Sábado, 17 de Fevereiro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº974

CÓDIGO ABERTO > Desativado

Hora de mergulhar no pré-sal

Por Luiz Weis em 22/08/2008 | comentários

Pode parecer óbvio, mas nem sempre o óbvio é aparente: durante muito tempo o pré-sal será o mais importante assunto do noticiário econômico brasileiro.


Já agora a imprensa tem duas senhoras pautas pela frente.


Uma é cobrir a construção das decisões que o governo se prepara para tomar sobre as regras do jogo da exploração dessas jazidas de petróleo estimadas em 50 bilhões de barris e cuja extração custará algumas centenas de bilhões de dólares.


Outra pauta, absolutamente indispensável para envolver o público no debate sobre os prós e contras das alternativas possíveis, é explicar, tornar a explicar, explicar ainda uma vez e outra, pelo menos aqueles aspectos da questão que, se não forem comprendidos, nada do resto será.


Acompanhar o processo de escolha do governo, neste caso, é percorrer um campo minado por monumentais interesses. A cúpula do Planalto; a equipe interministerial encarregada de sugerir como é que o Brasil vai se apossar do tesouro enterrado a 7 mil metros de profundidade, a 200 quilômetros da costa, do Espírito Santo a Santa Catarina; a Petrobras; a tecnocracia pública e privada do setor; as lideranças partidárias; as forças econômicas que procuram influir direta ou indiretamente nas decisões – o que todos e cada um desses protagonistas querem da imprensa é que se torne porta-voz das suas convenências.


É mais fácil para um repórter achar petróleo debaixo da mesa de trabalho do que achar uma fonte isenta nessa história. Entendam-se por isentos os envolvidos que contem ao jornalista as coisas como elas são – e não como eles desejam que venham a ser, com a cumplicidade involuntária da mídia.


É possível, quem sabe, que algo no gênero esteja por trás da matéria da Folha que deu manchete de primeira página na quarta-feira (20/8), segundo a qual o presidente Lula teria dito, numa reunião com políticos aliados, que tinha batido o martelo a favor da criação de uma estatal para administrar a exploração do pré-sal. No mesmo dia o presidente desmentiu, dando a entender que prefere manter as suas opções em aberto até a enésima hora – o que não prova nem desprova que ele falou o que lhe atribuíram.


Aliás, não está claro se essa estatal, inspirada na norueguesa Petoro, virá para cuidar da exploração – sem “furar poço” ela própria –, dos rendimentos do petróleo extraído, ou das duas coisas. Conforme a matéria ou artigo que se leia esses dias, será aquilo ou isso.


O essencial é a mídia não se deixar capturar por qualquer dos setores participantes da montagem do que se chama pedantemente ‘arcabouço institucional’ para a procura e retirada desse petróleo que o presidente acha que é tanto, mas tanto, que dará para “acabar definitivamente com a pobreza no país e recuperar o tempo perdido com a falta de investimento na educação”.


Por mídia entenda-se agora, especificamente, a apuração dos fatos. Se eles chegarem ao leitor com razoável fidedignidade, poderão servir de contrapeso aos editoriais e artigos opinativos que se deixarem capturar por tais ou quais interesses – ou simplesmente se identificam com eles por motivos mantidos distantes das vistas do leitor.


A história precisa ser contada à medida que acontece. O público não pode ser confrontado um belo dia – provavelmente depois das eleições municipais, segundo o Valor – com a informação de que o governo enfim resolveu o que tinha de resolver em relação ao pré-sal. Tanto mais a sociedade poderá interferir nesses processos, como é seu direito, quanto mais ela estiver a par de seu desenvolvimento. Para decisões acabadas, basta o Diário Oficial.


A segunda pauta mencionada na abertura deste texto – a da explicação – exige da imprensa um didatismo que ela raramente tem paciência e espaço para exercer.


Salvo o pessoal do ramo, quantos de nós fazem idéia do que significa – em termos tecnológicos, operacionais e econômicos – localizar, mapear e extrair petróleo do fundo mais fundo do mar?


Singelamente, quantos de nós sabem, para começo de conversa, o que é “pré-sal”?


Há pouco, numa conversa, um professor universitário disse que pré-sal é a primeira camada abaixo do leito do oceano. Esse nível é o do pós-sal. Depois é que vem o sal e o pré-sal. Deve fazer alguma diferença para a formação de opiniões sobre a política de petróleo que vem aí saber o básico daquilo de que se trata.


A imprensa tem duas formas que se complementam para fixar conhecimentos. (Publicar um suplemento especial num domingo qualquer e com isso dar a tarefa por concluída não vale.) Uma forma é enxertar as explicações nos artigos noticiosos do dia – se não todos os dias, quase. Outra é de publicar e voltar a publicar quadros, infográficos, destaques, ou que nome tenham os textos tira-teima que margeiam o noticiário.


Exemplo. A convite do governo da Noruega, repórteres da Folha, Estado e Valor mandaram de Oslo boas matérias – boas mesmo – sobre o “modelo norueguês” da economia do petróleo, com ampla presença do Estado. Vêm a calhar, já que esse deve servir de base para o modelo para o pré-sal, se for de fato diferente da lei do petróleo de 1997. Mas só a Folha publicou ao lado da reportagem uma lista de 10 perguntas e respostas sobre o que pode mudar no setor no Brasil.


Desde “Qual a função da nova estatal?” até “Qual o tamanho das reservas do pré-sal?”, passando por “Como serão licitados os campos do pré-sal?” e “A renda do petróleo ficará com quem?’


É por aí. Só que precisa mais do mesmo – e sem medo de ser repetitivo.

Todos os comentários

  1. Comentou em 25/08/2008 Ney José Pereira

    Relativamente a esse sedimento estratificado de matéria mineral natural, que dizem, segundo a Petrobras, ser petróleo, vulgo, camada pré-sal: É e será de bom alvitre que o companheiríssimo Lula e toda a companheirada aguardem a parição do potrinho antes de querer amansá-lo. Ou seja, antes de delirar como e onde malgastar essa pseudo-riqueza ou suposta riqueza é necessário realizar ou efetivar a concreta exploração dessa matéria-prima mineral. Mas, uma coisa é certa: Não é necessário criar ou produzir qualquer despesa ou dispêndio para contrapartir a salvação energética nacional (e até mesmo estrangeiral). O Brasil tem passivo (patrimonial, financei ro, monetário, social e moral) suficiente para ser saldado com esse petro-ativo. Há dezenas ou centenas ou milhares de exemplos. A previdência social pública brasileira (INSS e funcionalismo) é apenas um deles.
    Nem o companheiríssimo Lula nem a companheirada precisam recear quanto à maldição do petróleo ou à doença holandesa, pois, aqui no Brasil tudo de um país desenvolvido e civilizado ainda está por ser construído. Quiçá, pode-se aproveitar a camada de petróleo pré-sal para tal.
    Por enquanto, não petroleemos nem petrolatriemos!. Que é para evitar a enésima frustração da humanidade brasileira deste país. Portanto, o companheiríssimo Lula deve ligar o torno somente quando chegar o aço, pois, sem o aço é impossível tornear a peça.

  2. Comentou em 25/08/2008 Ivan Moraes

    ‘Não ficariamos melhor sem mais petróleo?’: idem. Nunca faltou dinheiro ao Brasil. Faltou governo.

  3. Comentou em 24/08/2008 Fábio de Oliveira Ribeiro

    Se bem conheço o Brasil, penso que a descoberta de mais ‘escremento do diabo’ em território brasileiro só vai acentuar nossas distorções estruturais e socio-econômicas. Quando os dolares começarem a jorrar do fundo do mar os militares dirão ‘precisamos de mais dinheiro para defender o país’ (e bilhões de reais serão gastos em brinquedinhos de destruição ultra-modernos que se tornão obsoletos em uma década); os juizes, desembargadores e ministros dos Tribunais em brasília dirão ‘precisamos de mais dinheiro porque o Judiciário está subdimensionado’ (e usarão boa parte dos novos recursos em salários, privilégios e dignidades); os políticos de todos os partidos dirão ‘precisamos de mais dinheiro para financiar nossas comapanhas e aproximar o Estado dos cidadãos’ (e gastarão os novos dinheiros em carrões, aviões, mansões [ ]); os gestores das federações esportivas dirão ‘precisamos de mais dinheiro para transformar o país numa potência esportiva’ (e nosso desempenho em olimpiadas continuará pífio porque a maioria da população ou não come ou come mal e criança que nãos e alimenta bem não tem forças para praticar esportes); alguns jornalistas dirão ‘o país está mais rico’ (porque eles mesmos ficaram mais ricos) e uns poucos dirão ‘o país continua [ ]’ (e serão chamados de comunistas, pessimistas e derrotistas). Não ficariamos melhor sem mais petróleo?

  4. Comentou em 24/08/2008 Felipe Faria

    riquezas naturais+burrice+populismo= miséria. É só ver Campo-RJ.

  5. Comentou em 23/08/2008 Ivan Moraes

    ‘durante muito tempo o pré-sal será o mais importante assunto do noticiário econômico brasileiro’: nao seja modesto, porque nao dizer da galaxia? No final das contas, o pre-sal eh A Salvacao Dos Brasileiros Pela Qual Eles Teem Esperado Por Tanto Tempo. Vai comprar comida pra todo mundo. Educacao, certamente. Estradas, nem se fala. Seguranca, entao, vai ser um estrondo, nunca mais um assalto no Brasil! Medicina? Ate liposuction e plastica vai comprar o pre-sal! Pra TODOS OS BRASILEIROS! A SALVACAO CHEGOU. Foi assim mesm oque aconteceu com a borracha. O cafe. O minerio. O ouro. As pedras preciosas. Toda a riquesa brasileira que vazou sem deixar rastro. Compra tudo a riquesa brasileira menos um judiciario sem espioes, empresariado sem espioes, media sem espioes, e governo sem espioes. Eu? Eu quero um poni do pre-sal, so isso. O nome dela vai ser Sally.

  6. Comentou em 23/08/2008 Carlos N Mendes

    O México descobriu suas reservas e vendeu-as, por pressão americana, em uma época que o petróleo estava muito mais barato do que hoje. Mesmo assim, todos os indicadores sociais e econômicos mexicanos, com exceção do superávit comercial, são superiores aos brasileiros. Fazendo uma conta tosca, se o pré-sal contiver 50 bilhões de barris recuperáveis e vendermos a preço médio de 80 dólares, faturaremos U$ 4 trilhões, ou 3 vezes o nosso PIB atual. Mesmo que esse dinheiro flua por vias capitalistas ‘normais’ pela economia brasileira, o impacto na desigualdade social será imenso. Mas é altamente louvável algum mecanismo que canalize uma parte desse dinhiro para acabarmos com nossas vergonhas.

  7. Comentou em 23/08/2008 Eduardo Panda

    ‘…Outra pauta, absolutamente indispensável para envolver o público no debate sobre os prós e contras das alternativas possíveis, é explicar, tornar a explicar, explicar ainda uma vez e outra, pelo menos aqueles aspectos da questão que, se não forem comprendidos, nada do resto será.’ A imprensa realmente tem isenção para isso? Quer realmente mostrar os prós e os contras?Infelizmente não! o PIG ainda não desceu do palanque.
    ‘…Por mídia entenda-se agora, especificamente, a apuração dos fatos. Se eles chegarem ao leitor com razoável fidedignidade, poderão servir de contrapeso aos editoriais e artigos opinativos que se deixarem capturar por tais ou quais interesses – ou simplesmente se identificam com eles por motivos mantidos distantes das vistas do leitor. ‘ Com todo o respeito, não são os editoriais e os opinativos que, normalmente, influenciam no conteúdo? O que é ‘razoável fidedignidade?’ Questões técnicas ‘levemente’ distorcidas por opções políticas e econômicas dos meios de comunicação?
    Olha, vou torcer muito pelo contrário, mas nesta questão do pré-sal o que vai existir de menos é a isenção, e mais uma marcaçao de posição dos grupos de mídia.
    Sabe onde insenção? Nos bons sítios da internet. E só! Se considerar mídia como ‘apuração de fatos’, ela, certamente, não será nem escrita, nem televisiva (com raríssimas exceções!).

  8. Comentou em 22/08/2008 ailton amaral

    torcer o nariz sempre que alguem fala em estatizar recursos naturais, tornou-se uma constante na midia brasileira, acostumada a ser mantida pelas grandes empresas e corporacoes internacionais.
    como a maioria, discordo totalmente de empresas estatais na forma como se via na ditadura e em alguns casos ate hoje encontrados, onde a politica é quem faz a administracao, e nao estou falando de politica real, estou falando de uma politica espuria, suja e fisiologista.
    mas de quem sao as estatais?
    o principio democratico e mesmo o principio de estado deixa claro que somos nos, os cidadaos, os donos dessas empresas, que o gerenciamento é colocado nas maos do governo para que ele coloque pessoas tecnicamente responsaveis pela sua administracao. como isso nao ocorre, o cidadao so reclama e tem ideias escabrosas incentivadas pela midia sem vergonha desse pais, qualquer ideia que traga a possibilidade de manter a soberania, os recursos naturais e as terras de nosso pais nas maos de quem é obrigado a cuidar – o estado- os ataques a essa premissa se tornam ferozes.
    nao concordo com as ideias do atual presidente, eleito democraticamente, mas pensar em retomar o controle de assuntos que dizem respeito a sua competencia nao tem nada de mais. cabe a midia ter consciencia e o cidadao principalmente tomar os rumos do futuro do pais em suas maos.

  9. Comentou em 22/08/2008 Ney José Pereira

    As madeiras das florestas, os ouros de Minas, os produtos agropecuários do Brasil agrícola (ainda bem que o Brasil é agrícola, ainda) enfim, tudo o que produzimos e exportamos desde o descobrimento do território de Vera Cruz (1500) até a emancipação soberânica e independêntica desta nação brasileira (2003-2010) não produziu um país desenvolvido e civilizado. Não obstante, essa farta exportação de produtos primários (minerais e agrícolas -principalmente ferro-guza, aço e alumínio (eletricidade, né) e a soja. Mas a partir de agora encontrou-se no Brasil sua salvação. Aliás, a salvação energética mundial. Ao que consta essa é a última chance deste país e desta humanidade brasileira. Viva mesmo o tal pré-sal. Pois, o pós será colossal!.

  10. Comentou em 22/08/2008 Ney José Pereira

    FolhaDinheiro de domingo, 17 de agosto de 2008 (página B7): Diz Kennedy Alencar da Sucursal fohática de Brasília e ex-assessor de imprensa do PT: ‘Um ministro disse à Folha considerar que as ações da Petrobras hoje estão baratas e que a tendência será de valorização quando o novo modelo de exploração for definido’ -Alô, alô, atenção senhora CVM-Comissão de Valores Mobiliários-. ‘Um auxiliar de Lula fez uma brincadeira na sexta-feira. Disse que o repórter da Folha deveria ter prestado atenção à notícia de que o investidor George Soros havia comprado recentemente grande lote de ações da Petrobras. Segundo ele, se Soros está apostando na empresa, é sinal de que ela se dará bem na exploração do pré-sal.’ Alô, alô, atenção senhor Otavio Frias Filho. Essas petrolíferas futilidades pré-sais deveriam ficar nas colunas sociais da Folha (Mercado Aberto, Mônica Bergamo e Painel). Se depender da Folha esse petróleo será uma festa. De arromba.

  11. Comentou em 22/08/2008 André Mauro

    Carlos Souza – engenheiro, esse petróleo todo é insuficiente pra acabar com seu pessimismo, isso eu garanto.

  12. Comentou em 22/08/2008 Carlos Souza

    Sobre a possibilidade de o pré-sal tirar o país da miséria, é bom lembrar que no final da década de 70 o México descobriu reservas imensas de petróleo com a vantagem que eram reservas em campos terrestres de exploração muito mais fácil. Ainda assim, passados mais de 30 anos, aquele país apresenta reservas declinantes, sua estatal é um paquiderme e um cabide de empregos e o país continua com os mesmos problemas de educação, saúde, infra-estrutura, desigualdade absurda e muita pobreza.
    O que será que veremos no Brasil daqui a 30 anos. Será que o pré-sal irá mesmo mudar alguma coisa?

  13. Comentou em 22/08/2008 Carlos N Mendes

    …Enquanto isso, nos escritórios do Instituto FHC, um ser amargurado e rancoroso range os dentes, incorformado com a sorte do sapo barbudo…

  14. Comentou em 22/08/2008 Luis José Ariosto Pereira Silva

    o Brasil vai entrar pra OPEP com esse petroleo todo, ok, vamos virar grandes exportadores, e o Lula já falou que vai lutar para diminuir o preço do Petroleo, com certeza ele vai continuar sua obra pelo mundo, já que no Brasil ele conseguiu acabar com a fome e a pobreza, agora vai fazer pelo mundo também, nos próximos meses o Brasil vai começar a produzir esse petroleo todo, só tem que tomar cuidado com a IV Frota, ok, os estadunidenses vao querer tomar isso de nós!

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