Domingo, 17 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

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Irresponsabilidade informativa, todos nós somos culpados

Por Carlos Castilho em 16/11/2007 | comentários

Se existe um problema que desafia a nossa capacidade de pensar sobre o dia-a-dia, este problema é a forma como lidamos com a informação. Estamos acostumados a usar a informação como se ela fosse um bem privado pessoal e agora descobrimos que ela passa a ser cada vez mais uma questão coletiva.


 


Basta abrir os jornais ou assistir aos telejornais para testemunhas como os governantes, políticos, empresários, líderes comunitários, protagonistas de eventos policiais e esportistas usam informações em beneficio próprio.


 


Não faz muito tempo, um ministro de Estado aconselhou os brasileiros a não converter mais carros para o uso de GNV. A recomendação do ministro Nelson Hubner, a exemplo da maioria das declarações de políticos brasileiros, foi feita a partir da idéia de que a informação é um bem usável de acordo com os interesses de quem a detém.


 


O ministro, como quase todos os políticos que exercem algum poder no governo, tanto faz federal, estadual, municipal e até distrital, tem acesso privilegiado a informações e sua advertência sobre a conversão de veículos particulares para o uso de gás embutia um recado decifrável apenas por quem está diretamente envolvido no problema.


 


Para o dono de um carro movido a GNV, a frase do ministro soou como uma ameaça, porque induz à idéia de que vai faltar gás, justo no momento em que o mesmo governo do senhor Hubner anuncia a descoberta de um megalençol petrolífero no litoral sul do Brasil. Foi, portanto, uma declaração que ignorou o interesse coletivo.


 


O problema não está apenas nos corredores e gabinetes do poder. Está também na fila do ônibus, no trânsito ou na lista de espera no INSS. As pessoas comuns também usam, freqüentemente, a informação em proveito pessoal e não se preocupam com as conseqüências de uma orientação errada ou um dado não checado.


 


Todos nós, poderosos ou não, dependemos essencialmente da informação e o fato de esta passar a ter tanto significado no nosso quotidiano mostra que ela precisa ser vista a partir de uma ótica coletiva. O ministro não pode gerar alarmismo sobre o GNV porque esta informação vai provocar prejuízos econômicos muito mais importantes do que os objetivos privados do político Nelson Hubner.


 


Ser vítima de informações erradas tornou-se um fenômeno tão freqüente que a maioria de nós já desenvolveu um comportamento cínico que nos leva a ficar de pé atrás como quase tudo que é publicado ou anunciado.  Um cinismo que além de não nos proteger de novas frustrações também bloqueia a característica mais inovadora do processo informativo, que é a criação de novos conhecimentos a partir das informações, dados e fatos recebidos por meio da comunicação.


 


A imprensa tem um papel muito especial na área da informação porque esta é a sua matéria-prima. Por isso, ela é ao mesmo tempo causa e vítima neste processo. Causa, porque subscreve a irresponsabilidade informativa ao reproduzir declarações de políticos, governantes, empresários, personalidades e cidadãos comuns sem a necessária contextualização. E vítima, porque o leitor acaba intuindo a existência de interesses ocultos e desconfia da informação — o que, na prática, significa desvalorizar o produto principal de um jornal ou telejornal.


 


Por isso a imprensa deveria prestar mais atenção nas bolsas de valores, onde a informação é tratada com mil e um cuidados, porque ali ela vale milhões de reais. Os investidores sentem no bolso as conseqüências de um boato ou notícia descontextualizada e criaram um sofisticado mecanismo de proteção dos negócios no pregão contra o mau uso da informação.

Todos os comentários

  1. Comentou em 24/11/2007 NILTON RAMOS

    Muito interessante o artigo. Por outro lado, sou daqueles adeptos ao princípio da vigilância epistêmica (famigerado desconfiômetro). Com tamanha avalanche de publicações diárias e sobretudo pela cautela que todos nós deveremos (deveríamos) ter, é prudente que não saiamos acreditando em tudo que vemos ou ouvimos. Não podemos admitir que nossos comportamentos sejam ditados por uma minoria que tem acesso ou controle da mídia, sobretudo dos grandes conglomerados de comunicação.

  2. Comentou em 19/11/2007 Edson Gonçalves

    É por essas e outras que o papel do O. I. é tão importante hoje. Tristemente não há a menor condição de se trabalhar a informação de massa hoje em dia com isenção. Olhe para onde o dedo aponta mas sobretude olhe de quem é o dedo que aponta.

  3. Comentou em 18/11/2007 afonso zurita

    Nunca antes vi tanta responsabilidade e iresponsabilidade como hoje nos meios de imprensa, quando é de interese de grupos aos quais grande parte da imprensa se asocia, santifica ou demoniza quiem é de seu interesse, uma prova disso e a popularidade incentivada do Roberto Jeferson, politico corrupto confesso,porem como é útil a certos intereses ele nao é combatido pela imprensa, livre e solto para falar besteiras, como as mas recentes, aparecendo na TV, como um paradigma da moral, em propaganda politica do seu partido , insinuando que o Brasil devia seguir o exemplo nefasto dos EEUU, invadindo a Bolivia. Caso nao fosse útil a intereses excussos, a nossa imprensa ja o teria destruido, arruinando a imagem deste sujeito de tal forma que ele teria vergonha ate de sair de casa.

  4. Comentou em 18/11/2007 José Paulo Guedes

    Sugiro ao jornalista e leitores uma boa lida aos contratos de fornecimento de gás assinado entre a Petrobrás e empresas distribuidoras.
    Têm dois componentes: fornecimento firme e o de risco.
    O de risco compreende os volumes não utilizáveis pelas permelétricas, ou seja caso haja necessidade de utilizá-lo o fornecimento pode ser suspenso imediatamente, por isso é mais barato.
    O q se suspendeu, e foi politicamente explorado pela mídia açodada, foi o de risco.
    Os contratos firmes em momento algum deixaram de ser cumpridos.
    Esquecem, como sempre, as viúvas de FHC q quem colocou o país na aventura boliviana foi seu ilustre conjuge.
    Mas dos males o menor:parece q Morales e companheiros perceberam q não é com rompantes nacionalistas q conseguirão atrair investimentos confiáveis q resgate a Bolívia de sua cronica miserabilidade.

  5. Comentou em 18/11/2007 ailton amaral

    o maior problema é que boa parte da midia age de forma inescrupulosa, so pensando nos milhoes da bolsa e nos milhoes que os anunciantes injetam, sem contar os meios que sao partidarios ou seu editorial segue determinados principios que levam a apoiar politicos e partidos.
    se a midia fosse pelo menos um pouco mais responsavel e isenta, a maioria de nos nao deixaria de apoiar os meios de comunicacao, nao perderiamos totalmente a confianca, como ja perdemos, pelo menos quem le e se dispoe a pensar, teriamos uma forca maior como sociedade se a midia fizesse o seu papel.
    ao contrario, fazem jogos, manipulam informacoes, denigrem acoes e deturpam noticias e a realidade, o que esperar de meios como os nossos?
    a utilizacao de ma fe da midia por politicos, empresarios e grupos é so o reflexo de toda a falta de competencia da midia, nao podendo sequer reagir a situacoes criadas pelos acusados, normalmente a midia tenta ser uma especie de poder judiciario, pois estao sempre de rabo preso com algo ou alguem.
    um exemplo claro é a constante discussao feita aqui, nesse espaco, onde a grande maioria ainda se indigna como descasos politicos e midiaticos, alguns leigos de forma mais isenta que os profissionais da midia, dao suas opinioes sem ir alem da analise dentro de sua capacidade e conhecimento do fato, jornalistas tendem a serem sabios.

  6. Comentou em 17/11/2007 ibsen marques

    (Espero ter realizado as correções de colocação e entendimento do comentário anterior), O artigo é preciso, exceto pela conclusão. A manipulação da informação seja de forma incorreta seja privilegiada, nas bolsas de valores, resulta em punição para quem a pratica ou dela se beneficia. A questão financeira importa, mas o fator decisivo para que se trate com cuidado a informação é a punição. Se os jornalistas fossem tratados da mesma maneira teriam mais cuidado com o que informam e como informam. E olhe que aqui no mundo real não tratamos só dos milhões de reais, mas da própria vida e, para muitos, ela vale mais que o dinheiro.

  7. Comentou em 17/11/2007 ibsen marques

    O artigo é preciso, exceto pela conclusão. A manipulação de informação seja de forma incorreta seja privilegiada resulta em punição para quem ela pratica ou dela se beneficia. Se isso ocorresse também com a imprensa, essa teria mais cuidado com o que informa e como informa. A questão financeira importa, mas não é o fator decisivo. Aliás, a informação de uma forma geral deveria ser muito mais cuidadosa, porque não versa apenas dos valores financeiros, muitas das vezes da própria vida da ou das pessoas (o que a meu ver vale, ou deveria valer, mais que os milhôes virtuais que circulam nas bolsas de valores)

  8. Comentou em 17/11/2007 Fábio de Oliveira Ribeiro

    Você me fez lembrar de uma história infantil dos irmãos Grimm, mais ou menos assim. O sujeito está chegando numa cidade e se depara com um enforcado. Ele olha para o cadáver e faz uma pergunta retórica: -O que te enforcou? Para surpresa do transeunte o cadáver responde-lhe em alto e bom som: – Foi minha língua. O rapaz assustado corre para a cidade e conta a todos o que ocorreu e muitos o acompanham ao local do prodígio. Ao pé do enforcado ele pergunta novamente o que o havia enforcado e não obtem qualquer resposta. Pergunta novamente e nada. A população se dispersa e ele frustrado fica novamente sozinho ao pé do cadáver, quando resolve entrar na cidade o enforcado responde-lhe a pergunta: -Minha língua me enforcou e a tua vai enforcar-te. O rapaz corre novamente à cidade e informa a todos o que ocorreu. A turba o acompanha novamente até o enforcado, mas novamente o tal permanece num silêncio mortal. Irritados os cidadãos enforcam o viajante vem ao lado do enforcado. Após irem embora o primeiro morto se vira para o companheiro e lhe diz rindo: Não falei que tua língua ia enforcar-te. Acho que os midia deveriam voltar a ler histórias infantis, pois o trato que alguns jornalistas dispensam à informação pode levar-lhes à forca como aquele pobre personagem que acreditou que não poderia ser enganado. A atualidade e sofisticação dos irmãos Grimm é notável, não acha?

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