Sexta-feira, 23 de Fevereiro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº975

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Jornalismo de porta de geladeira

Por Carlos Castilho em 11/07/2008 | comentários

Esta realmente bateu todos os recordes em matéria de criatividade na hora de buscar adjetivos para a atividade jornalística. Ela foi criada por John Robinson, editor do jornal  News & Record , da cidade de Greensboro, no estado norte-americano da Carolina do Norte para identificar o que outros chamam também de jornalismo hiper-local ou micro-jornalismo.


 


Criatividade a parte, a cobertura de temas locais passou a ser o foco de apaixonadas discussões sobre alternativas possíveis para novos empreendimentos jornalísticos no momento em que as fórmulas tradicionais cambaleiam diante dos novos hábitos de consumo de informações gerados pela internet.


 


Quase todos os principais formadores de opinião dentro do campo da observação crítica da imprensa nos Estados Unidos tocaram no assunto ao longo dos últimos dois meses. Trata-se de uma discussão cujo resultado ainda é impossível prever ou sequer esboçar, mas que, independente do desfecho, recupera um tema abandonado há anos pela grande mídia, também aqui no Brasil.


 


A cobertura local, em cidades pequenas, bairros em cidades grandes ou comunidades rurais entrou na agenda da mídia porque está sendo apontada como uma solução para os dilemas editoriais enfrentados pelos grandes jornais e emissoras de radio ou TV, em conseqüência da fuga de leitores, ouvintes e espectadores.


 


A engenhosa analogia com a porta da geladeira surgiu na medida em que John Robinson introduziu no seu jornal o que ele chamou de micro notícia, tão curta e local quanto o adesivo magnético com os telefones da farmácia, pizzaria e radio táxi do bairro.


 


Antes de ir adiante, gostaria de marcar os limites da minha entrada nesta discussão. Vamos tentar evitar a confusão entre o negócio do jornalismo e a atividade jornalística. Como atividade, o micro-jornalismo é um opção tão valida quanto o “macro-jornalismo” , praticado pelos grandes jornais. 


 


A opção porta de geladeira é uma fórmula empresarial. Portanto quando ela entra na roda da discussão, é importante distinguir nela a parte que tem a ver com lucros e sustentabilidade e a que está vinculada às estratégias editoriais. Há uma ligação entre ambas, mas elas não podem ser confundidas.


 


Como negócio, o jornalismo hiper-local ou micro ainda é uma opção sujeita a muitas incógnitas porque se apóia uma progressiva segmentação do noticiário. Segundo o consultor Philip M. Stone, num artigo publicado no site Follow The Media, alguns jornais estão segmentando tanto a informação local que estão sendo publicadas informações de interesse de uma única família. É o caso do New & Record, cujas notícias são recortadas e coladas na porta do refrigerador familiar.


 


Outros tentam soluções como o chamado “jornalismo geográfico” onde as noticias são selecionadas com o uso do GPS (Geopositioning System – software de localização geográfica). O GPS orientaria os editores na hora de escolher a plataforma de distribuição e o formato do material jornalístico para chegar a segmentos específicos do publico.


 


A busca de modelos alternativos de negócios via continuar produzindo combinações bizarras de adjetivos com a palavra jornalismo. Mas na parte informativa, os dilemas permanecem complexos porque envolvem um novo relacionamento entre os profissionais e as comunidades.


 


O jornalismo local é o que consegue estabelecer a maior proximidade entre o profissional e o veículo com a comunidade. Por isto ele é estratégico na hora em que os empreendedores do jornalismo tentam recuperar a clientela, ou seja, os consumidores de notícias. A internet é uma ferramenta preciosa porque conseguiu baratear incrivelmente a produção informativa hiperlocal.


 


Mas a produção de micro-noticias ainda é um processo controvertido. Tradicionalmente os caciques locais sempre foram os donos de jornais, rádios e retransmissoras de TV, por interesses políticos e corporativos. Isto fez com que o noticiário embutisse um pecado original por conta dos interesses do dono do veiculo.


 


Quando algum independente tenta entrar no espaço local, ele é visto com muita desconfiança e submetido a um forte patrulhamento, o que é um complicador para quem não quer ter comprometimentos. O relacionamento do profissional, e até mesmo de informantes autônomos, com a comunidade pode levar algum tempo para tornar-se mutuamente confiável.


 


Não há e provavelmente não surgirão tão cedo respostas definitivas para o jornalismo de porta de geladeira, mas uma coisa boa já está acontecendo. O tema está na agenda e com isto o noticiário hiper-local está começando a deixar de ser um monopólio dos caciques locais e ganhar um status de jornalismo potencialmente sério e inovador.


 


Conversa com o leitor: O senado aprovou o substitutivo do senador Eduardo Azeredo (PSDB-MG) sobre controle na Web. O projeto foi apresentado na imprensa como destinado a combater a pedofilia e crimes financeiros, mas isto é apenas o lado mais marqueteiro da iniciativa. A questão de fundo é o problema dos registros de navegação na Web. Está na hora dos quase 40 milhões de brasileiros com acesso à internet mostrarem mostrarem sua voz para que os destinados da rede no país não sejam definidos à revelia dos seus usuários. 

Todos os comentários

  1. Comentou em 15/07/2008 Roberto Ribeiro

    Sim, evidentemente eu sei que é fácil montar um jornal com um computador, ou uma rádio on-line. A questão é, pq os jornalistas profissionais não fazem isso? Isso seria uma saída para a profissão. Há vinte milhões de pessoas na Amazônia precisando de informação. Por que não se monta uma empresa jornalística que cubra esse nicho? É possível a um pequeno grupo de jornalistas fundar uma revista que atinja, por exemplo, o interior do Ceará. Além disso há nichos de mercado, como áreas de interesse específico. Poder-se-ia fundar uma empresa jornalística com quatro revistas: por exemplo uma para esperantistas, uma para filatelistas, uma para aeromodelistas, uma para vegetarianos. Cada uma saindo uma semana, cobririam o mês. Certamente esse pessoal já tem seus boletins impressos em computador, mas talvez não uma revista profissional. Por que os profissionais de jornalismo só lamentam a morte anunciada dos jornalões e não buscam novos nichos de mercado, regional ou temático, ainda inexplorados no país?

  2. Comentou em 15/07/2008 Luciana Fructuozo

    Professor

    Seus toxtos trazem sempre assuntos inovadores e muito interessantes. O ‘jornalismo de porta de geladeira’ foi mais uma descoberta que fiz, lendo-os. Vamos ver no que vai dar…. um grande abraco.

  3. Comentou em 14/07/2008 Roberto Ribeiro

    O Brasil ainda não chegou nem ao nível local. Há literalmente milhares de cidades no país que não possuem sua rádio local, ou seu jornal local, ou seu almanaque anual local. É preciso macheza, hombridade, coragem para mexer com o nível local. Qual jornalista ou empresa jornalística teria coragem de por um jornal local em Curionópolis ou Floresta? Quem teria uma rádio montada no Polígono da Maconha senão um poderoso regional? A maior parte dos nossos estados não têm uma televisão local, meras repetidoras que são das grandes redes. Sergipe possui apenas 3 jornais impresso, sendo apenas um, semanário, digno do nome e nenhuma revista. Então, senhores, o micro-local ainda está muito longe de nós. Precisamos primeiro chegar ao estadual!

  4. Comentou em 13/07/2008 Marcio Fernandes

    Carlos, parabéns por mais este texto. Seus escritos sempre configuram um olhar apurado e, portanto, interessantíssimo para os leitores, algo incomum no meio do turbilhão de comentaristas de Jornalismo que temos por aí. Seguimos em contato

    mf

  5. Comentou em 12/07/2008 Pederiva João

    Parabéns pela discussão sobre a legitimidade editorial de uma estratégia mercadológica, assim como pela capacidade de síntese sobre o que está em jogo nesse registro da internet.

    O acesso a essas informações garantirá ainda mais poder àqueles que detiverem condições de acessar e processá-las. Quem será ou serão essas pessoas?

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