Sábado, 17 de Fevereiro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº974

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Jornais trocam noticiário internacional pelo local

Por Carlos Castilho em 22/07/2008 | comentários

Nada menos que 64% dos jornais norte-americanos reduziram em mais de 50% o espaço dedicado ao noticiário internacional ao longo dos últimos três anos. No mesmo período o espaço dedicado às notícias nacionais encolheu 57%, segundo dados colhidos numa amostra de 259 jornais de todos os estados norte-americanos em pesquisa organizada pelo instituto Pew Research Center.


 


O fenômeno da redução do espaço dedicado às notícias internacionais e nacionais é surpreendente porque os Estados Unidos estão envolvidos em dois conflitos externos (Iraque e Afeganistão), a economia do país enfrenta uma forte concorrência de produtos estrangeiros, sem falar no fato de que o mercado mundial do petróleo está em ebulição, afetando diretamente o bolso dos consumidores norte-americanos.


 


Mais surpreendente ainda é a redução do espaço do noticiário nacional, num período de campanha eleitoral para a presidência dos Estados Unidos. O noticiário econômico também caiu e as únicas áreas de cobertura jornalística que ganharam mais espaço foram o noticiário estadual e municipal (aumento de 50%) e a cobertura comunitária ou hiper-local (crescimento de 62%).


 


A comparação com o Brasil pode ser feita apenas na cobertura internacional que aqui também foi drasticamente reduzida, até mesmo na televisão, onde a TV Globo é a única emissora a manter um grupo de correspondentes no exterior, se bem que usando muitos profissionais pagos por matéria enviada.


 


A grande diferença está no noticiário nacional que aqui registrou um consideravel crescimento graças à ajuda da Polícia Federal e dos escândalos envolvendo políticos, empresários, narcotraficantes e policiais. O noticiário local também cresceu em cidades como Rio e São Paulo por conta do agravamento de problemas crônicos como delinqüência, narcotráfico, insegurança da população e trânsito urbano.


 


Outra diferença marcante é o fato de que nos Estados Unidos há uma preocupação permanente em medir e quantificar as transformações em curso na imprensa, enquanto que aqui no Brasil as corporações da mídia mantém a opção preferencial pela falta de transparência. 


 


A reorganização da agenda de cobertura da imprensa, aqui e lá fora, é um sintoma de mudanças no comportamento do público. A queda do noticiário internacional pode ser encarada com uma espécie de ressaca pelo fim da Guerra Fria. Já os noticiários nacional e econômico sofrem as conseqüências do crescente desencanto dos leitores com a política e com o lobby dos interesses corporativos.


 


A ênfase dada ao noticiário local revela um esforço da imprensa em recuperar a confiança do leitor por meio da oferta de informações sobre sua cidade, seu bairro e sua rua. O problema é que este tipo de cobertura jornalística exige um grande número de repórteres dispersos em áreas bastante extensas, o que entra em conflito com as políticas de redução de gastos e de pessoal, adotadas por todos os veículos de comunicação, em intensidade variável.


 


A alternativa, que vários jornais já estão adotando, é o uso de blogueiros e dos chamados jornalistas cidadãos, pessoas sem formação técnica especializada e que enviam notícias, fotos e vídeos para jornais, revistas, emissoras de rádio e Tv, bem como páginas jornalísticas na Web. Nos Estados Unidos, alguns jornais regionais já tem 80% de suas páginas ocupadas por blogs, selecionados pelos editores e cujos textos são publicados sem edição.


 


Na verdade o que está acontecendo na imprensa é a substituição do gatekeeper, ou seja, o porteiro que seleciona o que o público vai ler, pelo sistema do gatewatching, onde os editores monitoram o que está sendo publicado, principalmente em blogs, e escolhem, entre eles,o que vai ser publicado. No primeiro caso, a imprensa tinha o controle da agenda, enquanto no gatewatching, ela já não tem mais tanto poder de interferir nos temas que as pessoas vão discutir.

Todos os comentários

  1. Comentou em 24/07/2008 Roberto Ribeiro

    Não acho que o fenômeno seja restrito ao jornalismo, mas deveria envolver uma análise sociológica mais profunda. Os EUA são reconhecidamente etnocêntricos e autocentrados. Lá a queda da cobertura nacional e econômica parece provir de um ‘cansaço cívico’ que afeta historicamente os impérios em seu auge. Esse cansaço cívico é notado no recrutamento militar, na falta de preocupação com o coletivo e com a participação política, cada um só se preocupa com seu ‘bem estar’ o que gera a concentração do poder e o conseqüente esfacelamento do império.

    Já no caso brasileiro, enquanto no Rio e São Paulo o prefeito e os vereadores são seres mais ou menos distantes, não participando da vida ‘comum’, sendo apenas entidades mais ou menos abstratas, como o são os deputados federais e senadores, em cidades menores, e em alguns estados pequenos, notícias locais são encaradas como elogios ou críticas pessoais ou partidárias. Assim, o nível local é perigoso. Denunciar crimes em São Paulo ou no Rio pode ser feito com imparcialidade e distanciamento, mas não no interior de Alagoas.
    Assim, é natural que o nível nacional, mais confortável para as empresas jornalística, seja preferido.

  2. Comentou em 23/07/2008 Antonio Brasil

    Parabéns, Castilho. Excelente artigo. Dados pertinentes e assustadores! Estou recomendando a leitura na lista dos jornalistas, estudantes e professores que se interessam pelo Jornalismo Internacional.
    jornalismointernacional@yahoogroups.com
    Abraços saudosos
    Brasil

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