Quarta-feira, 20 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

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Internet, a nova arena do conflito entre passado e futuro na política

Por Carlos Castilho em 03/09/2009 | comentários

A campanha para as eleições de 2010 acaba de ganhar mais uma atração capaz de alimentar o farto anedotário protagonizado por senadores e deputados federais.  Como se já não bastasse o permanente bate boca em plenário, começamos a assistir a cômica participação de parlamentares no debate sobre regulamentação da internet.


 


Sim, é cômica porque os nobres representantes do povo ainda não se deram conta da posição ridícula que estão assumindo ao tentar legislar sobre algo que desconhecem e que no fundo gostariam que não existisse. Propõem coisas inviáveis e irreais deixando visível seu total despreparo para tratar com um tema que está mudando a nossa forma de viver.


 


Se faltava um exemplo de como os políticos brasileiros, com raríssimas exceções, não estão à altura dos dilemas enfrentados pela nação, este é o da internet. É triste por um lado, porque mostra até onde foi o divórcio entre os políticos de Brasília e o resto do país, por outro, oferece aos eleitores brasileiros uma oportunidade rara para testemunhar as acrobacias canhestras de senadores e deputados para tentar mostrar que são capazes de legislar sobre questões complexas.


 


A questão da internet é um divisor de águas na política brasileira porque pela primeira vez na história recente,  as elites partidárias e os lobbies instalados no Congresso Nacional estão sob a ameaça de perder o controle sobre segmentos influentes do eleitorado brasileiro.


 


A ameaça não é devida ao surgimento de um novo partido, de um novo movimento revolucionário ou de uma potência externa. O descontrole surge de algo muito mais simples, quase prosaico: uma tecnologia que deu às pessoas o poder de expressar suas opiniões sem depender da mídia institucional.


 


Cerca de 70 milhões de brasileiros tem acesso à internet atualmente, mas o núcleo mais ativo de internautas não passa de uns 15 a 20 milhões. Acontece que estes fazem parte do segmento da população que exerce maior influência na formação de opiniões e na definição da agenda eleitoral. São profissionais liberais de classe média e jovens de todas as categorias sociais.


 


Um perfil demográfico como este não garante uma renovação total da elite política do país, porque nas regiões mais pobres, o caciquismo político ainda prevalece e vai se manifestar nas eleições de 2010. Mas no Brasil urbanizado, a mudança já começou e tende a ganhar velocidade movida pela rapidez com que a internet circula as informações e, em especial, o boca a boca político.


 


As trapalhadas protagonizadas por senadores como Marco Maciel e Eduardo Azeredo na tentativa de colocar umcabresto” na Web e nos seus usuários, mostram o despreparo de parlamentares experientes no trato de uma questão que cresceu sem eles se darem conta e que agora ameaça o controle que sempre tiveram sobre as decisões nacionais.


 


O que está em jogo no debate sobre propaganda eleitoral na internet é a questão do controle dos políticos sobre as regras do jogo. Só que eles tentam aplicar velhos processos à uma realidade nova. É quase impossível controlar a internet usando códigos, leis e decretos. A rede funciona a base de consensos e da interação, porque é fácil achar uma escapatória tecnológica para as imposições.


 


Mas como os deputados e senador não conseguem entender esta nova realidade, vão insistir numa regulamentação decidida em Brasília, a toque de caixa. O resultado vai ser um jogo de gato e rato, onde os internautas provavelmente transformarão as violações das novas regras numa questão de honra e numa forma de mostrar que eles são mais hábeis na hora de usar da rede.


 


Para inserir a questão da internet na agenda do Congresso é essencial entender que ela não é apenas uma tecnologia mais sofisticada. Trata-se de um processo que deflagrado por uma mudança tecnologia mas que está mudando o contexto social, comunicacional, econômico e agora começa a contagiar a política.  É tão irreversível quanto foi a revolução industrial deflagrada pela máquina à vapor.


 


A campanha para 2010 pode acabar sendo um marco no país, não tanto pelos seus resultados, mas porque o debate sobre o uso eleitoral da internet mostrou um despreparo dos políticos capaz de assustar quem se preocupa com a democracia.

Todos os comentários

  1. Comentou em 06/09/2009 Cristiana Castro

    Eu tb entendo como despreparo na medida em que nossas elites se acostumaram a resolver tudo na Justiça, que é deles. A idéia é, dá um jeito nesse troço que tá atrapalhando. Como na mídia tradicional, casse um direito deles e eles é que vão a justiça reivindicar. A rede não funciona assim e tem mecanismos de defesa, precários ainda mas tem. O fato da gente se dissolver, sumir e atacar, acaba trazendo mais prejuízos a eles do que a nós. Só acertam na rede quem for alvo fixo, e isso conta 1%. Aproveitemos a liberdade enquanto ela nos sorri e rezemos pra que a molecada se mantenha longe da inutilidade do seno A, coseno B e dos BBB da TV, é incrível, como é a molecada, desacreditada, que garante a liberdade e voz da população.

  2. Comentou em 05/09/2009 Ana Bednarski

    Não entendo porque chamam esta atitude de ‘despreparo’, ísto é censura do único meio que relamente proporciona a liberdade de expressão, muito facil deixar as noticias na grande midia, afinal, TVS, Radios, jornais são concessões nas mãos de políticos e aliados de direita, ou não? Não é despreparo é lobby a favor da grande mídia, pra tentar recuperar o que eles perderam, audiência e leitores.

    NÃO AO AI5 DIGITAL,NÃO AO AZEREDO (PSDB) E MACIEL (DEM)

  3. Comentou em 04/09/2009 Miriam Lopes

    Muito mas muito mais desespero do que despreparo, eles já estão percebendo que daqui prá frente as coisas nunca mais serão como foram.

  4. Comentou em 04/09/2009 Moacyr Pinto Costa Junior

    Excelente a colocação do autor.
    Parabéns.

    MOACYR PINTO COSTA JUNIOR
    Advogado e Professor Universitário
    http://mpcjadv.blogspot.com

  5. Comentou em 04/09/2009 Fábio de Oliveira Ribeiro

    Se estivesse vivo o Armando Falcão (aquele que sempre dizia ‘não
    tenho nada a declarar’ e que criou a lei da ‘foto livre’ para
    propaganda eleitoral na TV P&B) ficaria bastante satisfeito. Afinal, ele
    servia uma ditadura para calar a boca dos candidatos da oposição
    estes nossos Deputados e Senadores da situação e oposição se
    servem da democracia para calar a boca da sociedade inteira. O
    lugar dos nossos legisladores tacanhos, reacionários e incultos não é
    no Congresso Nacional. É numa caverna lá no Sítio da Pedra Furada.
    A única comunicação que eles entendem é a do tacape e das pinturas
    rupestres. Resumindo: uns bostas.

  6. Comentou em 04/09/2009 Edmilson Fidelis

    A lógica(?) deles é a seguinte:
    1) Tá escrito é jornal, 2) Tem som, é rádio, 3) Tem imagem em
    movimento, é TV, 4) Tem título de eleitor e vota, é um idiota.

    E eles contam e muito com a quarta premissa.

    Eu, ao contrário, não os considero (Azeredo e Maciel em especial)
    depreparados.
    Só enxergo más intenções e uso indevido do poder.

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