Sábado, 21 de Outubro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº962

CÓDIGO ABERTO > Desativado

Jornal entrega tucano que pisou no e-tomate

Por Luiz Weis em 10/10/2007 | comentários

Acaba de sair nos Estados Unidos Send: The Essential Guide to Email for Office and Home [Enviar: o guia essencial para uso de e-mail no escritório e em casa], de David Shipley e Will Schwalbe.

Esse ‘manual do usuário, mais do que livro’, como o chamou a resenhista Janet Malcom, do New York Review of Books, procura ensinar o leitor a fugir dos perigos do ‘clique de Pandora’, no bem-sacado título da resenha, aludindo à mitológica caixa de Pandora, com a qual se poderia fazer tudo menos abri-la, porque ela contém todos os males do mundo.

O melhor do livro são os exemplos tragicômicos dos males que um clique impensado fez desabar sobre a vida profissional e/ou doméstica de não poucos e-maileiros distraídos.

Um caso do gênero que os autores não podiam imaginar – e que talvez possam incluir como fato real numa eventual nova edição da obra [Knopf Editora, 247 páginas, US$ 19,95] está na matéria ‘Paulo Renato submete artigo a banco’, na página A8 da Folha de hoje.

Pobre ex-ministro e atual deputado tucano. Ele teve a infelicidade de mandar para o jornal, via e-mail naturalmente, um artigo desancando a intenção do governo Lula de passar o Banco do Estado de Santa Catarina (Besc) para o Banco do Brasil.

Tudo bem, não fosse a enésima prova de que o diabo [e não deus] está nos detalhes. E o detalhe é que Paulo Renato mandou o seu artigo no mesmo e-mail que continha uma mensagem anterior em que ele pergunta ao presidente do Bradesco se o texto ‘está correto’ e se ele ‘concorda, ou tem alguma observação’.

Azar do e-maileiro, ponto para o jornal que expôs a história, quando podia perfeitamente bem manter a caixa de Pandora fechadíssima, fora do alcance do leitor, e avisar educadamente o ex-ministro – de preferência por telefone – que, tendo tido acesso à sua consulta prévia, decidira, em função disso, não publicar o artigo, pondo uma pedra em cima do episódio.

Mas ao transformar a rata de Paulo Renato em reportagem [ver abaixo], prestou ao leitor o serviço de mostrar como, às vezes, são feitas ‘as leis e as salsichas’, na imortal expressão de Bismarck – só que, em vez de leis, leia-se ‘artigos’.

Se a mídia em geral adotasse essa política, pelo menos num aspecto não se precisaria, quem sabe, cobrar dela mais transparência.

Eis a matéria [que tem tudo para ser tratada nos cursos de comunicação, disciplina Ética Jornalística]:

‘O deputado federal Paulo Renato (PSDB-SP) submeteu à apreciação da presidência do banco Bradesco um texto assinado por ele e enviado anteontem à Folha para publicação. No artigo, ainda inédito, o deputado critica a intenção do governo federal de passar o Besc (Banco do Estado de Santa Catarina) para o controle do Banco do Brasil.

O texto foi enviado ao jornal por e-mail. Por engano, o corpo da mensagem trouxe uma correspondência eletrônica anterior, na qual o parlamentar escrevera ao presidente do Bradesco, Márcio Cypriano: ‘Em anexo, vai o artigo revisto. Procurei colocá-lo dentro dos limites do espaço da Folha. Por favor, veja se está correto e se você concorda, ou tem alguma observação. Muito obrigado, Paulo Renato Souza’.

Ouvido ontem pela Folha, o presidente do Bradesco, Márcio Cypriano, afirmou: ‘O deputado Paulo Renato me ligou perguntando se eu poderia ler um artigo que ele tinha escrito sobre bancos. O receio dele era de o artigo ter algum erro, já que tinha muitas questões e termos técnicos. Eu disse que podia ler e ele me mandou o artigo. Eu achei bom o artigo. Muito bem escrito, por sinal. Foi só isso’.

Intitulado ‘Tentáculos da reestatização’, o texto foi enviado dois dias após o presidente Luiz Inácio Lula da Silva ter participado, em Florianópolis (SC), de um evento no qual dirigentes do BB se comprometeram a incorporar o Besc, federalizado na década de 90.

No texto, o ex-ministro da Educação (1995-2002) Paulo Renato reclama da ausência de um processo licitatório para definir os novos donos do Besc. Ele também critica supostas estratégias que estariam sendo empregadas pelo BB para expandir seus negócios no território nacional, o que seria, segundo ele, uma ‘nítida ofensa às regras concorrenciais’.

O deputado Paulo Renato disse ontem à reportagem que não mantém nem manteve contratos com o grupo Bradesco por meio de sua empresa de consultoria, a Paulo Renato Souza Consultores. Afirmou que buscava apenas uma opinião técnica sobre o assunto.

‘Eu tinha encontrado com o Márcio num almoço, comentei com ele que iria fazer esse artigo e pedi ajuda para ele para ver se não estava dizendo uma barbaridade sobre os temas que eu estava tratando. E ele se dispôs a me ajudar’, disse.
Indagado sobre o verbo que utilizou, ao perguntar a Cypriano se ele ‘concordava’ com o texto, o parlamentar afirmou: ‘Se concorda com os argumentos que eu coloquei no artigo’.

O parlamentar disse ter feito o mesmo em relação a um artigo que produziu sobre a companhia siderúrgica Vale do Rio Doce: ‘Eu escrevi um artigo sobre a Vale do Rio Doce comparando com a Petrobras. Eu pedi os dados, obviamente, para o pessoal da Vale. Mandei o artigo [à Vale] para ver se eu tinha interpretado direito os dados que ele tinha mandado. A mesma coisa fiz agora’, afirmou.
‘Em economia, tem que se ter cuidado, pois os conceitos podem não estar precisos’, disse ele, que foi professor titular de economia da Unicamp.’

Todos os comentários

  1. Comentou em 12/10/2007 Vivian Stipp

    A pergunta que não quer calar: SE O SUJEITO NÃO ENTENDE PROFUNDAMENTE DO TEMA, PORQUE SE METE A CRITICAR??? É pau mandado ou não é?!?

  2. Comentou em 12/10/2007 Antonio Lyra Filho

    No momento em que o poder aquisitivo das pessoas aumentou e as vendas vem acompanhado este crescimento o jornal Folha de São Paulo diminuiu as suas vendas nas bancas.
    Será que estão tentado um recuperação, com a publicação deste matéria contra o PSDB?

  3. Comentou em 11/10/2007 Helano Timbó

    Nada disso é novidade, pois o PSDB paulista é ligado umbilicalmente com os grandes milhionários. Só não sabia o tamanho da subserviência.

  4. Comentou em 11/10/2007 Antonio Carlos Silva

    Alô políticos da esquerda(principalmente o PT), Procuradores da República etc.., será que não é o caso de quebra de decoro parlamentar com a imediata cassação do mandato ?, espero que sim, pois não é possível que o povo brasileiro gaste uma fortuna para pagar um deputado e assessores para fazerem lobby para um banco privado, e este ato já está devidamente documentado .

  5. Comentou em 11/10/2007 nuno porto de santos

    O que me deixa embasbacado, é pensar que uma pessoa dessas foi ‘ministro da educação’!!! Não é átoa que Gabriel Chalita foi ‘secretário da educação’ em São Paulo e ‘pariu’ Paulo Alexandre Barbosa, no mais acintoso abuso do poder econômico para sua eleição, e a justiça eleitoral… ‘tô nem ai…’ Pobre do meu estado nas mãos dessa corja…

  6. Comentou em 11/10/2007 joão rafael

    Já nos parecia claro que a turma do PFL (atual DEM(?)) recebia ordens de grandes banqueiros e grandes empresários. Da turma do PSDB nem tanto, principalmente do Paulo Renatto, que nos parecia ter uma certa independência. Mas que papelão, hem? Mostrou para todos quem é o seu patrão e para quem ele trabalha. Mais cedo ou mais tarde a voz do dono sempre aparece.

  7. Comentou em 11/10/2007 Frabetti Frabetti

    Parabéns à folha pelo furo.

    A postura adotada foi correta. Entre comunicar o deputado sobre o recebimento ‘por engano’ da mensagem e o interesse público, acredito que o último deve prevalecer.

    Fez bem a folha em deixar para os leitores as conclusões sobre o fato.

  8. Comentou em 10/10/2007 Rikene Fontenele

    Paulo Renato não foi a primeira vítima do clique errado. Imaginei que o blogueiro fosse citar o caso idêntico de Luis Nassif. Que teria sido a causa de sua demissão também na folha.

  9. Comentou em 10/10/2007 Ricardo Camargo

    Coerente com a posição que externei com relação ao caso da troca de e-mails entre os Ministros do STF – muito mais grave, porque, ali, devassou-se a posição que eventualmente seria tomada pelos julgadores antes mesmo que eles votassem -, neste caso específico houve, sim, violação de privacidade, porquanto o que importa, em relação ao ex-Ministro da Educação, não é se ele combinou previamente o teor do artigo que veicularia em defesa das privatizações, mas sim exposição das posições a elas favoráveis no aludido artigo. Muitas vezes, antes de se enviar um argigo para a publicação, pede-se a opinião de uma outra pessoa para que ela veja se há algum defeito, se ele poderia ser interpretado como uma agressão a alguém ou alguma impropriedade – algo que a percepção do autor pode não revelar, mas a de um leitor sim.

  10. Comentou em 10/10/2007 Adriano Soares de Assis

    Essa é a cara do PSDB. Êles fizeram isso o tempo todo, só a mídia brasileira não viu. Que estranho!

  11. Comentou em 10/10/2007 Jedeão Carneiro

    Essa turma é de doer!!! Logo logo ele copia seu guru e nos pede: ‘Esqueçam o que escrevi’. Se o Bradesco concordar, é claro!

  12. Comentou em 10/10/2007 Nilton Andrade Bergamini

    ‘Eu escrevi um artigo sobre a Vale do Rio Doce comparando com a Petrobras. Eu pedi os dados, obviamente, para o pessoal da Vale. Mandei o artigo [à Vale] para ver se eu tinha interpretado direito os dados que ele tinha mandado. A mesma coisa fiz agora’
    É óbvio que não iria pedir os dados para a petrobrás…
    Isso porque foi ministro da educação, depois ninguém sabe porque tem tantos cidadãos e profissionais decadentes e alienados.

  13. Comentou em 10/10/2007 Ferdinando Vieira Vieira

    O tucano, a ave, todo mundo sabe, não faz seu ninho, coloca os seus ovos em ninhos que outras aves construíram. Tucanos, esses políticos, tem a mania de culpar os outros pelos seus atos contra a população. O exemplo do livro didático é só um deles, o do voto em aberto que foram contra é outro e se formos pesquisar, descobriremos muito mais. Corria entre Montes Claros e Monte Azul, cidade já quase fronteira com a Bahia, o chamado Trem do Sertão que beneficiava a população carente e produtores que usavam o mesmo para trazer mercadorias para Montes Claros. No desgoverno de fgagac, mesmo com a revolta das populações de cidades beneficiadas, esse trecho foi privatizado. Pois não é que o Senador inventor do mensalão que a PIG gosta de chamar de mineiro, teve a coragem de dizer para a população de uma dessas cidades que quem acabou com o trem foi Lula? Espanta é saber que ainda tem quem defende essa [ ].

  14. Comentou em 10/10/2007 Alexandra Garcia

    A diferença é que as salsichas ao menos sabemos do que são feitas. Mas foi ótima a divulgação disso por parte da ´insuspeita´ Folha, pois na falta do que terem de dizer contra o governo Lula, os reacionários o acusam de favorecer os banqueiros. Por aí se tem uma idéia de quem almoça, janta e come no mesmo prato que eles…

  15. Comentou em 10/10/2007 Marco Antônio Leite

    Quanta promiscuidade, o que é isso torcida brasileira? Pôr isso que essa gente gosta da privatização, pois tudo se torna mais fácil criar o famoso caixa dois, aquele que financia a candidatura do pessoal de direita, cuja palavra escrúpulo não existe em seu dicionário. Essa história de pedir opinião para aspone de banco não tem sentido, isso cheira corrupção ativa. Qual o interesse que esse mestre da promessa tem em saber como se escreve no economes deste ou daquele ramo de atividade, infelizmente poucos brasileiros tem acesso à essa informação, bem como são poucos aqueles que já adquiriram uma consciência política consistente, aquela que não permite que interesses pessoais sobressaiam aos da população brasileira. Puro interesse pessoal?

  16. Comentou em 10/10/2007 Lau Mendes

    Sr.Weis isto que a Folha ofereceu aos leitores é o “tudo”que se reivindica da mídia,principalmente quando a informação e a fonte ,una,“mostra a cara”. Só me custa entender tanta ingenuidade . Será ? Vou dar uma olhadinha em volta, com políticos nunca se sabe.

  17. Comentou em 10/10/2007 PAULO CESAR LIMA BASTOS

    MIAU!

  18. Comentou em 10/10/2007 José de Souza Castro

    A Folha não completou o trabalho: devia ter publicado também o artigo do ex-ministro da Educação no governo FHC, para que o leitor ficasse mais bem informado. O Paulo Renato não é consultor do Bradesco, conforme diz, mas podia estar à procura de um novo cliente, quando escreveu algo que imaginava agradar ao presidente do maior banco privado brasileiro e submeteu o texto a sua apreciação, antes de enviá-lo ao jornal. A Folha está certa, ao expor como se faz leis – digo, salsichas – neste país que tanto têm beneficiado os banqueiros. Paulo Renato foi ministro de um governo que enriqueceu ainda mais alguns bancos, entre eles o Bradesco, e só não privatizou o Banco do Brasil porque lhe faltou força política para isso. Se não tivesse sido atropelado pela crise asiática, no auge do Plano Real e das privatizações, o BB poderia, quem sabe, fazendo parte do Grupo Bradesco…

  19. Comentou em 10/10/2007 Paulo Bandarra

    Pelo menos é um e-tomate menor do que o dos ministros do supremo acusado de invasão de privacidade!

  20. Comentou em 10/10/2007 Maria Izabel L. Silva Silva

    Sim Luis Weis. Ponto para a Folha. Será que isso é fruto de uma ação para recuperar a credibilidade do jornal, cujas vendas cairam este ano???Quem sabe a Folha (re)aprende a fazer jornalismo! O e-mail do deputado Paulo Renato é uma joia, um tesouro … mais cinica ainda é a explicação do deputado: queria uma opinião tecnica. Ora, há ótimos tecnicos no país que não estão, necessariamente, vinculados ao setor privado nem têm interesse direto no ‘artigo’. Vê-se bem, a serviço de quem, o deputado trabalha.

  21. Comentou em 10/10/2007 Agostinho Rosa

    Weiss, o deputado Paulo Renato tem um precedente. Recentemente ele desancou um livro didático (História crítica do Brasil), tecendo críticas negativas ao conteúdo da obra e acusando o governo de incompetência pela introdução do livro nas escolas públicas. Mais tarde descobriu-se que este livro fôra aprovado durante a sua gestão como Ministro da Educação em 2002. Desta vez, o parlamentar disse que contactou a CVRD com o intuito de inteirar-se dos dados antes de publicar a matéria. Ora, porque ele não fez o mesmo e contactou o BB, uma vez que o artigo relacionava-se com esta instituição? Seria no mínimo uma demonstração de coerência. Depois dessa, não há como evitar uma suspeita de conchavo com o Bradesco, uma vez que este banco tornou pública a sua insatisfação como o BESC está sendo incorporado ao patrimônio do BB. Na ânsia de atingir o governo, estão atropelando a si próprios.

  22. Comentou em 10/10/2007 Renato Silva

    Sensacional. Incrível como esse deputado tem a consistência de uma gelatina. Em menos de um mês ele já havia dito bobagem sobre o mensalão tucano, já comentado aqui no post ‘Pau que bate em Chico’, já havia criticado o governo atual por causa de um livro de história que havia entrado na relação de livros do MEC durante a gestão DELE frente ao ministério e agora mais essa. Parabéns à Folha por não esconder mais esse episódio que mostra bem a ‘moral’ de Paulo Renato. Mas a verdade é que, se fosse um Renan que tivesse feito isso, a mídia já estaria (muito justamente) alardeando o assunto a todo instante, pedindo cassação, etc. Daí já nota-se a diferença da imprensa em geral quando o assunto é o PSDB. Abraços.

  23. Comentou em 10/10/2007 Rogério Pereira

    uma informacao pertinente: o bradesco havia comprado a folha de pagamento do governo do estado, esta venda (das contas) foi revogada pela justica e o bradesco ficou a ver navios. ou seja, o bradesco tem ou tinha muito interesse nesta historia toda. se nao me engano havia pago 240 milhoes de reais, o bb pagou um bilhao para o governo do estado de santa catarina pelas mesmas contas.

  24. Comentou em 10/10/2007 cacalo kfouri

    tem mais uma ‘pisada no tomate’: um ex-ministro da educação escrever ‘em anexo’ é de doer…

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