Sexta-feira, 15 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

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Herança dos porões

Por Mauro Malin em 23/05/2006 | comentários

Os esquadrões da morte foram criados no Rio de Janeiro na década de 1950 com forte apoio na Polícia Especial do então Distrito Federal.


A Polícia Especial havia surgido em 1933, durante o primeiro governo de Getúlio Vargas. Adquiriu notoriedade na repressão a movimentos políticos e sociais. A “formação em cunha” que usava para atacar passeatas e comício tornou-a famosa. Fortaleceu-se durante a ditadura do Estado Novo. Era temida mas abrigou também figuras populares, como o juiz de futebol e depois comentarista Mário Vianna e o treinador Zezé Moreira.


Baixada fluminense


Em 1962, após o “Motim da Fome” ocorrido em Duque de Caxias e cidades vizinhas durante uma greve nacional convocada pelo Comando Geral dos Trabalhadores (7 de julho), movimento marcado por saques de pessoas famintas a estabelecimentos comerciais e execuções de comerciantes, foi criado um “Corpo de Milicianos” sustentado pela Associação Comercial desse município da Baixada Fluminense. Alguns pesquisadores datam daí um capítulo novo na história dos grupos de policiais que julgam e executam, muitas vezes para favorecer uma quadrilha de bandidos, com a qual têm negócios, em detrimento de outra.


Delegado Fleury


Durante a ditadura militar, os esquadrões da morte ganharam ainda mais força. Andavam na companhia da repressão política, via Departamentos da Ordem Política e Social (Dops). O símbolo mais conhecido desse esquema foi o delegado Sérgio Fleury. Ele morreu do coração em 1979, aos 44 anos. Hoje teria 71 anos. Seria um pouco mais velho do que homens ainda ativos na cúpula da polícia paulista. Que foram, portanto, contemporâneos de Fleury. De seus métodos. Uns nunca se juntaram ao homicídio praticado sob o escudo da lei. Outros, sim. Mas o fenômeno afeta, direta ou indiretamente, setores consideráveis do aparato policial.


Máquinas estáveis


Não houve no Brasil, não costuma haver em lugar nenhum, ruptura na máquina da polícia, que é formada por servidores de carreira.


No filme A Confissão (L´Aveu, 1970), de Costa-Gavras, o líder comunista Gérard (Yves Montand), caído em desgraça numa democracia socialista do Leste Europeu, é torturado pela polícia política do regime pró-soviético. O filme foi inspirado num relato de Arthur London (The Confession) sobre processos que resultaram no enforcamento de Rudolf Slansky, líder comunista tcheco, em dezembro de 1952.


A horas tantas, o personagem vivido por Montand se dá conta de que um dos policiais que o interrogam, agora a serviço do regime comunista, trabalhara ou poderia ter trabalhado sob as ordens dos invasores nazistas, menos de dez anos antes. Quem era da polícia sob a ocupação continuou na polícia depois. O mesmo aconteceu na Rússia em 1917. Aconteceu na França ocupada pelos nazistas. Na Itália pós-Mussolini. Na Espanha pós-Franco e em Portugal pós-Salazar/Caetano.


Esquadrões contra a legalidade


Os esquadrões da morte brasileiros não foram eliminados na redemocratização. Multiplicaram-se em denominações e modalidades. “Justiceiros”, “pés de pato” das periferias paulistanas, “mineiras” do Rio de Janeiro, onde dominam favelas na região administrativa de Jacarepaguá e alhures. Sabe-se lá mais o que pelo Brasil afora.


No início do governo de Paulo Hartung no Espírito Santo, a força do crime dito organizado, mesclado a esquadrões da morte, era tamanha – lembrar que o então presidente da Assembléia Legislativa, José Carlos Gratz, foi preso sob acusação de comandar um quadrilha – que a administração decidiu não buscar um aumento da arrecadação de impostos. Uma parte deles iria inevitavelmente para organizações criminosas infiltradas no aparelho estatal. Ou seja: melhorar a arrecadação do estado significaria melhorar a arrecadação do crime organizado capixaba.


Isso foi dito em junho de 2003 pelo então secretário de Segurança Pública do estado, Rodney Miranda, num debate promovido pelo Instituto Fernand Braudel, em São Paulo. Miranda, um delegado da Polícia Federal de Brasília, foi obrigado a deixar o governo Hartung no ano passado, após episódio de espionagem de um telefone da redação do jornal A Gazeta, de Vitória, supostamente confundido por policiais sob seu comando com o de uma empresa ligada a atividades criminosas.


A exigência que o Ministério Público, com amplo apoio da mídia, faz hoje ao governo paulista para liberar os nomes de pessoas mortas e os boletins de ocorrência tem como alvo esquadrões da morte sobreviventes ou redivivos. É uma iniciativa em defesa da legalidade democrática. Daí sua extrema importância.


[Adendos em 24 de maio.


O leitor Josué de Souza Castro rememora:


A imagem ruim da polícia não foi fabricada pelos jornalistas, mas pelos maus policiais. Muitos jornalistas, até por uma questão de sobrevivência, têm sido omissos frente a inúmeras denúncias de violência policial que chegam às redações. Muito repórter tem mais medo da polícia do que do bandido. Em Minas, na década de 70, foi um espanto – que mereceu manchetes em jornais que tinham sucursais aqui e um Prêmio Esso à editoria de polícia do Estado de Minas chefiada pelo bravo Francisco Santana Resende – quando o governador Aureliano Chaves demitiu um delegado especial acusado de ser solidário com o ‘Esquadrão da Morte’ no estado. Por incompetência de membros do esquadrão, um suspeito condenado à morte conseguiu escapar, mesmo depois de sofrer bárbaro espancamento, e foi bater de madrugada na porta do jornal. Depois de demitir o chefe do policiamento da capital, Aureliano visitou no hospital o operário (pois o suspeito era, na verdade, um simples trabalhador, como ficou provado depois). Apesar da baixa importante, o esquadrão da morte mineiro não se intimidou. Ele continuou atuando por muito tempo. E nem é certo que já tenha morrido.


Do leitor Fábio de Oliveira Ribeiro:


Correção. O problema não é só nas polícias. É no Judiciário também. Os juizes que estavam na primeira instância durante o regime militar e se notabilizaram pelo silêncio em relação à violência política e policial hoje são desembargadores nos Tribunais Estaduais ou ministros dos Tribunais em Brasília. O mesmo pode-se dizer do Ministério Público. Vai demorar uma geração para nos livrarmos destes […ofensa…], que nem os vermes da terra hão de comer.’]

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  1. Comentou em 27/05/2006 Marcos Simões

    Impressionante! As opiniões são as mesmas em todas os veículos de informação. Não se vê nenhum articulista, comentarista, colunista, etc. ir ao âmago da questão. Gravitam no espaço e esquecem (ou não querem, podem…) de entrar na atmosfera dos fatos. O maior gerador de todas essas mazelas, ao meu ver, é a corrupção nos poderes constituídos, blindada com a impunidade ou o silêncio de grande parte da imprensa. Não percebem que ações do chamado esquadrão da morte ou crimes contra a vida praticados por cidadãos comuns, por exemplo, são apenas conseqüências desses outros crimes maiores cometidos contra a sociedade brasileira, praticados nos três poderes da República. Ou não? De nada adianta criticar um ou outro setor setor se não se for à raiz do problema. Roubaram um Brasil (Banestado, Valerioduto, CPIs abafadas, superaturamento de obras, etc.) e ninguém está preso. Verdadeiras quadrilhas montadas no aparelho do Estado. Pior, não se restituiu o produto aos cofres públicos por incompentência, omissão ou conluio. Justamente aí é que deveria entrar a imprensa cobrando responsabilidades e responsáveis, Mas não se percebe essa visão macro nos meios de informação. Preferem se ocupar com assuntos pontuais ou de momento, ou seja, remexer no assoalho carcomido sem atentar para a imprescindível troca das velhas telhas rachadas e corroídas pela sujeira. Nada mudará!

  2. Comentou em 25/05/2006 Carlos Wagner Coutinho Campos

    Paulo Perez é Advogado e defende quem?
    Caso alguem de sua família fosse morto por justiceiros da polícia, estaria ele assim tão confiante na justiça pelas próprias mãos. Tal posição reflete o posicionamento dos que ficam à distância dos fatos. É argumento de quem pensa que os pobres são necessariamente bandidos. Matando 10, se garante que pelo menos 2 bandidos são eliminados.
    Polícia que usa critérios de morte como ação primeira, só pode ter a mesma índole e carater de assassínio.

  3. Comentou em 24/05/2006 Jose de Almeida Bispo

    Acho que o Malin foi mais feliz no subtítulo MÁQUINAS ESTÁVEIS do que no título HERANÇA DOS PORÕES. Ao assistir recentemente documentário da Globo – não lembro se no Globo Repórter ou Fantástico – vi ali uma afirmação de uma criança de que tinha muito medo do MORCEGÃO (acho que foi esse o nome) apelido com que é conhecido o temido carro blindado da polícia carioca [é ‘Caveirão’]. Ora, esse sentimento vem de mais longe que das sucessivas ditaduras do período republicano; ele vem da época em que as forças de segurança do império português somente serviam para bater nos ‘mamalucos’. Está nos anais da história brasileira a selvageria praticada pelo governador geral das minas D. Rodrigo de Castel Branco na Vila de São Paulo e sua conseqüência: a morte do próprio D. Rodrigo por Borba Gato depois de o sobredito emissário real ter tomada as pedras do filho do então já falecido Fernão Dias Paes Leme. As lambanças de D. Rodrigo em Itabaiana e Paranaguá chegaram primeiro que ele à Vila de São Paulo, povoada de mestiços e sempre castigada pela ‘elite branca’ portuguesa. Depois vêm as grandes tragédias: Canudos, Contestado e outras menores. A polícia, mesmo sendo constituída na maioria por gente do povo sempre se comportou da mesma forma que Antonio Adorno, Cristóvão de Barros, Fernão Carrilho, Domingos Jorge Velho, e D. Rodrigo: feita apenas para reprimir o povo.

  4. Comentou em 24/05/2006 Fabio de Oliveira Ribeiro

    (Transcrito no tópico acima.)

  5. Comentou em 24/05/2006 Maria Izabel Ladeira Silva Silva

    Caro Mauro Malin. Este assunto sempre me comove profundamente pois não me conformo com a violencia do Estado contra a população pobre deste país. Resgatar a triste memória dos esquadrões da morte é muito oportuno neste momento. A imprensa, comprometida com a Justiça e a Democracia, deve sim alertar a população sobre esta nossa triste herança e, ao mesmo tempo, resgatar a legalidade e a inteligencia como armas eficientes no combate ao crime.

  6. Comentou em 24/05/2006 Cristiano Zen

    Obrigado pela lembrança… Até quando teremos que coviver com essa barbárie, essa polícia que não é cidadã e esses causídicos reacionários que bandido bom quando não é ‘bandidomorto’ é bandido cliente…

  7. Comentou em 23/05/2006 Isabel Couri

    SE FOR PARA NOS LIVRAREM DESTES ASSASSINOS QUE GANHAM INDULTO E VÃO PARA AS RUAS TOCAR TERROR CONTRA A POPULAÇÃO,QUE VOLTEM OS ESQUADRÕES DA MORTE.SE DEPENDERMOS DA JUSTIÇA,OAB,DIREITOS HUMANOS E ATÉ JORNALISTAS QUE HOJE CRUCIFICAM NOSSOS POLICIAIS ESTAREMOS PERDIDOS.PARA ESTA TURMINHA MAIS VALE UM BANDIDO VIVO QUE UM CIDADÃO MORTO.
    QUEM SABE ESTA TURMINHA DE DEFENSORES NÃO VÁ ASSISTIR A COPA NAS TVS NOVINHAS QUE OS BANDIDOS GANHARAM…..

  8. Comentou em 23/05/2006 José de Souza Castro

    (O texto foi incorporado ao tópico principal, acima.)

  9. Comentou em 23/05/2006 paulo perez

    Atribuir as mortes em São Paulo à atuação de ‘grupos de extermínio’ fere o princípio mais festejado pela esquerda brasileira petista e pelos ‘defensores dos direitos humanos dos bandidos’, o Principio da Presunção de Inocência. Antes dos ‘ditos articulistas’ saírem por aí gritando palavras de ordem contra nossa heróica policia, melhor que aguardem a apuração das ocorrências de óbito. Se ficar apurado que foram ‘em combates com a policia’, não se haverá falar em esquadrões da morte, mas em exercício de força legal do Estado. Se ficar comprovado o uso de armas que a força polcial não detém, como de fuzis Sig Sauer, p.ex., a culpa certamente será de uma ‘atuação’ do crime a fim de causar pânico à população! Vamos aguardar a apuração dos fatos! Não é isso que os defensores dos ‘direitos humanos’ dizem quando é preso um bandido? Então, se todos são iguais perante a Lei, e, se as forças polciais gozam não só da presunção de inocência como também da presunção de legalidade, o mesmo vale para a atuação polcial em São Paulo! Que Malin, Weis, Dines e outros tantos, antes de gritarem e falarem em ‘homicídio de inocentes’ aguardem os fatos e as provas! Senão estarão contribuindo para o crime organizado, ajudando a prejudicar a imagem de nossos policiais junto à sociedade.

  10. Comentou em 23/05/2006 Marco Antônio Leite Leite

    Os esquadrões da morte começaram há centenas de anos no Norte e Nordeste. Por aqueles lados não se usa cacetete, canhão ou bomba atómica, os coronéis da política usam uma arma poderoso, ou seja, a morte por inanição. Os outros esquadrões são consequência dessa barbarie que estamos vivendo na era do neo-liberalismo. Marco

  11. Comentou em 23/05/2006 eucimar oliveira

    Seu texto é uma intimaçao à reflexao. Quem hoje defende a revanche, será refém dos revanchistas em breve. É bom que pensem sobre isso, como sobre os episodios recentes de Sao Paulo nao pensaram comandantes de tropas, chefefes de policia e ate um candidato a presidencia. Disseram todos com estas ou outras palavras: ‘vamos para cima’. Parece ter sido uma senha oferecida inadvertidamente.

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