Sexta-feira, 22 de Junho de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº992
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Jornalismo líquido, o que é isto?

Por Carlos Castilho em 17/01/2006 | comentários


Trata-se de uma adaptação ao jornalismo das teorias do sociólogo polonês Zygmunt Bauman, autor do best seller Modernidade Líquida , no qual ele defende a tese de que a sociedade contemporânea já não vive mais agarrada a coisas sólidas e tem que se acostumar com uma realidade fluida, onde tudo é mutável e multifacético.


A idéia do jornalismo líquido é muito interessante porque ela transplanta para a profissão toda a complexidade do novo ambiente social no qual estamos começando a viver. Um exemplo é o processo de contextualização de uma notícia, na qual o jornalista pesquisa causas, consequências, beneficiados e prejudicados. Neste processo geralmente o profissional acaba enfrentando uma grande perplexidade, porque descobre diferentes percepções e interpretações de um mesmo fato ou processo, sem ter tempo para examiná-los em detalhe.


Um dos maiores pesquisadores do chamado jornalismo liquido é o professor holandês Mark Deuze que acaba de publicar um texto, ainda não traduzido para o inglês, onde ele analisa a crise na imprensa mundial e a desorientação que tomou conta de muitos jornalistas em consequência das mudanças radicais no ambiente de trabalho provocadas pela inovação tecnológica e pela internet.


Aguardo a publicação do texto em inglês para poder fazer uma análise mais detalhada do artigo, porque, por enquanto, só existem resenhas feitas a partir do original em holandês.


Mas de qualquer maneira a idéia de transpor para o jornalismo as idéias de Bauman é um esforço inovador e que, no caso da Holanda, já provocou um apaixonado debate entre os profissionais locais, conforme relata Deuze em seu blog.


O jornalismo é uma profissão conservadora em seus métodos e rotinas. Quase todos nós sabemos disto por experiência própria. Na maioria das redações os profissionais preferem as rotinas seguras e conhecidas porque nelas a possibilidade de erro é menor e consequentemente também o risco de uma demissão e do desemprego.


Por isto é natural que idéias revolucionárias como a do jornalismo líquido provoquem muita discussão. Isto é inevitável num ambiente em que a avalancha informativa gerada pela internet complicou muito a análise de fatos e processos, pois ficou quase impossível dizer que algo é 100% errado ou 100% certo.


Um repórter ou editor publica uma matéria e em seguida começam as correções, críticas e queixas manifestadas através de correio eletrônico, chats e blogs. Para um profissional que se formou com a idéia de que ele sabe mais do que os outros, ficar exposto e vulneravel é uma sensação desconfortável.


Por outro lado, os editores chefes e executivos passaram a conviver com a incômoda situação de ter que investigar a fundo tudo o que é publicado diante da possibilidade do material ter objetivos e interessados ocultos. Caso estes venham a ser descobertos, os chefes ficam numa situação delicada porque a credibilidade do veículo é atingida, como provam os episódios do Rathergate e da repórter Judith Miller, do The New York Times.


O aprofundamento da pesquisa sobre a ‘liquidez’ do jornalismo contemporâneo pode ajudar em muito a que os profissionais e executivos entendam melhor a natureza do processo de transformação por que passa a imprensa mundial. Esta compreensão ajudará a espantar fantasmas e preconceitos em relação à mudança.


Aos nossos leitores: Serão desconsiderados os comentários ofensivos, anônimos e os que contiverem endereços eletrônicos falsos.

Todos os comentários

  1. Comentou em 19/01/2006 Jose de Almeida Bispo

    De uma coisa os jornalistas podem estar certos: todos os que quiserem continuar como tal terão que ser também atores ou atrizes.
    O ciberespaço não acabará a velha invenção de Gutenberg; porém, ela ficará tão restrita em dez anos que mais parecerá coisa de ordens secretas.
    O rádio e depois a TV não acabaram com os jornais e revistas porque se especializaram muito definidamente em cada área. TV e rádio com espantosa mobilidade, mas que ao se fechar a cortina do noticiário, quem viu ou ouviu, viu ou ouviu. E pronto. Com a internet a coisa complicou porque dá pra ler um jornal anos depois de publicado.
    Tive por hábito ler um dos grandes jornais do sul do país durante dez anos ou mais. Diariamente. O mesmo me chegava com 12 horas de atraso do que saia em São Paulo. Hoje, leio-o antes mesmo de saírem os pacotes impressos de lá para cá. E não preciso ‘ter pena’ de jogar fora tanto papel com valiosíssimas informações.
    Mas o que acabou com a profissão do jornalista – não do show-man – foi o outro lado da internet: a proliferação de informantes, blogueiros em primeiro lugar. Se não for show-man ou nele travestido, será um mero blogueiro como qualquer outro. E à medida que os meios tradicionais de ‘formação de opinião’ caem, mais perto do fim fica o monopólio da informação e do jornalista como o foi até agora.
    Diabos é saber o quer será de um mundo sem referenciais

  2. Comentou em 18/01/2006 Fabio de Oliveira Ribeiro

    Até o advento da internet o jornalismo tinha três caracteristicas principais: 1ª a mensagem não era produzida por quem a consumia; 2ª salvo raríssimas excessões os destinatários da mensagem não conheciam as condições em que ela era produzida; 3º a pequena quantidade de fontes e a fidelidade do leitor atribuiam um elevado grau de certeza ao que era publicado. Neste contexto a manipulação era possível e abertamente praticada pelos donos de jornal.

    A Internet bagunçou os papéis de tal maneira que o destinatário também pode ser o produtor da mensagem. Qualquer cidadão está em condições de interferir no processo de construção da notícia. Se não conhece as técnicas jornalisticas para produzir a notícia conhece ao menos os meios para divulgar mensagem. A diversidade de fontes de informação é elevada, a fidelidade do leitor inexistente e o valor intrinsico de cada fonte é reduzido. O grau de certeza do produto jornalistico é tão pequeno que de manipuladores os jornalistas e editores se tornaram manipulados.

    Além de conhecer as técnicas de redação, pesquisa e utilização de fontes, o jornalista digital tem que usar a informação com cuidado. Quanto menor for seu conhecimento humanistico maior será a possibilidade de se deixar manipular. O diploma de jornalista se tornou obsoleto já que a Internet permite a qualquer um mostrar competência jornalistica.

  3. Comentou em 18/01/2006 Mabel Teixeira

    Achei super interessante o post e gostaria de saber onde posso encontar mais informações sobre o ‘Jornalismo Líquido’, no mais quero ressaltar que o Observatório da Imprensa é uma referência constante entre meus professores, o trabalho de vocês além de inteligente é acessível e diferenciado.

    Desde já agradeço.

  4. Comentou em 18/01/2006 Mabel Oliveira teixeira

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