Quarta-feira, 20 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

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Jornais impressos diante do desafio de mais uma reinvenção

Por Carlos Castilho em 23/08/2007 | comentários

Os mais nostálgicos se recordam, que há pouco mais de 40 anos, todos nós descobríamos pela manhã os fatos mais importantes do dia anterior. Era a época de ouro dos jornais, então nossa única grande fonte de informação, já que o rádio ainda era muito limitado e o telejornal Repórter Esso não passava de um programa radiofônico na TV.


 


Nas últimas quatro décadas o espaço entre nós e a notícia foi encurtando de forma frenética, a ponto de hoje podermos saber de quase tudo, no mínimo 24 horas antes de sair publicado em algum jornal.


 


Esta radical mudança de hábitos tornou-se o tema do momento entre jornalistas quando grandes publicações são vendidas, como foi o caso do The Wall Street Journal; algumas encolheram de tamanho como o The New York Times; outras passam por um doloroso processo de haraquiri corporativo, como o outrora poderoso grupo Tribune, dos Estados Unidos.


 


Cada vez que uma grande mudança sacode o universo da imprensa, alguém faz de novo a velha pergunta: É o fim dos jornais? Até agora a grande preocupação era encontrar uma resposta, mas hoje o fato de alguém levantar a questão soa como um chamado ao combate,  como se o destino da imprensa estivesse para ser decidido num guerra nas bancas de jornais.


 


Foi neste contexto que Jack Shafer, da revista online Slate, um defensor da sobrevivência dos jornais, propôs que eles abandonem a obsessão pela grande manchete de primeira página e passem a se preocupar mais com as páginas internas, ou seja, com os assuntos mais próximos das pessoas.


 


Shafer acha que os jornais, ao priorizar as chamadas hard news, valorizam justamente aquilo que não atrai mais os leitores porque eles se atualizam por outros canais de informação, principalmente pela televisão e pela internet. Tanto que nos Estados Unidos, os programas de entrevistas já não usam mais os jornais como referência, mas sim a internet, em especial os weblogs.


 


Shafer minimiza a idéia que os jornais estão morrendo. “Na verdade eles estão morrendo desde 1920, quando surgiu a radio AM,FM, a televisão, o vídeo cassete, os CD-Roms, os DVDs e agora a internet. Mas em vez de desaparecer, eles acabam se reinventando”.


 


Ele cita um estudo feito por um colega seu, William Powers, intitulado Porque os Jornais São Eternos no qual ele advoga a necessidade dos jornais impressos passarem a ser um guia de leitura e de aprofundamento contextualizado de noticias do que um canal para levar novidades até as pessoas.


 


O paper de Powers afirma que a “fuga de leitores dos jornais não é um sintoma de rejeição do veículo e sim uma forma de protestar contra o fato dele insistir em publicar hard news que a televisão e a internet já exploraram a exaustão”.


 


A partir da leitura do texto de Powers fica fácil perceber que a melhor estratégia para mais uma reinvenção dos jornais impressos passa pelo reconhecimento da superioridade da internet em matéria de rapidez, diversidade e feedback na transmissão de notícias.


 


Em todo este debate também é essencial distinguir o veículo jornal das empresas jornalísticas. O veículo jornal não vai desaparecer porque as pessoas sempre necessitarão ler algo no papel, tanto faz se ele for o atual ou o provável papel eletrônico do futuro. Os jornais enfrentam o desafio de reinventar mais uma vez a sua formatação e sua inserção do processo da comunicação.


 


Já a sobrevivência das empresas depende da agilidade em entender o que está acontecendo, perceber as mudanças no contexto informativo e adaptar-se a elas. As que não conseguirem isto, vão desaparecer como tantas outras. Muitas dissimulam a sua resistência à mudança, tentando identificar-se com o próprio veículo jornal.

Todos os comentários

  1. Comentou em 27/08/2007 Ibsen Marques

    Acho que os jornais escritos precisam realmente reencontrar seu espaço. As notícias são divulgadas como relâmpagos pela Internet, mas como os relâmpagos elas apenas publicam a manchete, o furo sem nenhuma profundidade e como decorrência da velocidade sem muita confiabilidade. Creio que aí deveria se encaixar a mídia escrita, i. e., aprofundar a notícia, fundamentá-la ou negá-la. O problema é que com essa partidarização da mídia não tenho certeza de que possamos confiar no conteúdo. Nesse caso, muitas vezes o que se escreve ‘não se escreve’.

  2. Comentou em 25/08/2007 Figueroa Bastos

    quem está acabando com os jornais são os diretores, em sua tamanha falta de sabedoria, que só pensam nos leitores da Capital, Aqui na Bahia por exemplo, o A TARDE em um domingo, colocou a manchete BAXVi duelam na Fonte Nova, agora qual os estimulo do leitor comprar um jornal, que não tem nada haver com ele, neste dia tinha tanto noticia interessante, mas deram destaque uma notícia insigmificante para todo o Interior da Bahia.
    Quanta falta de sabedoria!

  3. Comentou em 24/08/2007 Ferreira ferreira

    Em tempo: Estamos esquecendo da mola mestra que move o jornalismo: O ‘Furo’! Ja pensou, apesar da desigualdade patente entre os dois meios de informacao, um jornalista conseguir publicar uma noticia que DEPOIS sairia na Internet? E a gloria nao e? Pois e ,so isto justifica a ‘guerra’e, a busca pela maxima competencia e acuramento do tino jornalistico!

  4. Comentou em 24/08/2007 Jorge Cortás Sader Filho

    Uma vez mais é levantada a tradicional pergunta: com a presença maciça das televisões noticiando fatos muitas vezes que estão acontecendo, o que vai acontecer com os jornais, que só vão apresentar a notícia no dia seguinte?
    Tudo, parece, depende do fato que está sendo narrado e mostrado na televisão. Se é alguma coisa corriqueira, de valor transitório e apenas informativo, o espectador vê e não se preocupa em procurar pormenores, que a televisão não fala nem mostra, por falta de espaço.
    Um exemplo vivo disso é o julgamento que está sendo feito no Supremo Tribunal Federal dos implicados no mensalão. Todos os jornais da TV noticiam fartamente o que está acontecendo, mas se o interessado quer mesmo saber do que está se passando no plenário do STF, não há como ler a notícia num jornal confiável. Ficará sabendo dos fatos com segurança, além dos comentários que sempre acompanham estas notícias, feitos por jornalistas especializados.
    Quando a imprensa surgiu, muitos afirmaram que estava decretado o fim do livro.
    Observação precipitada que se mostrou inverídica.

  5. Comentou em 24/08/2007 Ferreira ferreira

    Sou da mesma opiniao, mas devo dizer que se os meios de comunicacao(jornais) se mostrarem isentos, eles continuarao com seu espaco, e ate ganharao, porque o mal que assola a midia e a subserviencia da naticia; ela e dependente de quem a paga, via publicidade. Como o Governo e o maior e constante provedor de numerario para a midia, ela se tornou refem. O leitor sabe muito bem quando um jornal e timido no seu noticiario, induzindo o a este raciocinio. A ‘Ultima Hora’ a ‘Tribuna de Imprensa’ tinham linhas divergentes, mas nunca subservientes nas suas publicacoes diarias, o leitor tinha conviccao disto. O que falta a midia de hoje, e trazer de volta ao leitor, a conviccao de que esta lendo uma materia isenta. Hoje o que vemos e uma postura ditatorial do governo, que infiltra e denuncia, negando aos poucos, tambem, ao leitor, o direito a uma informacao descontaminada.

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