Quinta-feira, 23 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

CÓDIGO ABERTO > Código Aberto

Jornais ingleses e brasileiros relaxam verificação de fatos movidos pela preocupação em emocionar o leitor.

Por Carlos Castilho em 14/09/2007 | comentários

As reviravoltas registradas no caso da menina inglesa desaparecida em Portugal e no da mãe grávida baleada no Paraná mostram que a imprensa também pode acabar tendo que pagar parte do preço de tentativas fracassadas de manipular a opinião dos leitores, por parte de suspeitos delitos.


 


Ambos os casos mostram como é possível criar versões que acabam sendo assumidas pela imprensa, sem um mínimo de verificação e checagem, porque os jornais estão mais preocupados em montar histórias capazes de emocionar os leitores para aumentar tiragens.


 


O caso de Madeleine, desaparecida na Praia da Luz, sul de Portugal em maio, vai custar caro à imprensa britânica que embarcou de corpo e alma na versão dos pais da menina de que ela poderia ter sido seqüestrada e morta.


 


Os tablóides sensacionalistas londrinos faturaram alto explorando a imagem dos pais, jovens e bonitos, vivendo um suposto drama familiar, explorado em mínimos detalhes. Até o Papa Bento XVI chegou a fazer apelos pela vida de Madeleine, de quatro anos.


 


Agora é quase certo que a família sabia que a menina não fora seqüestrada, nem muito menos assassinada e que provavelmente morreu acidentalmente num episódio ainda não explicado. Aparentemente os pais estariam tentando ocultar um descuido fatal ou um descontrole emocional da mãe.


 


A policia portuguesa vinha levantando esta hipótese há semanas, mas não foi levada a sério pela imprensa britânica que não ocultou um certo ar de desprezo pelos detetives e repórteres lusitanos.


 


No caso paranaense, também esteve em jogo uma tentativa de manipular a opinião publica, quando Patrícia Cabral, grávida de quatro meses, levou um tiro na barriga e se apresentou como vítima num assalto a uma loja de conveniências, em Curitiba.


 


O disparo não atingiu o feto e o parto normal de Patrícia, em setembro, mereceu inclusive cobertura especial nos telejornais da Globo. Agora crescem as suspeitas de que ela foi cúmplice e não vítima no assalto.


 


A imprensa embarcou nas histórias montadas por Patrícia e pelos pais de Madeleine porque a preocupação em emocionar leitores foi mais forte do que o dever de verificar os fatos. As incongruências e contradições foram minimizadas em favor do apelo comercial.


 


A manipulação de fatos e versões por suspeitos e acusados é um fato cada vez mais comum e mais sofisticado, já que muitos envolvidos usam técnicas e profissionais especializados na produção de imagens simpáticas ao público. Este não é obviamente o caso de assaltantes de postos de gasolina, mas é rotina nos delitos do colarinho branco e nos mensalões da vida.


 


Se a imprensa se deixa levar por casos mais simples como os da menina inglesa e da grávida paranaense sem duvidar das versões apresentadas, até mesmo pela polícia, o que dirá de situações mais complexas onde poder e dinheiro estão envolvidos. 


 

Todos os comentários

  1. Comentou em 01/10/2007 José Orair Silva

    Impressionante o poder da mídia de pautar até nossas emoções. Ela nos diz quando devemos chorar, quando devemos rir, etc. Acompanhamos passo a passo a tragédia da menininha inglesa e dos seus papais, ora heróis ora bandidos, e as voltas e reviravoltas do caso. Talvez seja porque alcançamos um patamar social onde todas as menininhas brasileiras se encontram muito bem cuidadas e assim, nessa monotonia de normalidade, nossas emoções transbordantes e ociosas não encontram um canal adequado para manifestação pelo que as exportamos para o velho continente onde, aparentemente, os papais ainda não sabem cuidar das suas menininhas…

  2. Comentou em 22/09/2007 ademir peruzzolo

    Dentro do raciocínio: quando houve o problema cambial que levou à desvalorização do real (FHC) o Marka e o Fontecindam foram pro vinagre e deram um prejuízo de cerca de U$ 100 milhões. As operações que geraram essa perda eram de 1,6 bi. Para a imprensa o prejuízo se transformou em 1,6 bi e estacionou sem chance de ser mudado. Ainda hj o nosso ministro da justiça está indo em busca do Cacciola só para aparecer e mantendo a informação que ele teria dado um prejuízo de U$ 1,5 bi. E quem teria ganho essa quantiazinha?
    Onde está? ou o cacciola ganhou e vive encerrado na Itália por vontade própria?

  3. Comentou em 17/09/2007 Marco Antônio da Costa

    Caro Bandarra, estava com saudades de suas inteligentes intervenções. Parabéns – Abraços deste cidadão que sofre mentalmente no cotidiano das injustiças sociais.

  4. Comentou em 17/09/2007 Marco da Costa

    O mais cruel dos crimes que o homem comete contra tudo e todos esta relacionado com o desamparo total que o Estado tem com às vidas de seus cidadãos. Falta de emprego, salário condizente com às necessidades básicas de uma família de quatro pessoas ou mais, ou até menos, falta de amparo assistêncial a saúde do trabalhador e sua família, educação e cultura. Porque será que essa imprensa burguesa não vem a público e denuncia essas mazelas patrocinadas pelo Estado. Ou será que vivemos no jogo filosófico de que quanto mais pessoas pobres existirem, melhor será para aquela meia dúzia de malandros que vivem do bom e do melhor, isto graças a miséria alheia. Até quando vamos tolerar esses desgovernos que vem e vão e nada fazem para reverter tal quadro de violência e miséria humana.

  5. Comentou em 17/09/2007 Paulo Bandaarra

    É que os ovos da galinha do do vizinho são mais amarelinhos, estimado Marco Antônio da Costa. É como o brasileiro do Metro de Londres, o homem errado! Quantos homens errados deve existir só em SP e RJ que nunca ninguém nem investiga? Mas no exterior dá mais charme!

  6. Comentou em 17/09/2007 Marco Antônio da Costa

    Senhor Castilho, aqui nesta terrinha a todo o instante ocorre uma agressão, seja ela física, moral, sexual, alimentar entro outras formas de se assassinar uma criança, e a mídia não denuncia tamanha monstruosidade que os seres ‘humanos’ adultos fazem com às nossas crianças. Esse assunto deixa para às autoridades Européias resolveram, pois trata-se de países que cuidam melhor de suas crianças, com raras exceções, igual a essa. Ou esse tema serve apenas para os comentaristas emitirem suas opiniões com a emoção que o crime possa transparecer que seja. Infelizmente, o brasileiro costuma ser sensível com o que ocorre lá naquelas bandas, se esquecendo que vivemos num país de injustiças bem maiores e horrorosas, principalmente com os seres indefesos.

  7. Comentou em 17/09/2007 Renata Rodrigues

    ‘tentativas fracassadas de manipular a opinião dos leitores…’
    ‘a imprensa se deixa levar…’

    Não sabia que os jornalistas agora tem que se antecipar às investigações policiais e prover os fatos novos. Que imprensa irresponsável, não sabia de antemão que a grávida era, na verdade, comparsa dos assaltantes! Irresponsabilidade reproduzir a abordagem inicial das investigações policiais…deviam ter ido a fundo, desempenhar o papel que é atribuído à polícia judiciária brasileira, antecipar-se ao relatório final daquele inquérito policial. Afinal, é o ‘papel da imprensa’.
    Se o que interessa é ‘aumentar tiragens’, afirmo que pais que matam uma criança e depois se esforçam em criar um álibi é uma história muito mais chocante/rentável do que o mero acompanhamento da saga de um pai e uma mãe em busca de sua filha desaparecida em terras lusitanas. O acompanhamento emocional/brega do dia-a-dia dos McCann é muito menos rentável do que o despontar da hipótese de que um casal seja capaz de matar a sua filha, e dissimular tudo isso, por meses. A imprensa não tem muito faro para maximização de lucros, pelo jeito.
    Fala-se como fossem dois casos fáceis, já resolvidos, em que ‘qualquer pessoa consciente e não-manipulável’ já soubesse o desfecho. Leve paranóia.

  8. Comentou em 17/09/2007 Paulo Bandarra

    Por que a versão dos pais assassinos faz mais sentido ou está mais perto da realidade do que o sequestro? São duas versões sem provas até agora! Só um lembrete, a imprensa criticada pelo Observador Carlos Castilho é de PORTUGAL e INGLATERRA! Eu, humildemente, sinto falta de evidências fornecidas pelas reportagens especultativas da imprensa portuguesa! A comparação com a escola de base existiu antes ou agora? Já tivemos outros casos internacionais que as mães acudadas e condenadas acabaram provadas ser inocentes. Vítimas três vezes, da tragédia, da mídia e da justiça!

  9. Comentou em 17/09/2007 Arlindo Papal

    Corrigindo não é arquiteto, é arqueologo. Provavelmente, um ato falho, pois qualquer arqueologo, sabe que a lingua portuguesa esta cheia de palavras com origem em outras linguas: italiana, francesa, hebraico e até inglesa.

  10. Comentou em 17/09/2007 Arlindo Papal

    Checagem ou verificação, a verdade é que a imprensa (mundial) perdeu a lógica da Verdade e assumiu a lógica da versão estética. Versão que interesse ao patrão, à manutenção dos seus insiginificantes empregos. Isto não é uma defesa nem um ataque é uma constatação, basta fazer a checagem ou como prepfere o arquiteto, verificar os fatos deste o episódio da escola de Base em São Paulo, só para começar.

  11. Comentou em 17/09/2007 Dante Caleffi

    Imprensa investiga e publica o que interessa aos ali- kamel- da- vida.
    Jornalismo investigativo, morreu com Joel Silveira. Poucos, sabem sequer organizar idéias. (Por quê,da existência das faculdades de jornalismo?)
    Como esperar disposição do editor e talento do reportér em matérias com
    essa complexidade?’Checar’ ou não ‘checar’,eis a questão…

  12. Comentou em 17/09/2007 Roberto Ribeiro

    ‘Checagem’, pelo amor de Deus! Por tudo que é mais sagrado! Por que esse anglicismo cacofônico! Escreva logo em inglês, pelo amor da alma de Camões!
    Em língua portuguesa se diz: Verificação, controle, exame, apuração, averiguação… Não seria tão simples: Averiguação dos fatos! Falha na averiguação dos fatos! Será que ninguém sabe o que é apuração dos fatos? Checagem é decalque do inglês checking, através do hediondo francês ‘checage’… Checagem é inexpressivo, inútil e faz parecer que o autor simplesmente traduziu (mal) uma texto estrangeiro.
    Manual de redação, já!

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