Quarta-feira, 17 de Outubro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1009
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Jornal denuncia propaganda enganosa

Por Luiz Weis em 31/05/2006 | comentários

Enfim um caso em que o eleitor fica sabendo como se fazem as salsichas, como dizia Bismarck.

Sob o título “Tucanos fazem uso indevido de reportagem na TV”, o jornal Valor Econômico publicou hoje o seguinte texto:

A propaganda eleitoral do PSDB que foi ao ar na noite de anteontem em rede de TV citou indevidamente uma reportagem publicada no Valor no dia 22 de maio de 2006, intitulada ‘Orçamento da Segurança Pública cresceu 70% na gestão Alckmin’.

No programa, uma voz afirma que iria mostrar a verdade sobre a segurança em São Paulo e estampou o título da matéria. Muito embora isso esteja no começo da reportagem, devidamente comprovado pelos dados obtidos pela reportagem no Sistema de Gerenciamento Orçamentário do Estado de São Paulo (Sigeo), o restante – e maior parte – não foi mencionado pelo partido: as prioridades de investimentos entre os anos de 2001 e 2005 -período em que Geraldo Alckmin esteve no comando do governo do Estado.

A reportagem revelou que a política de segurança pública na era Alckmin focou o policiamento repreensivo em detrimento dos policiamentos investigativo e técnico-científico. Isso foi comprovado pelos valores investidos nas polícias responsáveis por cada uma dessas áreas. Na Polícia Militar (prevenção), foram R$ 285,7 milhões; na Civil (investigação), R$ 8,5 milhões; e na Superintendência Técnico-Científica, R$ 1,9 milhão.

A reportagem mostrou ainda que a maior concentração de investimentos em segurança foi em 2002, quando Alckmin foi candidato à reeleição. Naquele ano, os investimentos feitos na PM alcançaram R$ 102 milhões, dos quais R$ 83,5 milhões só para a compra de carros. No mesmo ano, foram investidos na Polícia Civil R$ 1 milhão e, na científica, R$ 89 mil. Esses dados também não foram citados no programa.

O PSDB também não mencionou as conclusões do especialista ouvido pela reportagem, Guaracy Mingardi, diretor científico do Instituto Latino Americano das Nações Unidas para Prevenção do Delito e Tratamento do Delinqüente – organização não-governamental vinculada à ONU. Sobre os dados apresentados, Mingardi afirmou: ‘O resultado disso afeta a qualidade da investigação. (…) Priorizar a PM significa deixar de focar a investigação. E a investigação é central no combate ao crime organizado, que, geralmente, não comete crimes que a PM possa evitar. Por exemplo, o tráfico de drogas. A polícia militar consegue pegar mais pequenos e médios traficantes. Para se chegar aos grandes, é necessário investigar. Mas para isso precisa dar qualidade a essa investigação. E essa qualidade é dada reforçando a polícia civil e, especialmente, a técnica’.”

Fica o dever de casa para os jornalistas. Quando começar o horário eleitoral, jornais, revistas e emissoras devem passar pelo pente fino tudo que os candidatos disserem citando a imprensa como fonte.

Pois, a julgar pelo que o PSDB fez com a reportagem do Valor, uma coisa é o que a mídia traz. Outra é o uso que os marqueteiros e políticos dizem que a mídia trouxe, para vender o seu peixe nem sempre fresco ao incauto eleitor.

Digo mais. Órgãos de imprensa cujas notícias saem distorcidas na campanha devem recorrer à Justiça Eleitoral para que a propaganda enganosa possa ser desmascarada não apenas perante os seus leitores e ouvintes.

É uma questão de interesse público. Como toda e qualquer forma de fraude eleitoral.


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