Segunda-feira, 20 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

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Jornalismo é mais que 140 caracteres

Por Luiz Weis em 01/12/2008 | comentários

Em tempos de catástrofe – Santa Catarina, Mumbai – a utilização maciça da internet para alertar, informar e mobilizar, influindo no curso dos acontecimentos a ponto de salvar vidas, dá a impressão de que, comparada com os novos recursos da comunicação instantânea, suscinta, de livre acesso e infinitas mãos de direção, a chamada imprensa convencional é uma anciã entrevada.

O problema é que essa comparação peca pela base. Em papel ou na tela, o jornalismo de fato não dá para a saída em matéria dos atributos que fizeram do Twitter, por exemplo, a mais recente sensação das redes sociais virtuais, explorando a plataforma que já passou à frente do computador: o celular.

Nos atentados em Mumbai, mensagens via Twitter – de até 140 caracteres cada – seguiam à razão de uma por segundo [segundo uma reportagem do New York Times, que no entanto não esclarece como se chegou a esse número].

Mas o jornalismo não pode ser avaliado por sua capacidade de enviar mensagens urgentes de 140 caracteres. Se, nessas horas, diz ou não diz a que vem, será por ter estado, ou não, à altura do que dele é justo esperar.

Quando se fala em jornalismo, aqui, fala-se ainda, em primeiro lugar, do jornalismo escrito, alcance ele o público pelo meio que for.

Isso porque, embora a TV possa mostrar as coisas “como as coisas são”, enquanto ocorrem – com todo o seu inseparável componente de espetáculo, quando não de espetáculo pelo espetáculo –, a imprensa escrita continua imbatível como sistema de produção e transmissão de informações articuladas, a partir das quais o leitor pode ter uma noção, caso a caso, de como funciona o mundo.

Não em 140 caracteres, naturalmente.

Dito de outro modo, trata-se de dois serviços distintos de utilidade pública. Um, prestado por legiões de pessoas agindo por iniciativa própria ou reagindo espontaneamente a iniciativas alheias. Outro, prestado por organizações criadas para vender notícias – e, infelizmente, cada vez mais, para vender essa lavagem chamada entretenimento de massa.

O Twitter, ou coisa do gênero, é uma forma escandalosamente superior de fazer circular aos quatro ventos, entre outras coisas, fatos que os emissores e receptores (cujos papéis são intercambiáveis) consideram essenciais em dada circunstância.

Por exemplo, no caso dos atentados terroristas em Mumbai, os endereços de hospitais para doação de sangue. É o que faz o bom e velho rádio, mas deixando o registro por escrito em alguns centímetros quadrados na palma da mão das pessoas.

Quanto mais esse tipo de recurso se propagar, levando a patamares inimagináveis há poucos anos o fluxo e a amplitude da informação tópica, pontual – de varejo, em suma, por importante que seja para os interessados – mais a imprensa terá de oferecer o que está além do alcance dos Twitters deste mundo: a informação no atacado.

Com isso se quer repetir, com sintonia ainda mais fina, o que se passou a cobrar do jornalismo impresso quando a televisão se instalou como o meio por excelência de difusão de notícias em escala global: perspectiva, ou, com perdão da má palavra, contextualização.

E com isso se quer dizer informações não apenas certificadas – o calcanhares de Aquiles do reportariado amador, também conhecido como jornalista-cidadão – mas articuladas entre si e, eventualmente, com as que digam respeito a situações, processos e protagonistas, presentes e passados, de esferas diferentes daquelas que são o objeto direto de cada cobertura.

Certa vez, Cláudio Abramo, um dos maiores jornalistas de sua geração, mesmo pelos padrões internacionais mais exigentes, dizia, brincando, que o jornal de seus sonhos seria aquele que traria uma única notícia. Ou seja, o produto de um jornalismo capaz de integrar todas as matérias de que se ocupasse a cada dia.

Quanto menos distante dessa fantasia ficar um jornal ou uma revista – aliás, os semanários nasceram com uma preocupação aparentada a essa: além de resumir a semana, articular os eventos que se prestassem a isso de forma a “separar aquilo que é notícia daquilo que só é barulho”, como dizia um anúncio da Time [em inglês soa melhor: “what makes news from what just makes noise”].

Vai sem dizer que isso não pode se dar às custas ou à desconsideração de tudo mais que o periódico deve entregar ao leitor em troca do seu dinheiro: clareza, leveza (não confundir, pelo amor do que se queira, com ligeireza), brevidade, diversidade de focos e pontos de vista, atratividade – e “humanidade”.

É secundário, a rigor, se a mídia convencional ficou ou não a reboque de uma legião de não-jornalistas com seus celulares, informando o mundo do que se passava ali onde os repórteres profissionais não conseguiam chegar, ou não chegaram a tempo, em Mumbai ou em Blumenau.

A pergunta é: as organizações jornalísticas foram ou não capazes, lá e cá, de dar uma visão dos fatos (ou mais de uma) que fizesse sentido, porque escorada em apurações exaustivas e não restrita ao imediatismo das situações?

Escreveu-se no parágrafo anterior “organizações” de propósito. Pois é esse sistema – o modo de produção da notícia, a partir de redações estruturadas e de procedimentos padronizados – que dá a um jornal ou revista as condições necessárias, ainda que não suficientes, para que faça o que se propõe.

E é o que os diferencia de tantas quantas redes informais de coletores de informação surjam quando algo motiva os seus membros – com os quais, diga-se desde logo, os jornalistas terão de interagir cada vez mais e sem preconceitos.

Quando o jornalismo organizado não funciona, a culpa não é de ser organizado, mas da mutilação das redações – que representam a encarnação desse conceito – perpetrado pelos mãos-de-tesoura das empresas jornalísticas.

E aí se cai no pior dos mundos possíveis – em que a imprensa perde em agilidade para os twitteiros e blogueiros, e ao mesmo tempo, por falta de estrutura, recursos e qualidade de suas equipes, perde em aptidão para fazer o que não está ao alcance daqueles: montar o quebra-cabeça dos acontecimentos do dia-a-dia.

Todos os comentários

  1. Comentou em 03/12/2008 ernesto Marra

    bom dia, Luiz Weis
    O nome dessa cidade, em Português, é Bombaim
    Provavelmente vem de Boa Baia, como chamaram os navegadores lusitanos do tempo dos descobrimentos, que lá se estabeleceram. Os ingleses trancreveram para Bombay e os indianos para Mumbai
    Do leitor,

  2. Comentou em 03/12/2008 Carol Mancini

    Falta entendimento da ferramenta, assim como falta um sistema eficiente de métricas para saber quantas pessoas atinge-se, por exemplo, com blogs. No twitter, pelo menos, sei que se passar o endereço para doações para Santa Catarina ou Mumbai, quinhentas e poucas pessoas vão ler. Captou?

  3. Comentou em 03/12/2008 Felipe Elia

    O Rogério Castro disse tudo: muito engraçado ter twitter no ‘compartilhe’. A intenção foi gerar revolta ou só mostrar que você não entendeu a ferramenta?

  4. Comentou em 03/12/2008 Leandro Cianconi

    Quem utilizar de forma mais intensiva os serviços chamados (equivocadamente em minha opinião) de microblogging irá entender melhor suas aplicações. Tipicamente utilizado como ferramenta de conversação e referência não pode ser comparado a um blog, muito menos a uma instituição jornalística. O livro não matou a Igreja, nem os blogs e quaisquer outra mídia social matarão a imprensa tradicional. Mas não adianta relutar, a informação e as ferramentas de comunicação serão cada vez mais democratizadas. A prática social que se fará de cada uma será baseada em suas forças e limitações, cada qual com sua melhor aplicação, seja por tipo de conteúdo, perfil de leitor ou escritor. As plataformas podem coexistir. Em paz.

  5. Comentou em 03/12/2008 Eduardo C

    Você definitivamente não entendeu a ferramenta.

  6. Comentou em 03/12/2008 Lucia Freitas

    Luiz,
    Já dizia o queridíssimo José Roberto Alencar que a grande diversão de um bom editor/fechador é criar títulos com poucos caracteres. O twitter nada mais faz que isso: sintetizar. Uma coisa não exclui a outra.
    O jornalismo morreu exatamente pelas razões expostas nos seus últimos parágrafos: as organizações. É um negócio caro, custoso, trabalhoso. E hoje é feito como se fosse fábrica, pizzaria ou banco. As redações cada vez mais silenciosas e sisudas não são ambiente saudável para uma produção consistente. A grande graça, aqui no Twitter e nos blogs, é exatamente a conversa que morreu aí.
    Enquanto jornalistas como você continuarem se batendo com ‘novas tecnologias’ e ‘jornalismo cidadão’, perderam. Perderam a chance de conhecer o novo, de evoluir, de descobrir novos caminhos. O mundo dos blogs, twitters, flickr, orkuts, facebooks tem muito mais para oferecer. E a imprensa escrita, falada e televisada vai continuar perdida enquanto não descerem pro playground.
    meus 2 centavos

  7. Comentou em 03/12/2008 Mario Amaya

    Estão faltando dois elementos aqui.

    O primeiro é a sustentação comercial da organização jornalística, que tem
    mais a ver com essas mutilações das redações do que com o seu
    rendimento qualitativo. A qualidade do material não garante uma
    proporção correspondente de anúncios num ambiente comercial
    perturbado. As recentes demissões nas redações confirmam meu ponto.
    Enquanto a imprensa escrita se retrai, a Internet só se expande, porque
    funcionam por modelos diferentes de sobrevivência. Haverá equilíbrio?

    O segundo elemento é a integração, não apenas entre as notícias
    produzidas pela organização jornalística, mas entre o conjunto destas e o
    material cru que corre livre pela Internet. Há de se promover uma
    relação de complementaridade e não de competição, de cooperatividade e
    não de contestação. Combinar a perspectiva ampla do editor com o foco
    do repórter.

    A propósito disso, não se dê ouvidos a idiotas deslumbrados na Internet
    que insistem em promover competição imaginária entre os jornais e os
    blogs, Twitter e outras ferramentas de autopublicação acessíveis a leigos
    ambiciosos. É retórica vazia destes em benefício próprio. Ainda mais
    nesta época em que os melhores jornalistas também possuem blogs e
    Twitter.

  8. Comentou em 03/12/2008 Felipe Oliveira Carvalho _

    ‘E aí se cai no pior dos mundos possíveis – em que a imprensa perde em agilidade para os twitteiros e blogueiros, e ao mesmo tempo, por falta de estrutura, recursos e qualidade de suas equipes, perde em aptidão para fazer o que não está ao alcance daqueles: montar o quebra-cabeça dos acontecimentos do dia-a-dia.’

    Claro que a imprensa vai ‘perder'(se é que isso é uma luta). Quem twitta e bloga é quem está vivendo a situação e não alguém com o dom mágico de ‘montar o quebra-cabeça dos acontecimentos do dia-a-dia'(que deve ser uma tarefa complicadíssima né?).

    E só quem usa realmente twitter entende como aquilo funciona bem como ferramenta de comunicação. Todo mundo começa a usá-lo achando que não vai dar em nada mas se surpreende.

  9. Comentou em 02/12/2008 Rogério Castro

    Engraçado que quando eu clico em ‘Compartilhe’ aparece um link pro Twitter.

    Abraço, vovô.

  10. Comentou em 02/12/2008 carlos cardoso

    Eu vejo a Velha Mídia apresentando os mesmos defeitos que aponta em ferramentas como blogs e twitter. As estimativas de mortos e feridos variavam todo o tempo entre as emissoras e até mesmo dentro do mesmo veículo.

    Twitter, blogs, flickr e podcasts Levam a informação de quem a presencia para quem a consome. O jornalista se torna um mero intermediário, irrelevante e desnecessário como as gravadoras são hoje, em tempos de iTunes.

    Desculpe. Vocês tiveram seu tempo, hoje eu prefiro acompanhar um atentado na Índia vendo as fotos e lendo informações de quem efetivamente está lá, e não alguém em uma redação em SP reescrevendo informes da Associated Press.

  11. Comentou em 02/12/2008 Rogério Castro

    Restam 1306 toques para o limite de 1400.

    Isso resume o que penso e o que você precisa saber.

  12. Comentou em 02/12/2008 luiz galvão soares

    O problema do twitter sempre será a mesma equação de velocidade por qualidade.É uma ferramenta, que como os blogs, vai perder sua força. Mas em meio a tantas informações seguidas, muitas se distanciam do que é importante, desqualificam o disparo da informação e e suas sequências e, ou consequências..Aí entra muita besteira ..
    No entanto foi muito bem lembrado da potencialidade dessa ferramenta.
    Gostaria de saber, no caso das mensagens por celular nas Felipinas e que reuniucerca de um mihão ou mais de pessoas em frente ao palácio presidencial, quem foi o autor do primeiro ‘disparo’.

  13. Comentou em 02/12/2008 Adonis Gasparini

    Luiz, ótima matéria, parabéns.Só acho que você poderia informar o que é esse tal de Twitter, pois nem todo mundo conhece ainda.Eu descobri lendo a sua matéria e pesquisando na internet.A única coisa que fico pensando e questionando, é como será o futuro?E não só do jornalismo, mas de todos os meios de informação e comunicação.O que conseguiremos em termos de informações idôneas, críticas, responsáveis, racionais e menos passionais?

  14. Comentou em 02/12/2008 Fábio Ricardo

    Ótimo artigo. Excelente. Sou jornalista, blogueiro e twitteiro. Durante as cheias que castigaram Blumenau e região, agi como blogueiro e twitteiro, apenas. O jornalismo profissional ficou de lado. Mas mesmo assim, creio que tenha sido um trabalho de grande utilidade, justamente porque a grande imprensa não conseguiu ser ágil o suficiente para nutrir a população (ao menos aqueles com acesso à internet) de informações constantes.
    Nesse caso, na hora em que tudo estava acontecendo, acho que o twitter e os blogs forma tão (ou até mais) úteis que a imprensa constituída, os jornalistas experientes, as grandes pautas. Cada um tem uma valor diferenciado, mas todos têm grande importância.

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