Segunda-feira, 11 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº969

CÓDIGO ABERTO > Desativado

Jornal corrige na web sua principal notícia do dia

Por Luiz Weis em 19/01/2007 | comentários

Os jornais não usam como deveriam a ferramenta que lhes permitiria não deixar para amanhã o que podem fazer hoje: corrigir no mesmo dia, nas edições online, os erros publicados na versão impressa. (Sem deixar de dar as erratas o quanto antes nas edições em papel.)

Um belo exemplo nesse sentido acaba de vir do Guardian, de Londres. O diário deu hoje em manchete: ‘Alta nos níveis de carbono leva a temer disparada do aquecimento’.

A matéria começa assim: ‘O dióxido de carbono está se acumulando na atmosfera muito mais depressa do que os cientistas esperavam, levantando receios de que a humanidade poderá ter menos tempo do que se pensava para lidar com a mudança do clima.’

No sétimo dos doze parágrafos da reportagem, os dados do problema:

‘A concentração de dióxido de carbono na atmosfera é medida em partes por milhão (ppm). De 1970 a 2000 essa concentração aumentou cerca de 1,5 ppm a cada ano, à medida que as atividades humanos lançavam mais desse gás na atmosfera. Mas, de acordo com os números mais recentes, o ano passado assistiu a uma alta de 2,6 ppm. E 2006 não é um caso único. Uma série de saltos similares em anos recentes significa que o nível de dióxido de carbono subiu em média 2,2 ppm por ano desde 2001.’

Foi portanto o que ficaram sabendo os leitores que recebem o jornal em domicílio ou o compram em banca.

Mas a tinta da edição ainda estava fresca, por assim dizer, quando a mesma história apareceu na internet, precedida da seguinte advertência, em negrito:

‘Desde a publicação da matéria, a Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos [Noaa, na sigla em inglês] nos informou de um erro nos seus dados publicados. O órgão diz que a taxa de crescimento de dióxido de carbono em 2006 foi de 2,05, não 2,64, como originalmente declarado. Eles alteraram as informações no seu website de modo a refletir a mudança. Usando o novo número, a alta média desde 2001 é de 2,1 ppm, não 2,22 ppm. Estamos investigando e atualizaremos nossa matéria de forma apropriada.’

O erro já estava corrigido às 8h56 desta manhã, hora de Londres.

O uso da internet, no caso, é o lado mais importante da questão, mas não o único.

Uma coisa é o rápido restabelecimento da verdade jornalística proporcionado pela tecnologia da comunicação.

Outra coisa é que, para a catástrofe do aquecimento global, cientificamente prevista, a correção não refresca nada. O acerto, para menos, dos números do efeito estufa no ano passado – 2,05 em vez de 2,64 ppm – diminui em um pouco mais de um décimo apenas a alta média nos primeiros anos do novo século das emissões de dióxido de carbono (CO2), o principal causador da mudança climática já em curso: 2,1 ppm em vez de 2,2.

A manchete do Guardian se sustenta: há todos os motivos para temer a disparada do aquecimento global.

O efeito estufa não se estabilizou, muito menos diminuiu. Continua aumentando – em ritmo acelerado.

É o que se lerá no próximo dia 1º, quando o Painel Intergovernamental de Mudança Climática, das Nações Unidas, apresentar o seu relatório, em que trabalharam 2.500 especialistas durante cinco anos.

A versão semi-final do documento, divulgada em primeira mão pelo jornal madrilhenho El Pais em 26 de dezembro, afirma que devido à atual concentração dos gases que provocam o efeito estufa – a maior em 650 mil anos – o aquecimento global será inevitável e durará séculos.

‘Ainda que amanhã mesmo se eliminassem as emissões dos gases estufa’, advertiu El Pais, ‘as temperaturas continuariam a subir durante mais de um século, o nível do mar continuaria a subir e o processo de degelo prosseguiria’.

***

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Todos os comentários

  1. Comentou em 21/01/2007 Alfeu Fundão

    O tal crescimento economico de muitos países é bastante festejado por muitos economistas e a tudo que vive e sobrevive ao redor deles (comentaristas economicos, palpiteiros, etc.). Será que eles enxergam essa relação entre as emissões de carbono, que aumentou sens´ivelmente a partir de 2001 – a mesma época do pujante crescimento economica – e este fabuloso crescimento economico?
    É uma equação que nem mesmo os signatários do protocolo de Kyoto conseguem resolver.

  2. Comentou em 19/01/2007 Jose de Souza Castro

    Bom humor é sempre necessário – e sinto que isso é uma raridade entre certos comentaristas aqui – mas, aproveitar essa importante notícia para fazer humorismo com parentes das vítimas do buraco tucano é um pouco exagerado. Tá bom, tou meio emburrado. A culpa é do jornal inglês. Ao corrigir minúcias, para atender a um órgão do governo americano, acabou enfraquecendo um pouco a importância do alerta de sua manchete. Já é tão raro ler-se esse tipo de alerta em manchetes! Se é 2,1 ppm em vez de 2,2 não há motivos para alerta, né mesmo? Bush Júnior pode continuar sabotando o acordo para redução do efeito estufa. Pode até continuar dando uns tirinhos de no Iraque e, quem sabe, soltar uma bomba atômica no Irã, com a juda de Israel. Poluição pouca é bobagem… Só espero que a ilha de Manhattan seja engolfada pelas águas quentes do Atlântico antes de Mucuri, no Sul da Bahia, onde tenho uma casinha de praia.

  3. Comentou em 19/01/2007 Dante Caleffi

    Correção:Divisa em lugar de limite.Aquele divide os estados,este os municípios.

  4. Comentou em 19/01/2007 Lau Mendes

    Meio ambiente. Está aí um assunto que não tem aparecido como plataforma de partidos brasileiros,como observa sempre o jornalista Novaes. E tudo indica que enquanto não houver algum político empunhando esta bandeira e com carisma suficiente para arrastar o eleitorado convicto da real necessidade de ações no campo da prevenção, parece que o Brasil vai demorar a despertar para a gravidade do problemão que não demora teremos transformado o meio ambiente. Oportunamente o OI vincula hoje matéria sobre o MP,que se faça justiça tem atuado fazendo cumprir os ditames da lei. E neste tipo de processo há uma demanda considerável do “ajustamento de conduta” .E o tal tem sido a única ferramenta disponível ao MP na maior parte dos casos. Normalmente esta ferramenta mesmo com multa e compromissos ajustados,funciona quase como perdão. E o meio-ambiente não perdoa. É muito provável que o Sr.Luiz Weis continue repercutindo situações de degradação do meio ambiente.
    Quanto ao engano da publicação corrigida online, quero elogiar a atitude neste caso, e espero o exemplo sirva a mídia brasileira,principalmente quando trate de pessoas e de preferência que sejam ouvidas antes do engano.

  5. Comentou em 19/01/2007 Dante Caleffi

    Quem se daria o trabalho de corrigir minúncias, na nossa imprensa?
    Descaso é cultural.Correções, só ‘sob vara’. Inúmero jornais impressos e eletrônicos em pelo menos duas edições, repetiram o erro que desinformavam:insistiam que a FNS vigiaria as ‘fronteiras’, ao invés dos ‘limites’,o correto. As incorreções que atingem gravemente a honra de pessoas e instituições, raramente gozam de retratação na urgência das pautas. Agora, imagine dados quantitativos,que um restrito numero de pessoas perceberia.Frequentemente nos meios,troca-se bilhões por milhões, e outras cifras que tornam absurdas as informações.Com o a reativação de sensacionalismo,político sobretudo, o que importa é vender. Ainda que
    a custa de uma ‘barriga’.

  6. Comentou em 19/01/2007 Ivan Moraes

    Nossa, nao seria interessante se um jornal dissesse que as vitimas do desabamento fossem receber 300 mil dolares a ser dividido entre eles, e que nao restava recurso algum a essa decisao, e depois corrigisse a informacao eh sua pagina com um ‘Sentimos muito, a noticia foi inventada pelo mordomo’?

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