Quarta-feira, 20 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

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Interatividade com leitores corrige distorção na prática do jornalismo

Por Carlos Castilho em 13/08/2007 | comentários

Ao iniciar, na semana passada, a publicação de comentários de pessoas citadas em notícias, o site Google News aumentou ainda mais a polêmica sobre a participação de leitores na produção de conteúdos informativos jornalísticos.


 


O Google News publica notícias de todo o mundo, recolhidas de 4.500 jornais, revistas, boletins, emissoras de rádio e TV, bem como páginas Web, cujo conteúdo é indexado pelos robôs eletrônicos e editados automaticamente sem intervenção humana, para reprodução em 41 idiomas diferentes, inclusive o português.


 


O projeto sempre foi criticado por ser uma forma de jornalismo robotizado e agora os seus responsáveis pretendem dar-lhe uma cara mais humanizada ao incorporar, na sua versão norte-americana, observações de pessoas citadas em notícias publicadas diariamente.


 


Por enquanto, os comentários têm aparecido mais em seções como tecnologia, ciência e saúde do que nas de política, esportes e economia, devido a razões consideradas técnicas (para ver um exemplo, clique aqui).


 


O problema é como identificar corretamente o responsável pelo comentário para evitar autoria falsa. O Google criou uma série de regras para minimizar os riscos das falsificações, mas isto acabou gerando um enorme aumento de trabalho, porque cada solicitação deve ser checada e só depois disto é que é publicada.


 


Nos casos de política e economia o processo pode tomar horas o que retarda a certificação de autenticidade, inviabilizando a publicação, porque a notícia acaba sendo superada por outras. Nas notícias menos voláteis, o processo pode ser concluído em tempo hábil.


 


O Google News pode estar preocupado com a humanização do seu noticiário, mas a participação dos leitores, por meio de comentários, está se transformando num tema que terá profundas implicações para a prática do jornalismo na Web.


 


O que começa a acontecer é uma lenta transferência de ênfase do autor para os comentários, num grande número de sites noticiosos e weblogs de informação, inclusive aqui no Observatório.


 


Os textos e posts publicados assumem cada vez mais a função de propor temas  para discussão pelos leitores por meio de comentários. Na teoria, esta sempre foi a missão principal do jornalismo, mas ela acabou sendo alterada, na prática, pela indústria da comunicação, através da transformação da notícia num produto de consumo.


 


Antes da internet, a ausência de mecanismos rápidos para interação entre redações e leitores contribuiu para que a autoria da notícia fosse mais importante que a sua discussão.


 


A situação mudou agora na Web com a multiplicação quase frenética de softwares voltados para a participação dos internautas, apesar desta reviravolta ainda não ter sido totalmente digerida e entendida pelas redações.


 


A notícia está deixando de ser um produto para se transformar no ponto de partida de um processo, que começa com os jornalistas, que depois cedem o papel principal para os leitores. Os profissionais deixam de ser os donos da notícia.


 

A compreensão deste processo seguramente vai ajudar a reduzir muito as atuais desconfianças mútuas entre as redações e o público leitor de jornais e revistas, mas também entre os espectadores e ouvintes das emissoras de TV e rádio.

Todos os comentários

  1. Comentou em 17/08/2007 Rafael Barifouse

    você viu que a polêmica do Estadão chegou ao BoingBoing via o Global Voices, que repercutiu o seu comentário sobre o assunto?
    Postei lá no meu site sobre isso no meu blog: http://www.tecneira.globolog.com.br
    Dá uma olhada lá.
    Abraço,

  2. Comentou em 13/08/2007 Jorge Cortás Sader Filho

    Segundo estudos no assunto, os maiores jornais do mundo dão excessivo valor à iteratividade. Quando o leitor participa nas cartas, fóruns e debates, principalmente, a credibilidade no periódico aumenta. Este tem sido o procedimento do New York Times, do Washington Post, Le Figaro e Der Spigel, principalmente. Seus leitores participam do jornal, tanto postando mensagem de aplauso, como de advertência. Dois jornais brasileiros fazem isso usando bastante critério. Um é o Estado de São Paulo, e o outro o Jornal do Brasil. Merecem crédito absoluto, embora o Estadão seja dito um jornal que representa a direita brasileira, o que não é verdade. Noticia o que acontece, e deixou de ser considerado “direitista” há tempos. O mesmo não se pode dizer da Folha do Estado de São Paulo. Parece excessivamente compromissada com os interesses da direita, pelo que publica. Parece, pois muitas vezes é até mesmo considerada uma das vozes da esquerda. Mas sem fugir ao tema, a participação do leitor é fundamental, se um periódico quer ser mesmo digno de respeito e credibilidade.

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