Terça-feira, 21 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

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Imprensa mantém influência na agenda noticiosa mas perde poder político na formação das percepções do público

Por Carlos Castilho em 20/12/2010 | comentários

Uma pesquisa divulgada pelo European Journalism Observatory (Observatório Europeu do Jornalismo) revelou que existe uma forte coincidência entre as agendas noticiosas dos jornais impressos e dos portais informativos online em 60% dos casos estudados numa amostra de 3.900 notícias publicadas da imprensa norte-americana.


O estudo — baseado em trabalho publicado na edição de dezembro da revista Journal of Mass Communication Quarterly — revela também como a agenda da imprensa online e offline está se afastando cada vez mais da lista de assuntos mais comentados em blogs, redes sociais, twitter e outros sites produzidos por indivíduos com e sem formação jornalística.


Uma amostra de notícias analisadas pelo pesquisador Scott Maier, professor associado da universidade de Oregon, indicou que além da coincidência na escolha de temas, a imprensa convencional e os portais noticiosos coincidem também no enfoque das informações publicadas.


Em compensação, apenas 1/3 dos blogs, páginas pessoais e notícias publicadas em redes sociais mostrou alguma relação com as manchetes e notícias mais importantes publicadas na imprensa. Os veículos alternativos de informação preferiram comentar e trocar informações sobre os temas incluídos na agenda da grande imprensa.


Além de confirmar o divórcio entre a agenda da mídia e a agenda dos cidadãos, as conclusões da pesquisa deixam claro, por outro lado, que os blogs tendem a ocupar um espaço semelhante ao dos talk shows radiofônicos em matéria de participação do público.


A coincidência de agendas mostra que a imprensa tradicional continua ditando as regras em matéria de temas a serem explorados pelos portais informativos. Esta tendência é explicada pelo fato de que a maioria dos jornalistas na web ainda mantém os valores e rotinas da imprensa escrita, apesar de usarem ferramentas digitais. 


Os jornalistas de portais preferem seguir rotinas conhecidas e seguras, geralmente aprendidas na imprensa tradicional, a aventurar-se na busca de uma agenda baseada na interação com os usuários. O primeiro comportamento procura preservar a segurança e o controle, enquanto a conversa com os leitores pode desestabilizar práticas consolidadas há muito tempo nas redações.


A questão não é tanto o problema da segurança e controle nas rotinas de produção noticiosa, mas o de aproveitar os recursos da interatividade permitidos pela internet para promover a inclusão do público no processo de produção informativa. A diferença está aqui e não em polemizar sobre uma eventual maior ou menor segurança, como sinônimo de credibilidade, nas informações produzidas a partir da interatividade com usuários.


A divergência de agendas mostra que mesmo no ambiente online sobrevivem as rotinas e valores do jornalismo impresso, apesar de já terem se passado mais de dez anos desde o surgimento dos primeiros portais informativos online.


Em maio de 2010, o Pew Center publicou os resultados de uma pesquisa nos Estados Unidos mostrando que 44% dos norte-americanos já se informam preferencialmente a partir de blogs, twitter, email, fóruns e redes sociais.


A pesquisa também constatou que a maioria do material publicado em blogs ou comentado em redes sociais tem origem na imprensa convencional. Isto mostra como os portais online e versões web de jornais impressos ainda influem na agenda de discussões do público, mas indica também um fenômeno não menos importante: a imprensa está perdendo rapidamente o poder de enquadrar ou contextualizar as informações, como aconteceu nos últimos 200 anos.


Ela fornece os fatos duros e os blogs, páginas pessoais, twitter, fóruns e redes sociais se encarregam da contextualização. Com isso, o poder político da imprensa convencional fica muito limitado, porque ela já não pode mais influir de forma decisiva na maneira como as pessoas desenvolvem percepções e opiniões.


A contrapartida é que começamos a entrar num período de grande complexidade informativa, com versões e percepções muito diversificadas graças ao ingresso de milhares de pessoas na blogosfera, o ambiente informativo dos blogs.

Todos os comentários

  1. Comentou em 22/12/2010 Carlos N Mendes

    Parte dessas coincidências se deve às comemorações – a imprensa adora ver a folhinha e ‘comemorar’ efemérides – inclusive mortes. ‘100 anos da morte do pintor fulano de tal’ – ’50 anos sem a cantora tal’. Mas tem matérias que surgem do nada e nascem como clones em diversas redações. Espionagem? Conspiração? Instituto Millenium? Não sei, mas não é coincidência.

  2. Comentou em 21/12/2010 Ibsen Marques

    É isso ‘Em compensação, apenas 1/3 dos blogs, páginas pessoais e notícias publicadas em redes sociais mostrou alguma relação com as manchetes e notícias mais importantes publicadas na imprensa.’ ou isso: ‘A pesquisa também constatou que a maioria do material publicado em blogs ou comentado em redes sociais tem origem na imprensa convencional. ‘? As informações parecem se contradizer. Por outro lado, se o conteúdo a ser comentado pelos blogs ainda se origina na imprensa ou mídia convencional, parece que ainda é válida a afirmação de que é ela quem define a pauta das discussões, quer dizer, ela pode não interferir diretamente na opinião formada, mas ainda define sobre o que devemos pensar e debater.

  3. Comentou em 21/12/2010 Mauro Malin

    Um reparo, data venia: não há como afirmar que as agendas da blogosfera são ‘a agenda dos cidadãos’, como está escrito no quinto parágrafo. Atrevo-me a dizer que a agenda formulada pela mídia tradicional ainda pode ser mais representativa, com todos os seus vieses, do que as agendas da blogosfera. O caso brasileiro é ilustrativo, me parece.

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