial. Toda vida humana é preciosa. Mas os números falam por si: cerca de 700 palestinos, a maioria civis, foram mortos desde que o conflito estourou no fim do ano passado. Em contraste, houve cerca de uma dezena de israelenses mortos, muitos deles soldados. A negociação é um meio muito mais efetivo de lidar com mísseis e outras formas de violência. Isso poderia ter acontecido se Israel tivesse cumprido os termos do cessar-fogo de Junho e levantasse o bloqueio da Faixa de Gaza.

A guerra ao povo de Gaza não é realmente sobre mísseis. Nem sobre “restaurar a capacidade dissuasória de Israel”, como a imprensa israelense quer levá-lo a crer. Muito mais reveladoras são as palavras de Moshe Yaalon, então chefe do Estado-Maior das Forças de Defesa de Israel, em 2002: “Os palestinos devem ser levados a entender nos mais profundos recessos de sua consciência que são um povo derrotado.”

Todos os comentários

  1. Comentou em 12/01/2009 Gregório Guerra

    A atitude de Israel, apoiada pelos Estados Unidos, demonstra a fragilidade daquilo que denominamos soberania nacional e integridade territorial de cada país. E a ONU que deveria ter autoridade suficiente para garantir tais direitos, não tem conseguido exercer seu papel nem na hora de socorrer os feridos. Hoje é a Palestina (Gaza), amanhã quem poderá ser?
    Outro fato intrigante é a quantidade de civis mortos, entre eles, mulheres e muitas crianças. Esta contabilidade macabra pode nos fazer pensar em uma forma horrenda de controle de natalidade, já que a região de Gaza tem causado pressão no conflito Israel/Palestina, também pela superpopulação desta região. Quando o Primeiro-ministro Ehud Olmert disse que os objetivos israelenses estão quase atingidos, não dá para saber o que ele quer dizer. Ou seria: “já eliminamos a quantidade necessária para o período X”.

  2. Comentou em 12/01/2009 beatrice vargas

    Na verdade, os Palestinos votaram no Hamas para a condução política do país. Em vez de condução pacífica, o Hamas mandou bombas e manda bombas, de forma sistemática, para Israel.
    Deu no que deu. Os Palestinos tambem não reconhecem Israel.
    Ora, como quer ser reconhecido um povo que não reconhece os demais? Portanto, razão tem Israel, pois não houve mesmo qualquer alternativa. E nem me venham com a estorinha de que as bombas do Hamas são pequenininhas! O famigerado ‘champinha’ tambem era um ‘menor coitadinho’ e fez o que fez’.

  3. Comentou em 12/01/2009 Alexandre Carlos Aguiar

    O grande problema é o relativismo envolvido na história. Ah, mas são ‘dois lados em conflito’, ou ‘essa guerra é histórica e milenar’, ou ainda, ‘é uma guerra religiosa’. Não. Nada disso. Não são dois lados em conflito, mas um Estado oficialmente estabelecido usando suas melhores armas contra uma comunidade. Se nessa comunidade há terroristas, cujo intuito é desatabilizar o Estado, e se houver a real necessidade em resolver a coisa, que sejam aplicadas leis duras e severas contra eles. Mas só contra eles. A guerra é um atributo da humanização para conquista de territórios. É milenar nesse sentido e por isso deve ser suprimida da face humana, por não ser mais admissível à civilização mantê-la. O humanismo requer outras formas de resolver os conflitos e não a sua complascências pelo caráter histórico. E, depois, a componente religiosa é só um ingrediente, mas o prato principal é outro. Para todas estas coisas, só há uma palavra: basta!

  4. Comentou em 12/01/2009 Ibsen Marques

    Não quero profetizar não, mas Israel está cavando sua próxima diáspora. Ou muito me engano ou os israelenses estão destilando um veneno nazista sobre todo um povo. Acho que já vi isso antes. E dizem que a história deve ser conhecida para que seus fatos mais horripilantes não se repitam!!Quem será a próxima vítima? O povo de Roma??Que os alemães se cuidem, pois a carga de ódio e prepotência deste povo parece ilimitada. Lobos em pele de cordeiro.

  5. Comentou em 11/01/2009 marina chaves

    hoje deu na televisao: o exercito israilense usa armas proibidas em gaza, para camuflar suas açoes…. é um produto quimico que em contato com a pele causa graves queimaduras…. a que ponto chegaram….. nao somos nós, não…

  6. Comentou em 11/01/2009 Paulo Daher

    Esse parece ser o cotidiano da nossa imprensa:
    Hoje na Folha, manchete principal é extremamente dúbia.
    ‘Valor de imóvel financiado pode subir’, diz a manchete.
    No subtítulo explica que é o valor de FINANCIAMENTO que será aumentado, por consequencia ajudando a manter o nível de atividade e emprego.
    Mas à primeira vista dá a entender algum aumento de preço.
    É dúbio e cínico ou estou ficando paranóico?

  7. Comentou em 11/01/2009 Fábio de Oliveira Ribeiro

    O que está ocorrendo é lamentável e nogendo. Israel está usando táticas NAZISTAS em Gaza e tentando intimidar os jornalistas que mostram ao público a desproporção entre os foguetinhos caseiros do Hamas e os milhões de toneladas de bombas israelenses despejadas nas cabeças da população civil indefesa (indefesa até mesmo dos milicianos do Hamas, porque crianças e mulheres não tem como impedir homens adultos treinados e armados de fazer o que eles querem). Controlar a mídia também é NAZISMO e os israelenses deveriam saber disto melhor do que quaisquer outros. E por falar em controlar a mídia, a própria mídia parece estar errando o alvo quando avalia os objetivos deste GENOCÍDIO. Hoje recebi o seguinte linke de um colega australiado (http://timesofindia.indiatimes.com/Gas_deal_coming_polls_behind_
    military_operations_in_Gaza/articleshow/3935036.cms). Se obter o controle do gas palestino, Israel manterá os mesmos na mais absoluta miséria por séculos e de quebra poderá vender o produto aos europeus (que se livrarão da dependência do gas russo) e usar os recursos obtidos com a venda do gas para comprar armas americanas. Todos ficam felizes, menos os palestinos (mas é claro que os mortos não reclamam, nem choram). Uma vez mais a lógica perversa da MERCADO conduz à DESUMANIZAÇÃO de seres humanos considerados indesejáveis pelos governos ocidentais.

  8. Comentou em 11/01/2009 Gerson Chagas

    Luiz,
    Parabenizo-o pela concisão e clareza de suas palavras, as quais infelizmente ficam restritas a um veículo que não atinge significativa parcela de nossa população, a qual apenas é brindada com a monocórdica, omissa e covarde visão sectarista – e é dispensável dizer a favor de que lado. Mas a tônica é essa mesma. Basta tomarmos nossos exemplos domésticos , neste período : a desmedida atenção que a imprensa dá ao caos instalado nos aeroportos, estradas e locais de veraneio (e lá vem o carnaval), enquanto os outros, realmente classificáveis como tal (miséria, desamparo quanto aos mínimos recursos que o Estado deve prover aos cidadãos, os descalabros jurídico-administrativos em todos os níveis), bem, esses acabam sendo diluídos pelas ardilosas estratégias de um suposto jornalismo, o qual nada mais é do que uma sofisticada e subserviente ferramenta para a manutenção do poder instituído.

  9. Comentou em 10/01/2009 marina chaves

    posso colocar aqui uma ideia absurda? se houvesse apenas dois povos, um israilita e outro palestino, a nada mais alem disso, haveria paz, tenho certeza…..

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