Terça-feira, 11 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1016
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Imprensa expõe ‘expurgo’ no Ipea

Por Luiz Weis em 16/11/2007 | comentários

O furo foi da Folha – ontem, em matéria assinada pelo colunista Guilherme Barros – e é da Folha, hoje, em matéria assinada pela repórter Sheila d’Amorim, a melhor reportagem publicada até aqui sobre os bastidores de uma história que ainda vai render.

Trata-se do afastamento – ou “expurgo, como se queira – de quatro pesquisadores do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), Fábio Giambiagi, Otávio Tourinho, Gervásio Rezende e Regis Bonelli.

Eles teriam sido desligados por motivos ideológicos – seriam demasiado liberais para o gosto do governo.

Em espaçosas entrevistas à Folha e ao Estado, que hoje também oferece bela cobertura a respeito, o presidente da instituição, Marcio Pochmann, nega. As razões seriam puramente administrativas.

Segundo ele, os dois primeiros foram cedidos pelo BNDES para realizar um trabalho específico a ser concluído até o início de dezembro. Já os outros estariam em situação irregular porque, embora aposentados, continuavam a colaborar com o instituto.

O Ipea, criado em 1964 pelo ministro Roberto Campos, era vinculado ao Ministério do Planejamento. Foi transferido para a recém-criada Secretaria de Assuntos Estratégicos, dirigida, com status de ministro, pelo filósofo Roberto Mangabeira Unger.

Quando da transferência, mais de um comentarista advertiu para o risco de o instituto – respeitado por sua independência e pela qualidade dos seus estudos – ser despojado da diversidade de idéias que sempre o caracterizou, mesmo na ditadura.

À Folha, Pochmann, economista da Unicamp que foi secretário municipal em São Paulo na gestão Marta Suplicy e é conhecido pelas suas posições “desenvolvimentistas”, ressaltou estar “tão preocupado com a pluralidade no IPEA”, que criou um conselho de orientação “com personalidades de pensamentos distintos, como Delfim Netto, Maria da Conceição Tavares e Reis Velloso”.

Se assim é, a repórter Elvira Lobato, que o entrevistou, poderia ter-lhe perguntado o que achava da reação de Delfim aos afastamentos, publicada na véspera pela própria Folha.

Do texto de Guilherme Barros:

“O ex-deputado Delfim Netto, que comandou a economia no período de 1979 a 1985, durante o regime militar, chegando a ser chamado de superministro, lamentou e criticou a saída dos quatro pesquisados do Ipea. Delfim foi até chamado por Pochmann – e aceitou – para assumir o cargo de conselheiro do Ipea.

‘Tenho esses profissionais em alta conta. São economistas dedicados à pesquisa, com boa formação acadêmica e trabalhos relevantes prestados à economia brasileira’, afirmou o ex-deputado.

Delfim lembrou-se do período do autoritarismo e de sua convivência com o Ipea, quando ministro: ‘Nunca houve censura de nenhuma natureza no Ipea. No período da ditadura, eles atacavam a ditadura à vontade e ainda recebiam aumento de salário. O que espero é que não haja nenhuma censura à pesquisa acadêmica que o Ipea tem produzido’.

Mas é, precisamente, o espectro que ronda o Ipea, a julgar pela reveladora reportagem de Sheila D’Amorim, sob o título “Idéia de mudar Ipea existe desde Dirceu”, mencionada no início deste artigo.

A matéria:

‘É preciso estatizar o Ipea.’ A frase atribuída ao então todo-poderoso ministro José Dirceu (Casa Civil) no início do primeiro mandato do presidente Lula é tida por integrantes do próprio governo ouvidos pela Folha como a base das reformas que estão sendo promovidas no Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada.

O afastamento de quatro pesquisadores que tinham pensamento econômico divergente do predominante no governo, divulgado ontem pela Folha, segue a linha adotada após a transferência do órgão da tutela do ministro Paulo Bernardo (Planejamento) para a do ministro Mangabeira Unger (Extraordinário de Assuntos Estratégicos), há alguns meses.

Desde agosto, quando o novo presidente do instituto nomeado por Unger, o petista Marcio Pochmann, tomou posse, publicações foram modificadas e outros quatro diretores já haviam sido substituídos. A maioria deles foi trocada por profissionais de fora do instituto.

Entre eles, Ana Peliano, que não era tolerada no PT por ter sido a principal auxiliar da ex-primeira-dama Ruth Cardoso no programa Comunidade Solidária. A socióloga ocupava a diretoria de Estudos Sociais do instituto. Também deixaram o cargo de direção Paulo Levy (Estudos Macroeconômicos), João Alberto De Negri (Estudos Setoriais) e José Aroudo Mota (Estudos Regionais).

Segundo a Folha apurou, a idéia com a reestruturação é tentar abrir mais espaço para a corrente autodenominada ‘desenvolvimentista’, que, na avaliação de integrantes do governo, estava sufocada por ortodoxos alinhados com as idéias econômicas do governo anterior e do ex-ministro Antonio Palocci Filho (Fazenda).

A visibilidade, a exposição e, principalmente, a repercussão que o pensamento de pesquisadores do Ipea, como o afastado Fabio Giambiagi, tinham na mídia sempre incomodaram a ala desenvolvimentista do governo, que ganhou poder neste segundo mandato de Lula.

Com isso, a tensão foi a marca do relacionamento do Ipea com petistas que consideravam que o instituto estava ‘tomado’ por conservadores, quando não rotulados de tucanos. O ministro Paulo Bernardo, remanescente das fileiras paloccistas, era muito criticado nas reuniões internas do governo por não ‘enquadrar’ o Ipea.

Apesar das pressões, o ministro não só manteve a autonomia do instituto como incorporou propostas sugeridas nos debates do Ipea. Uma delas previa equilibrar, no médio prazo, as contas públicas de tal forma que as receitas cobririam todos os gatos, inclusive com juros, o chamado déficit nominal zero.

Após embate público com a ministra Dilma Rousseff (Casa Civil), que desqualificou o projeto classificando como ‘rudimentar’ no final do primeiro mandato de Lula, a idéia emplacou como uma das medidas fiscais do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento).

A desvinculação do Ipea do Planejamento e a transferência para a esfera no novo ministro Mangabeira Unger provocaram uma revolta geral entre os pesquisadores do instituto no início deste ano. Eles temiam a censura e a implantação de um pensamento único no órgão, que sempre se destacou pela diversidade de idéias. Sem isso, acreditam, o Ipea não existe.”

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