Quarta-feira, 22 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

CÓDIGO ABERTO >

É preciso mudar a estratégia de cobertura da violência

Por Carlos Castilho em 06/06/2013 | comentários

Está na hora de nossa imprensa mudar a sua agenda em matéria de cobertura da violência urbana no país. A saturação de notícias sobre novos assassinatos, latrocínios, sequestros, atropelamentos etc. já está chegando ao limite do suportável e corre o risco de se tornar inócua pela repetição.

A cobrança das autoridades também se mostra ineficaz por conta da burocratização e desvios de conduta nos órgãos de segurança. Além do mais, não dá para colocar um policial em cada esquina e nem há recursos para tudo o que a população exige para se sentir segura nas ruas e em casa.

A saturação de notícias sobre violência por parte da imprensa tende a aumentar o medo na população, e todos nós sabemos que esse tipo de sensação alimenta negócios, torna as pessoas mais dóceis e manipuláveis, sem falar nas explosões de xenofobia e o recurso à justiça pelas próprias mãos quando alguém, ou algum grupo de indivíduos, chega ao seu limite de tolerância em relação à insegurança.

Por outro lado, não é possível eliminar da noite para o dia a delinquência urbana, o crime organizado, as máfias do narcotráfico e os bandidos do colarinho branco. Todo mundo sabe que o problema é complexo e que não adianta sair prendendo ou matando criminosos. Mas, apesar disso, continuamos ouvindo promessas governamentais de que tudo vai ser resolvido com mais verbas, mais câmeras de vigilância, helicópteros, armas, novos policiais etc., etc.

A soma desses fatores torna quase óbvia a necessidade de uma mudança radical na forma de encarar o problema – e a imprensa está numa posição única, porque tudo indica que a busca de soluções para a violência urbana, que já não é mais um privilegio das metrópoles brasileiras, passa pela mudança de condutas e de valores do cidadão. O problema ficou complexo demais para ser resolvido somente na base da cobrança, das denúncias, da saturação noticiosa ou do tratamento emotivo.

A grande pergunta é o que o cidadão – ou seja, nós – pode fazer para reduzir a violência urbana que conseguiu o milagre de atingir todas as classes sociais. Essa pergunta deveria ser o ponto de partida da imprensa para mudar sua estratégia de cobertura do problema da insegurança pública. Os jornais, rádios, emissoras de TV e páginas web têm o poder de influenciar a mudança na agenda de preocupações do público. 

Isso é quase o óbvio ululante, o que falta é assumir a mudança, porque na hora de montar um noticiário a rotina leva os editores a invariavelmente privilegiar o crime do dia ou o assalto mais espetacular, nos quais quase sempre aparecem policiais triunfantes, bandidos de cabeça baixa, vítimas chorando e testemunhas indignadas.

A rotinização da cobertura só estimula o acúmulo do medo e da raiva, que quando combinados têm efeitos quase tão devastadores quanto o ato criminoso. Sabemos disso há anos mas insistimos em não assumir que essa conduta leva a um beco sem saída.

A resposta à pergunta sobre o que fazer implica uma mudança de comportamento. Não há nenhuma receita ou modelo pronto para ser aplicado. Primeiro porque cada situação é uma situação diferente e, segundo, porque a existência de um modelo único repete o quadro atual em que as pessoas se acomodam ao delegar para um funcionário público a tarefa de resolver o problema – e passam apenas a cobrar resultados. Isso nós já temos hoje. Em qualquer noticiário é rotineira a aparição de autoridades prometendo resolver um problema que elas sabem que não pode ser resolvido por medidas normativas.

Assumir que não existe solução vinda de cima é o primeiro passo para mudar a agenda de cobertura da imprensa. Se existe alguma possibilidade de começar a reverter a violência, esta vem da base social, do cidadão e das comunidades. São eles que podem criar sistemas coletivos de segurança pessoal e patrimonial, que podem não ser perfeitos, mas pelo menos são mais presentes do que a polícia, que não pode estar em todos os lugares o tempo todo.

A imprensa ocupa um papel único nessa possibilidade de mudar a agenda de preocupações do público em matéria de segurança porque, salvo o eventual desaparecimento de anúncios de empresas ligadas a produção de equipamentos e serviços de segurança, ela não tem nada a perder, muito pelo contrário: ganha a atenção do leitor, coisa preciosa nos dias de hoje.

Não é preciso nenhuma decisão mirabolante, basta que as redações comecem a refletir sobre o que estão fazendo em matéria de cobertura da violência e constatem a necessidade de ir buscar junto ao público as soluções para o problema. Não adianta recorrer a especialistas em segurança pública, porque eles são perfeitos para problemas pontuais mas não conhecem, e nem podem conhecer, as realidades específicas de cada comunidade.

Ao procurar junto à população os elementos para uma nova estratégia de cobertura da violência urbana, a imprensa rompe com a rotina de buscar sempre um especialista, reforçando a crença em soluções verticais. É uma primeira mudança, parece mínima, mas seus efeitos podem ser incalculáveis. Principalmente se levarmos em conta que o modelo atual de cobertura tende a nos conduzir a um beco sem saída, onde as principais vítimas seremos nós.

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