Segunda-feira, 15 de Outubro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1008
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IBGE nas manchetes

Por Mauro Malin em 26/11/2005 | comentários

Quem acompanha há algum tempo a divulgação da Pnad, a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio realizada anualmente pelo IBGE, pode enxergar uma melhoria constante dos indicadores sociais brasileiros. Isso não elimina os colossais problemas existentes, porque o ponto de partida é muito recuado e as melhorias são gradativas. Como no caso do saneamento básico. Sempre melhora um pouquinho, mas o déficit é brutal.


O próprio presidente do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, Eduardo Nunes, se encarregou de colocar os dados em perspectiva, numa declaração à qual só o Jornal do Brasil deu destaque: embora contínua nos últimos 12 anos, a divisão da riqueza ainda é insuficiente para livrar o Brasil da fama de país desigual. “Esse recuo não é tão expressivo assim. Nenhuma das 15 maiores economias do mundo apresenta indicadores de desigualdade tão elevados”.


Neste sábado (26/11) saíram boas reportagens, em que diferentes aspectos foram explorados. Mas só o Estado de S. Paulo ficou numa linha de títulos sensata (“IBGE: renda pára de cair e Brasil faz algum avanço”; e, na primeira das três páginas da reportagem: “Avanços em vários setores, mais empregos. E renda pára de cair”). Os outros três de importância nacional variaram o grau de exagero. Uma visão negativa apareceu no Jornal do Brasil (“Aperto castiga a classe média”). A Folha de S. Paulo se equivocou ao dizer que “Ricos ficam mais pobres…” (o assunto será comentado adiante), mas contrabalançou essa primeira parte do título: “… e concentração de renda cai”. No Globo baixou um caboclo governista que levou o jornal ao extremo de particularizar os dois anos do governo de Lula dentro de uma evolução positiva de vários anos: “Governo Lula reduz mais a desigualdade, mostra IBGE”.


Impossível supor que os responsáveis por essas manchetes das primeiras páginas ignorem o momento político em que ocorre a divulgação. Podem até ter suposto que trabalhavam apenas a partir dos dados do IBGE, mas não podem deixar de pensar na maneira como será recebido o que escrevem.


Não por coincidência, para ilustrar com a maior clareza o clima, a Veja saiu com a capa “´Imprescindível´ – Palocci se firma como o fiador da estabilidade econômica… – Vulnerável – …mas as denúncias ainda podem sufocá-lo”.


Mesmo com as manchetes ranzinzas da Folha e do JB, os dados da Pnad representam uma vitória provisória para o governo Lula na batalha da comunicação. Na quarta-feira sairão os dados do PIB no terceiro trimestre, e aí o governo sofrerá uma derrota que os adversários da política econômica tentarão transformar em alavanca para despachar o ministro da Fazenda, Antonio Palocci.


Garantir a autonomia do IBGE


O IBGE mais uma vez obteve grande sucesso na divulgação de seu material. A divulgação é o que lhe dá maior relevância social e, portanto, faz com que cumpra melhor sua missão. É pago com dinheiro do povo e o povo deve ser o principal destinatário de suas pesquisas. Não há como chegar ao povo sem os meios de comunicação.


A imprensa e o IBGE hoje são aliados. Recentemente, o Jornal Nacional fez uma reportagem sobre o adiamento da Contagem de População e do Censo Agropecuário, por falta de recursos, e imediatamente o Ministério do Planejamento, ao qual está subordinado o Instituto, liberou a verba. A contagem e o censo serão realizados em 2006. Num país com movimentos acentuados de migração, e com o dinamismo da agroindústria, esses levantamentos são importantes para definir com menor margem de erro políticas públicas e estratégias negociais.


O IBGE completa 70 anos em 2006. Seria um bom momento para institucionalizar sua autonomia, que hoje é de fato e não de direito. Isso requer a apresentação de um projeto de lei no Congresso Nacional.


No final de 2004, quando uma pesquisa contrariou a retórica do presidente Lula sobre a fome no Brasil, ao mostrar que a obesidade é um problema de saúde pública maior do que a fome, houve uma tentativa de cercear o Instituto. Foi superada, mantendo-se o sistema de embargo de divulgação. Ele consiste em entregar aos jornalistas a pesquisa alguns dias antes da data oficial da divulgação, com o acordo de que todas as emissoras de televisão e de rádio darão o noticiário numa determinado data, e os jornais, no dia seguinte.


As revistas semanais podem fazer o mesmo quando a data da divulgação é uma sexta-feira, como foi o caso agora. Não se sabe por que não há nenhuma reportagem sobre o assunto nas três grandes revistas de informação. Os jornais Gazeta Mercantil e Valor Econômico, que não saem aos sábados, só podem dar “suítes”, ou seja, desdobrar o assunto a partir do próximo dia em que são editados, segunda-feira.


Ricos ‘empobrecidos’


A Folha sofreu duas derrapagens. No título do caderno especial que dedicou à Pnad (“Rico empobrece, e desigualdade diminui”, variação da manchete da capa) e no título da página 3, “Sob Lula, país teve maior desemprego desde 1992”.


Por partes. Por que não faz sentido dizer que os ricos ficaram mais pobres (no Informe Econômico do JB o delírio levou ao título “Utopia socialista à custa da classe média”)? Primeiro, porque há uma confusão generalizada entre rendimento, fruto do trabalho, e renda, que é tudo o que o indivíduo ou a família recebe. Se rico vivesse só de salário, falar em queda faria sentido. O índice de Gini mede os rendimentos do trabalho. No material de divulgação do IBGE (www.ibge.gov.br) não se usa uma única vez a palavra ‘renda’.


Mesmo assim, vejam só a queda dos rendimentos: entre os 5% mais ricos, de R$ 4.748 para R$ 4,643 (2,2%). Um horror! Entre os 10% mais ricos, de R$ 3.322 para R$ 3.266 (1,7%). Esses R$ 56 do segundo caso correspondem a quê? A uma mensalidade de TV por assinatura?


Mas o que realmente pega é a politização forçada dos números. É importante, hoje, em pleno cai-não-cai de Palocci, reconhecer os bons resultados da economia em 2004, mas a maior parte das tendências constatadas se insere numa linha histórica que atravessa vários governos. Às vezes a oscilação se dá dentro de um mesmo governo. É o caso do número de mulheres em idade ativa que trabalham: recuou um pouco entre 1995 e 1998 e passou a crescer constantemente depois de 1999, sempre dentro dos mandatos de Fernando Henrique Cardoso.


O título da Folha sobre o recorde negativo de desemprego no governo Lula, em 2003 (9,6%), é injusto. É verdade que a crise econômica de 2003 foi cavada por vinte de anos de “bravatas” do PT. Mas não tem cabimento dar destaque a esse dado. O Globo preferiu dizer que a taxa de 2004 foi “a mais baixa em seis anos”. Assim como seria incorreto o governo se vangloriar de avanços na educação. As medidas importantes foram tomadas no governo de FHC.


Só o Globo fez reportagem na Região Norte, cujas áreas rurais foram incluídas na Pnad pela primeira vez. E só esse jornal deu um quadro claro de comparações regionais. (Infelizmente, na edição que veio para São Paulo, com os nomes trocados das colunas Nordeste e Sudeste.)


Só o Estadão trabalhou como um bloco o tema dos domicílios. Quantos são, de que serviços essenciais desfrutam e o que têm dentro (fogão, geladeira, televisão, etc.).


Algo muito evidente foi o sucesso prático da privatização da telefonia. É simplesmente impossível avaliar todo o benefício que o acesso ao telefone trouxe e trará para a população brasileira.


Por contraste, o saneamento básico continua sendo um problema difícil. Não é impossível estimar todo o malefício para a população causado pela falta de água corrente, esgoto e coleta de lixo. Basta conversar com um médico sanitarista.


Ver também o tópico Melhorou!, no blog Verbo Solto, de Luiz Weis.

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