Quinta-feira, 23 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

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Indústria dos jornais brasileiros ignora transparência para manter cacoete

Por Carlos Castilho em 18/09/2009 | comentários

A salvação dos jornais não está nos favores governamentais e nem em novos negócios privados mas na prestação de serviços ao leitor. Esta verdade acaciana, que chega às raias do óbvio, é sistematicamente negada pela indústria dos jornais, não só aqui no Brasil, como na maior parte do mundo.


 


Há toda uma cultura empresarial nos jornais brasileiros que obstrui o seu relacionamento com os leitores. O primeiro grande obstáculo foi a estratégia de vender público a anunciantes, como forma de obter receitas de publicidade. Isto equivale a transformar o leitor em mera moeda da troca, sem levar em conta necessidades e desejos dos compradores de jornais.


 


O  segundo obstáculo, é o mito de que os jornais sabem o que é bom para seus leitores. Mito porque os jornalistas são treinados para produzir notícias e não tem a formação sociológica ou psicológica para interpretar o que as pessoas desejam ou necessitam. Além, do mais, esta postura está na base do que muitos leitores chamam de arrogância da imprensa.


 


A indústria dos jornais é uma das que apresenta o menor grau de transparência no setor produtivo privado. Ela não divulga números de sua performance financeira para os leitores. Faz isto apenas  em casos especiais e para outros segmentos corporativos, como a publicidade, que exige dados para poder justificar a novos negócios.


 


Os leitores só são levados em conta quando os jornais se envolvem em alguma guerra publicitária para impressionar anunciantes. Aí surgem as estatísticas sobre tiragem de exemplares diários, dominicais, de revistas semanais, audiência na TV e rádio. Mas não é por causa do leitor, e sim dos anunciantes.


 


A obviedade da opção primária pelo leitor foi destacada esta semana pelo polêmico documentarista norte-americano Michael Moore cujo prestígio está apoiado na provocação à ícones do mundo corporativo contemporâneo. Michael resolveu apontar sua metralhadora verbal contra a indústria dos jornais nos Estados Unidos, usando como pretexto o lançamento do seu novo filme Capitalism, a Love Story (Capitalismo,uma história de amor).


 


O documentário é sobre a chamada “turbulência global” do ano passado mas o autor de Bowling for Columbine e Sicko acusa a imprensa de seu país de ter abandonado os seus leitores para aliar-se às grandes corporações enquanto na Europa, a maior parte da imprensa manteve, segundo ele, o foco nos público.Michael Moore


 


Num texto publicado esta semana pela revista online canadense National Post , o premiado documentarista foi bombástico ao afirmar que o “capitalismo matou a imprensa norte-americana” e fez uma previsão ousada: “Dentro de dois anos não haverá mais jornais diários nos Estados Unidos porque o leitor médio já não sentirá mais necessidade deste tipo de publicação”.


 


Os dados da performance financeira da imprensa americana são quase óbvios em suas conseqüências. O The New York Times, o mais respeitado jornal norte-americano, tinha, em 2004, 27% de sua receita proveniente da vendagem em bancas e assinaturas. No mesmo ano, a publicidade participava com 67% do faturamento do jornal.


 


Cinco anos mais tarde, a participação da venda direta no faturamento do jornal subiu para 39% e a da publicidade caiu para 54%. A consequência foi uma queda de 14% no faturamento líquido total, o que obrigou o Times a aumentar os preços em banca de US$ 1,25 (R$ 2,25) para US$ 2.00 (R$ 3,68). Um anuncio de página inteira num jornal regional importante nos Estados Unidos (o equivalente a Zero Hora, Correio Braziliense ou Estado de Minas)  caiu de US$ 15,000.00 , no final dos anos 90, para US$ 4,000.00 (cerca de R$ 7.500,00).


 


Estes dados não estão disponíveis aqui no Brasil porque a indústria dos jornais não está minimamente preocupada com a transparência de seus negócios. Assumindo que inexiste uma razão ilegal para este sigilo, não há outro motivo plausível para justificar a ausência de uma discussão aberta e franca sobre o futuro dos jornais no Brasil, com base em dados reais fornecidos pelas próprias empresas.   


 

Suspeita-se que a situação financeira dos jornais brasileiros não seja tão dramática quanto a dos norte-americanos. Se isto for verdade, é mais um motivo para que a discussão aconteça sem um clima de “o último apaga a luz”. Mas como não há nenhuma sinalização em contrário, a constatação é a de que a falta de transparência é realmente um cacoete, cuja manutenção parece resistir à lógica dos fatos.

Todos os comentários

  1. Comentou em 22/09/2009 Cristiana Castro

    ( cont. ) Tanto faz, hoje, o Brasil vendido a si mesmo nas novelas ou o vendido nas telas ao mundo. Não nos reconhecemos. A bala é sempre da polícia, o homem é sempre o bom de bola, a mulher é sempre nua, o político é sempre ladrão, a imprensa é sempre livre, Deus está sempre vendo e a culpa é sempre nossa. A ‘ Nação – produto’ não está mais a venda. Somos homens e mulheres, pobres e ricos, brancos e pretos, jovens ou velhos que estudam ou trabalham, ou as duas coisas, como em qualuer lugar do mundo fora das telas do cinema nacional e das novelas da Vênus Platinada. Zé Carioca, ascendeu ao Planalto para mostrar a Walt Disney, do que é capaz o povo da Vila Xurupita.

  2. Comentou em 22/09/2009 Eliana Lobo

    É revoltante a postura dos chamados ‘grandes jornais’. Na minha opinião, não passam de tablóides, prestando um verdadeiro desserviço ao Brasil. Há de chegar o dia em que, à essa gente medíocre e corrompida, só restará lavar banheiro em Bangu I.

  3. Comentou em 22/09/2009 Cristiana Castro

    ( cont. ) nas costas, o Nordeste africano? O Brasil é enorme, as passagens são caras, os jornais são caros e mesmo ue fossem baratos, somos o país de analfabetos; de onde vieram esses conceitos? Como atingiram a todos, numa mesma intensidade? O índio indolente, a mulher bunda, o homem viril, o bandido herói, a polícia assassina, o político corrupto, o rico bem sucedido ue, invariavelmente, começou enxugando gelo… Como esse Brasil enorme, ue nunca se encontra, tem o mesmo pensamento? Elevando-se acima dessa mediocridade, nossa Vênus platinada propõe fé para alívio da alma e futebol e carnaval para deleite do corpo. A fé, em qq idioma, garante a perpetuação de seu poder e, carnaval e futebol, seus lucros. O Brasil que a Vênus vende para matar ( internamente ), é loiro, olhos claros, corpos sarados, bairros nobres, cidadãos trabalhadores e, ainda assim, bem sucedidos, iates, jatinhos, jóias… É sua própria imagem e semelhança, a perfeição e a beleza, que a Vênus vende ao Brasil. Por outro lado, o Brasil que a Vênus vende para morrer ( externamente ), é o que o nosso cinema é obrigado a vender nas telas, e que é o que eles querem se imagine ser a imagem e semelhança de seu povo e que, cristaliza, internacionalemnte, a nossa imagem de bichos, vagabundos, bandidos, pedófilos, prostitutas, ônibus, morros, presídios, facas, estiletes, fuzis, drogas… ( cont.)

  4. Comentou em 22/09/2009 Cristiana Castro

    Putz… Eu me esforço, mas eu caio, eu sempre caio. Castilho, vc sempre me detona. ‘ … Vender público a anunciantes…’, eu nunca tinha visto por esse ângulo e, talvez, esse seja o ponto-chave de todo esse conflito. Como conceber que empresas de comunicação que vendam tão bem suas imagens e produtos ao Brasil e ao mundo, tenham sido capazes de investir tanto, numa imagem tão ruim de seu país e seu povo? Enquanto se vendiam, interna e externamente, como o que havia de melhor em comunicação, marketing, jornalismo, entretenimento; enquanto desfilavam suas premiações internacionais e, enquanto arrotavam seu poder de manipular toda uma nação, cresciam, interna e externamente, por isso e, tb eram capazes, de nos vender a nós, a preço de banana, mercado interno e externo. A Vênus platinada, vendia no mercado, serviços de primeira e povo de segunda; éramos os analfabetos, trambiqueiros, bandidos, mulheres bunda grande e baratas, malandros…, todos controlados pelo poder superior da Vênus, suspensa sob essa lama, amparada pela elite ‘ européia’, que suporta, envergonhada, o fato de ser natural do ‘ país’ do Zé Carioca da Disney. Mas quem vendeu ao mundo a imagem do Zé Carioca, trambiqueiro? Quem vendeu aos cariocas vagabundos a imagem do paulista trabalhador? Quem vendeu ao paulistra trabalhador a imagem do baiano preguiçoso? Quem vendeu ao sul europeu a certeza de carregar (cont.)

  5. Comentou em 21/09/2009 Aloísio Morais Martins

    É sempre bom ressaltar que a queda de vendagem e de faturamento da imprensa, principalmente a escrita, se dá num momento de ‘crise financeira internacional’ que, felizmente, já foi ou está indo embora. Lembro isso porque, geralmente, os nossos observadores da imprensa não levam isso em conta, preferindo supervalorizar a inegável intromissão da internet etc. junto ao público.

  6. Comentou em 21/09/2009 sergio ribeiro

    A imprensa brasileira tem a mentalidade do falecido Antônio Soares Calçada, Presidente da Federação Carioca de Futebol, mais conhecido do Caixa D´Água: ‘Eu não me arrogo à Opinião Pública’.

  7. Comentou em 21/09/2009 Zé da Silva Brasileiro

    ‘A indústria dos jornais é uma das que apresenta o menor grau de transparência no setor produtivo privado. Ela não divulga números de sua performance financeira para os leitores’. O jornalista Luiz Weis publicou aquí mesmo no OI em 12/2/2007 um interessante artigo chamado ‘Quem paga o flautista dá o tom’, tendo provocado uma interessante discussão entre os comentaristas sobre a relação entre o poder econômico e a mídia. Talvez os donos de jornais considerem que os leitores brasileiros não estejam suficientemente maduros para saber quem está pagando o flautista e dando o tom para a imprensa brasileira… Pode ser que estejam certos. Dizem que se nós conhecessemos o processo de produção das salsichas nós, talvez, desistíssemos do seu consumo…

  8. Comentou em 20/09/2009 Jaime Collier Coeli

    Muito adequada a classificação de ‘cafetões da ética’, não obstante os proprietarios de bordeis possam reclamar que, no caso deles, não existe hipocrisia.

  9. Comentou em 19/09/2009 Eduardo Ribeiro

    ‘Suspeita-se que a situação financeira dos jornais brasileiros não seja tão dramática quanto a dos norte-americanos.’
    Claro, porque os grandes jornais brasileiros nunca precisaram ser empresas eficientes; afinal, são mantidos por subsídios governamentais, ocultos ou nem tanto. Daí a falta de compromisso com a qualidade ou verdade do que publicam. No Brasil, jornalistas formam uma casta estranha de funcionário público, que vive na ilusão de que faz parte da iniciativa privada.

  10. Comentou em 19/09/2009 Luciano Prado

    Carlos Castilho mais uma vez presta um relevante – e quase solitário – serviço à imprensa brasileira, notadamente aos jornais. Os fatos postos pelo articulista são tão fortes e óbvios que parecem entorpecer os “senhores de engenho” da grande imprensa. O caso é mesmo de arrogância, prepotência. Em artigo dessa semana uma das moscas da Folha, o “grande” jornalista Clóvis Rossi, a propósito das votações no Congresso amaldiçoou a liberdade na internet. Parece que o suicida, paradoxalmente, acredita na própria imortalidade.

  11. Comentou em 19/09/2009 Luiz André

    Que chegue logo este dia. Morte ao P.I.G!!!
    São inúteis, papagaios de pirata que dão informações inúteis, e opiniões mais inúteis ainda.
    Escravos do patrões, submissos incontestes!!! Não servem ao público (POVO), não servem a democracia. Servem apenas ao desejos e ambições financeiras do patrões e da suja elite, a qual eles PENSAM pertencer. São maus-carateres criados e formados no shopping centers e condomínios, e depois como CÃES, saõ adestrados por Willians Boners, Otavinhos Frias e Ali kamels da vida, passando a atuar com cafetões da ética, prostituindo o direito de imprensa em detrimento do Brasil e da democracia.
    Já estão em velório, que venha logo o dia do sepultamento.

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