Sábado, 16 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

CÓDIGO ABERTO > Desativado

Jornalismo autoritário

Por Luiz Weis em 20/11/2007 | comentários

Com grande alarido, a Folha noticiou, citando fontes anônimas da Polícia Federal, que, por intermédio de empresas laranjas, o PT recebeu R$ 500 mil em doações da Cisco, a multinacional do setor de informática acusada de sonegação em grande escala e delitos correlatos.

Até aí, tudo bem. O PT não negou os recebimentos. Mas, depois, novamente com base em informantes não identificados da Polícia Federal, o jornal deu que, em troca das doações, a Caixa Econômica Federal mudou um edital de licitação para favorecer a Danovo, empresa que trabalha com produtos da Cisco.

Hoje a Folha anuncia os desmentidos da Caixa e da Danovo, sob a forma de notas enviadas ao jornal – publicadas com aquelas letras miúdas cuja leitura pede uma lupa, numa burla da Lei de Imprensa, que determina que a versão da parte acusada tenha o mesmo destaque da matéria acusatória.

Mas isso até que é o de menos. A Caixa e a Danovo demonstram que o suposto toma-lá-dá-cá não poderia ter acontecido porque o edital foi alterado somente em relação a um dos quatro itens em disputa – vencido por outra empresa. A única vitória da Danovo foi numa concorrência cujo edital não foi mexido.

O que faz a Folha? No corpo da matérial principal, assinada pelo repórter Hudson Corrêa, lava as mãos duas vezes.

Primeiro, ao dizer que “a contrapartida [das doações], suspeitam os investigadores, seria uma alteração no edital citado”.

Segundo, ao reiterar que “a doação, segundo interpretações de policiais, teria ocorrido em troca de mudanças no edital do pregão eletrônico para beneficiar a Damovo.

As palavras-chave: “suspeitam”, “seria”, “interpretações” (!), “teria”.

Mas, na sub-matéria “PF investigará vazamento de informações”, os repórteres Mario Cesar Carvalho e José Ernesto Credendio escrevem candidamente:

“Em troca da doação, a integradora de sistemas eletrônicos, que trabalha com produtos da Cisco, a Damovo, venceu leilão eletrônico da Caixa Econômica Federal de R$ 9,9 milhões. Segundo a investigação da PF, o edital teria sido alterado. A Caixa nega a alteração.”

Repetindo: “em troca da doação […] a Damovo venceu leilão […]’

Ou seja, a Folha banca a relação de causa e efeito entre uma coisa e outra. O condicional se limita ao alegado mecanismo da “troca”.

Isso merece ser chamado de “jornalismo autoritário” – uma perversão da autoridade do jornal que deve resultar da robustez de suas informações. À falta disso, o jornal simplesmente impõe ao leitor a sua verdade.

Todos os comentários

  1. Comentou em 22/11/2007 Carlos N Mendes

    Será que dentro das redações brasileiras existe outro tipo de força motriz que não seja a disputa pelo poder ? Se vendeu muito esse produto (o auto-presumido ‘jornalismo’) como formação de opinião. Casos como este da FDSP mostram que quem forma opinião está também fabricando opinião. Assim como não compro meia bicicleta, prefiro não comprar meia notícia. Ninguém gosta de produto ruim. No caso de notícias, é mais difícil avaliar a qualidade do produto. Ainda bem que existem jornalistas observando esses ‘profissionais’.

  2. Comentou em 22/11/2007 Dulce Leão

    Concordo com o autor do texto. O jornalista tem a obrigação de informar o FATO, não interpretá-lo. A menos que julgue o seu leitor IDIOTA. Quando começo a ler uma matéria, e o jornalista usa termos como ‘teria’, ‘estaria’, ‘deveria’, é sinal que o jornalista NÃO FEZ O DEVER DELE…APURAR O FATO PARA NOTICIÁ-LO. PORTANTO NÃO MERECE CRÉDITO PARA SER LIDO!

  3. Comentou em 22/11/2007 Maria Izabel Ladeira Silva Silva

    Prezado Weis.
    Isso merece ser chamado d P.I.G. – Partido da Imprensa Golpista.

  4. Comentou em 22/11/2007 Norton Drongek

    Não é bem tomar partido, ao comentar sobre o embate de dois verdadeiros partidos – PT e Mídia – a única premissa para que o seja coerente; em verdade, tendo percorrido todo aquele caminho acima descrito, este colunista pode já soletrar as defraldadas viscitudes das classes políticas. Saber sobre Herzog e continuar no Estadão, só mesmo tendo estômago forte. ´Ecos de época´, poderia dizer alguém num gracejo, mas só não vê nossa farsa ridículoposicionista quem não quer. Não votam nem na própria lei !!Enquanto isso, tome Renam e cia. e insisto na sugestão de que o povo pede pra ter o que têm. E que a militaria já se ressente por novas artilharias..

  5. Comentou em 21/11/2007 Marcelo Ramos

    Para o Fabio de Oliveira Ribeiro, acertou na mosca. O Serra, no início da carreira, trabalhou na Folha. Segundo Paulo Henrique Amorim, o ‘seu’ Frias, dono da Folha, já disse que ‘hei de viver para ver esse garoto consertar o Brasil’. Não é o dedo do Serra na Folha, não. É a mão, o pé, o braço,etc. E o Weis qualificou muito bem o artifício: é uma burla. Além de darem o desmentido em letra pequena, na matéria continuam repetindo o boato. Infelizmente (para o ‘seu’Frias), também segundo PHA, o Vesgo do Pânico tem mais chances em 2010 do que o Serra. Quem sabe em uma outra encarnação o ‘seu’ Frias consegue ver seu desejo realizado? Nessa, não vai dar…

  6. Comentou em 21/11/2007 José Orair Silva

    Aquí em Minas nós costumamos dizer que, em se tratando de jornais, só dá para acreditar piamente na data… Quanto ao resto é preciso desconfiar…

  7. Comentou em 20/11/2007 Jedeão Carneiro

    Jornalismo Partidário

  8. Comentou em 20/11/2007 Max Suel

    Vamos ao âmago da questão: Cisco , envolvida em diversas falcatruas no Brasil, faz doação (sic) ao PT, usando empresas laranjas, isto em ano não eleitoral, e quantia expressiva: R$ 500.000,00. Pergunto: a troco de quê ? dos belos cabelos da Ideli ? do sotaque caipira do Zé ‘sai já daí’ Dirceu? da linguinha presa do Vicentinho e do Palocci? Engraçado, ninguém estranha esta esquisita doação ? lógico que aí tem …. se a PF investigar direitinho (o que está difícil de continuar …) chega nas falcatruas, que teimam em grudar no PT. Êta partido chegado numa mutreta! Também, precisam fazer caixa para pagar os ‘empréstimos’ do Valério, e para a próxima eleição de 2008.
    Insisto : por que a doação expressiva para o PT? qual a vantagem da Cisco neste caso? pura generosidade … qual é pô, pensa que somos otários.
    A propósito jornalista Luiz Weis, pergunto: quando o Sr. irá fazer parte do quadro de jornalistas da Lula News ? não que não tenha direito, o trabalho é livre, mas por uma questão de ética, a gente deve ser posicionar de forma transparente.

  9. Comentou em 20/11/2007 Kleber Carvalho

    Weis, envio uma sugestão de matéria para a Folha, O Estadão, a Globo e a Veja. Quem sabe um dia estas empresas deixam de tratar as pessoas como autênticos idiotas e assumem suas preferências.

    19/11/2007

    Terça-feira, 23 de outubro, início da tarde. A sessão do Senado estava aberta, o dia era de votações, mas o Fiat Marea placa 0070, usado pela senadora Maria do Carmo (DEM-SE), trafegava a alguns quilômetros dali. Nas horas que se sucederam, o carro oficial circulou intensamente pela Asa Sul de Brasília, a serviço exclusivamente de compromissos particulares da senadora e de sua família. A mordomia sobre rodas, com motorista e combustível pagos com dinheiro público, é um dos exemplos mais freqüentes da confusão entre o público e o privado no Brasil.

    Naquela tarde, quem estava no Senado não imaginava o paradeiro de Maria do Carmo.

    Sua presença, registrada pela manhã, ainda estava assinalada no painel eletrônico do plenário.

    Mas o expediente terminou mais cedo. O GLOBO encontrou a senadora saindo de seu apartamento funcional, na superquadra 309 Sul, onde moram os senadores, às 15h22m.

    De lá, Maria do Carmo seguiu para um centro médico, onde permaneceu por quase duas horas. O carro oficial não a esperou: volto

  10. Comentou em 20/11/2007 Fábio de Oliveira Ribeiro

    Ué… você está a dizer que a Folha, um jornal moderno comprometido com a ética, a transparência e a serviço do leitor, está a agir como os jornalões de 1932. Faz ‘denúncias vazias’ contra um neo-Getúlio a fim de permitir um golpe de estado ou no mínimo o desmembramento a federação. Se for este o caso o modernismo da Folha data dos anos 1920 e seus donos se esqueceram que São Paulo é governado pelo seu querido protegido protetor e não por alguém nomeado pelo Palácio co Catete. Há dedo do Serra nesta cumbuca?

  11. Comentou em 20/11/2007 Kleber Carvalho

    O diretor de jornalismo da Folha estudou na mesma escola do Ali Kamel o Homer da rede globo. Talvez a Folha esteja apenas testando hipóteses. Chega ser patética a campanha da Folha para destruir o PT. No início do ano recebi uma proposta via telemerketing para assinar a Folha, recusei e agradeci, não gasto meu dinheiro conquistado com o suor e a dignidade do meu trabalho com um jornal tendencioso e de direita.

  12. Comentou em 20/11/2007 André Martins

    Esse é um erro grotesco ou é uma manipulação? É fruto da desonestidade ou da falta de formação? Acontece nas matérias acusatórias a todos os partidos ou apenas do PT? Seria interessante fazer um levantamento de ‘erros’ desse tipo para poder descartar as teses conspiratórias de complôs da mídia.

  13. Comentou em 20/11/2007 Rogério Ferraz Alencar

    Eu já havia dito, em comentário a artigo de Alberto Dines: a Folha estabeleceu a premissa da doação em troca de alteração no edital e não arreda pé disso. Não apresenta provas, nem mesmo ilações consistentes. Isso não é jornalismo autoritário. Não é nem jornalismo: isso é tomada de partido. É a mídia agindo como partido político. É a mídia na oposição.

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