Sexta-feira, 14 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1017
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Jornais sem fins lucrativos

Por Carlos Castilho em 29/01/2009 | comentários

Acreditem ou não, está idéia acaba de ser lançada numa coluna de opinião[1] da edição do dia 27/1 do The New York Times. David Swensen e Michael Schmidt, dois especialistas financeiros da Universidade de Yale surpreenderam o mundo da mídia nos Estados Unidos ao sugerir a transformação dos jornais em fundações — para evitar que a crise atual na imprensa acabe transformando em letra morta uma famosa frase de Thomas Jefferson.


 


O ex-presidente norte-americano (1801-1809) é o autor da máxima: “Se tivesse que decidir entre um governo sem jornais, ou jornais sem governo, eu ficaria com a última hipótese”.  A frase, criada em janeiro de 1787, sempre foi usada como uma espécie de apanágio do papel da imprensa na democracia, mas 222 anos depois ela corre o risco de perder o sentido, em conseqüência da crise que afeta a maioria dos jornais nos Estados Unidos.


 


Os dois economistas acreditam que Jefferson está certo e por isto pensam que a sociedade deve promover uma operação de salvamento dos jornais para recuperar sua função comunitária. Segundo os autores do artigo ‘News You Can Endow‘ (Notícias que você pode doar), as dificuldades atuais dos jornais resultam da sua vinculação a interesses financeiros que acabaram por desvirtuar a função da imprensa.


 


Para isto sugerem que os jornais sejam transformados em entidades não-lucrativas como fundações ou organizações de interesse social, cujo financiamento seria feito por contribuições voluntárias. Eles afirmam que a transformação dos jornais em organizações não-lucrativas pode não resolver todos os problemas da crise atual, mas pelo menos livra a imprensa do sufoco financeiro imposto por acionistas interessados em dividendos.


 


A fórmula não-lucrativa também tem outros problemas, entre os quais é possível citar os seguintes:


a)     As fundações, mesmo sem gerar lucro, têm interesses próprios e isso nem sempre atende aos consumidores de informação;


b)     A transformação em fundações não elimina a interferência de partidos e lobbies eleitorais;


c)     As experiências realizadas até agora com jornais não-lucrativos não ofereceram resultados tão expressivos para apontar a idéia como uma tábua de salvação para a imprensa.


 


A sugestão contida no artigo do The New York Times pode não passar de um balão de ensaio, mas de qualquer forma está inserida na linha de pesquisas que um grupo de especialistas franceses está desenvolvendo na busca de novas fórmulas de sustentabilidade econômica e financeira para jornais impressos. Os trabalhos já estão disponíveis na internet no endereço da revista Sur le Journalisme.


 


O artigo ‘L’économie de la presse : vers un nouveau modèle d’affaires‘ afirma que a informação grátis é uma tendência irreversível e sugere que os jornais só conseguirão manter uma rentabilidade mínima se agregarem valor à informação, por meio de ferramentas como a segmentação. Afirmam que o modelo de negócios da plataforma papel não serve para a plataforma digital, onde a informação bruta não tem mais valor pela sua onipresença na rede, e garantem que o modelo gratuito tende a se tornar majoritário por esta razão.


 


A mesma preocupação com os dilemas financeiros da imprensa está no centro de um trabalho sobre como a mudança de plataformas de distribuição de notícias afeta os interesses econômicos dos jornalistas. Trata-se de um artigo publicado pelos professores Suzan Fengler (Universidade de Dortmund, Alemanha) e Stephan Russ-Mohl (Universidade da Suíça Italiana) na revista acadêmica Journalism [2] .


 


Os autores afirmam que na medida em que os jornalistas passam a ser cada vez mais mediadores no processo da comunicação online em vez de funcionários de uma empresa, a identificação dos interesses econômicos do profissional torna-se um elemento-chave na consolidação de novos modelos de negócios na área jornalística — porque ela estará, mais do que nunca, baseada na credibilidade. 


 


Alguns jornalistas — e especialmente jornalistas com blogs — já usam o recurso do disclaimer, uma fórmula legal adotada na Europa e Estados Unidos por meio da qual o profissional identifica suas vinculações financeiras e empregatícias sempre que elas interfiram, direta ou indiretamente, na sua reportagem ou artigo.


 

O interesse pela discussão em torno dos dilemas financeiros da imprensa mundial está aumentando, como provam os trabalhos que mencionei, embora os pesquisadores ainda estejam atirando em muitas direções diferentes.  Mas o importante é que o tema já está na agenda, o que oferece ao leitor a oportunidade de também participar da discussão.  




[1] Exige cadastramento grátis para acessar. O texto fica disponível sete dias e depois vai para o arquivo pago.


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