Segunda-feira, 20 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

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Jornalismo cidadão: As lições de uma experiência em crise

Por Carlos Castilho em 03/02/2006 | comentários


Uma das mais badaladas experiências de jornalismo cidadão nos Estados Unidos está com o seu futuro ameaçado porque o seu criador, o jornalista Dan Gillmor, abandonou o projeto após reconhecer uma série de erros conceituais e operacionais.


O site Bayosphere, criado no inicio de 2005, não conseguiu atrair um número considerável de participantes, conforme Gillmor admitiu num texto divulgado no dia 25 de janeiro, onde ele reconhece que faltou uma visão mais realista da participação de pessoas comuns na coleta e publicação de notícias de interesse comunitário.


O projeto Bayosphere foi criado por Gillmor para materializar as idéias que ele esboçou em seu livro We The Media (Nós, a Mídia) sobre as mudanças que a internet está provocando na forma pela qual a informação afeta a vida dos integrantes de uma comunidade.


O público alvo escolhido foi o dos moradores na região da baía de São Francisco, na California, onde se concentra a maior parte dos intelectuais da internet norte-americana e que possui um um altíssimo índice de uso da banda larga por habitante. A estratégia editorial era focar em temas sobre novas tecnologias e nos assuntos comunitários, com Gillmor funcionando como principal motivador e provocador.


O cenário parecia ideal para uma experiência pioneira de informação participativa a partir da base social de uma comunidade. Mas o projeto não decolou, o número de colaboradores não aumentou e, um ano depois, o balanço é melancólico e o Bayosphere corre o risco de entrar para o cemitério de belas idéias da internet contemporânea.


Os textos produzidos a propósito da crise no projeto de Dan Gillmor são a primeira grande oportunidade para avaliar o que existe de fantasia e o que há de realidade no chamado jornalismo cidadão, uma denominação ainda sujeita a muitos questionamentos.


A constatação mais imediata é de que os erros de Gillmor eram inevitáveis, dado que se trata uma experiência numa área absolutamente nova, onde o conhecimento ainda é basicamente empírico e fruto daquilo que os anglo-saxões chamam de wishfull thinking (tomara que aconteça, numa tradução absolutamente livre). O utópico seria achar que tudo daria certo já na primeira tentativa.


A segunda constatação é a de que o jornalismo cidadão ou comunitário não é um fenômeno do tipo plug and play (liga e funciona), como se fosse um software ou hardware instalado num computador. É um processo social que envolve aprendizado; mudança de percepções, comportamentos e valores; e principalmente da motivação para participar, um elemento que está fora do controle de responsáveis por projetos como o Bayosphere.


Gillmor, a exemplo de muitos outros adeptos do jornalismo cidadão, acabou contaminado por uma visão idealista da participação de pessoas comuns na arena da informação. A idéia predominante era a de que dando as ferramentas e a oportunidade, a participação cidadã seria imediata e colaborativa. Faltou a percepção de que o processo passava também por áreas como sociologia, psicologia e política, capazes de poder explicar determinados comportamentos humanos não .


A visão idealista do Bayosphere, um fenômeno que também contamina outras experiências de jornalismo comunitário espalhadas pelo mundo, acabou transformando a tecnologia na principal preocupação do projeto. A plataforma operacional desenvolvida por Gillmor e seu parceiro Michael Goff  acabou falhando na hora de administrar problemas como a exigência de identificação detalhada dos colaboradores, a necessidade de interferir nos textos para evitar agressões e difamações, informações falsas etc.


As medidas preventivas acabaram complicando a participação das pessoas menos familiarizadas com a tecnologia que acabaram desistindo, para não mais voltar. O que teóricamente deveria melhorar o relacionamento entre as pessoas, acabou funcionando ao contrário.


‘As ferramentas tecnológicas são importantissimas mas elas não substituem o trabalho de desenvolvimento de uma comunidade’, admite Dan Gillmor que agora acredita que o ‘trabalho comunitário é tão crucial num projeto de jornalismo cidadão quanto a escolha das ferramentas operacionais adequadas’.


O mea culpa do criador do Bayosphere serviu de pretexto para que vários outros adeptos do jornalismo cidadão passassem também a rever idéias e expectativas. Willian Luciw alinhou sete itens que podem servir como lista de checagem em futuros projetos de jornalismo cidadão, visando evitar a repetição dos erros de Gillmor.


O texto está em inglês, mas vale a pena lê-los para se ter uma idéia do que não foi pensado até agora. Um dos itens destacados por Luciw, um executivo empresarial, é a possibilidade de que a correção dos erros cometidos pelo o Bayosphere ‘recuperar a paixão no exercício do jornalismo depois que o sistema industrializado dos jornais reduziu os jornalistas a operários de uma linha de montagem’. Os leitores perceberam esta pasteurização informativa e estão se distanciando da imprensa convencional, em países como os Estados Unidos.


Dan Gillmor faz mistério sobre o que acontecerá com o Bayosphere nos próximos meses. Ele no entanto já arranjou um novo emprego. Está desenvolvendo o Centro de Jornalismo Cidadão, apoiado pela Universidade da Califórnia, em Berkeley, e pela Universidade Harvard.


Aos nossos leitores: Serão desconsiderados os comentários ofensivos, anônimos e os que contiverem endereços eletrônicos falsos.

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  1. Comentou em 14/02/2006 Maria Izabel L. Silva Silva

    O sr. Bocage e sr. Camisão, comentadores desse blog, querem banir os petistas desse blog.O sr. Bocage vai mais longe e arrisca afirmar a existencia de uma ‘estratégia’ petista para difundir a baixaria. Ele também afirma que ‘a maioria é de uma escolaridade muito precária, o que se vê pelos crassos erros de portugues … igual ao querido presidente operário’. Estas são palavras dele. É inacreditável.
    Se existe alguma baixaria neste blog, é a deste senhor. O legítimo retrato do autoritarismo e preconceito mal disfarçados … E ainda acusa os petistas de serem ‘companheiros’ de oligarcas. Ora, ele é a própria voz da oligarquia clamando por segregação! Tenham paciência! É um pobre homem, com o espírito atormentado pela ascensão das massas na vida política nacional. Nós conhecemos muito bem esse tipinho. É uma ‘espécie’ que não desaparecerá tão cedo, na sociedade hierarquizada, autoritária, racista, etc, não obstante os avanços conquistados até hoje.Vamos manter a calma e a elegância. Como Gandhi. Mas alertamos: nós, as massas, que não sabemos falar portugues, viemos para ficar. Não tem retorno. É daqui para melhor (sou otimista)!

  2. Comentou em 05/02/2006 Fábio de Oliveira Ribeiro

    Creio que o fracasso do empreendimento pode ser creditado ao público alvo. Em seu artigo você destacou que:

    ‘O público alvo escolhido foi o dos moradores na região da baía de São Francisco, na California, onde se concentra a maior parte dos intelectuais da internet norte-americana e que possui um um altíssimo índice de uso da banda larga por habitante.’

    Nem todo intelectual considera a imprensa algo relevante. Mesmo aqueles que se servem dela muitas vezes a consideram como ‘uma boa galinha dos ovos de ouro’, ou seja, uma excelente fonte de renda e só. Não são poucos os intelectuais que julgam que a Internet só produz ruído e nada de valor intelectual. Usam a rede de computadores como ferramenta de pesquisa, mas não a consideram inteiramente confiável. Além disto, há o problema do comprometimento. Não são poucos os intelectuais que dependem de financiamentos de órgãos governamentais. Como é impossível participar da comunidade sem em algum momento colocar em questão as atitudes dos governantes, podem ter se omitido para evitar retaliações.

    Se mudar o público alvo para comunidades pobres, que não despertam o interesse da mídia ou que foram esquecidas pelos programas governamentais, o autor do projeto pode se surpreender com o interessse das pessoas de participar. Caso contrário… você já sabe a resposta.

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