Quarta-feira, 26 de Setembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1006
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Jornalismo local na Web cresce mas sustentabilidade ainda é uma incógnita

Por Carlos Castilho em 12/09/2008 | comentários

Durante anos o jornalismo local oscilou entre o idealismo e o interesse pessoal de seus donos. Mas a partir da ampliação do uso da Web no Brasil, as iniciativas foram se sucedendo e hoje já temos no país alguns exemplos desta nova modalidade de jornalismo .


 


Em maio foi lançado, na Bahia, o jornal online Boca do Povo, o primeiro filhote do Boca do Povo,  criado em Palmas, Tocantins, em novembro de 2007. Além de voltados para questões locais, os dois jornais são produzidos basicamente com material fornecido pelos seus leitores, seguindo o exemplo do Ohmy News, da Coréia do Sul, considerado o mais bem-sucedido empreendimento do gênero em todo mundo.


 


O Boca do Povo situa-se na mesma faixa de jornalismo com participação cidadã testada pelo desativado Niterói Comunidades, página web que deixou de ser atualizada em outubro de 2007 e que publicava notícias sobre três comunidades pobres da cidade de Niterói, no Rio de Janeiro. O Comunidades era produzido por alunos do projeto Olho Vivo, residentes nas localidades de  Grota do Surucucu, Caixa d’Agua e Morro do Estado.


 


O nicho da informação local está sendo explorado também pela grande imprensa, em especial os grupos Globo e RBS. O Globo Online publica uma página web com cobertura de sete bairros da cidade do Rio de Janeiro, bem como versões voltadas para outras regiões do estado como a Serra, Baixada Fluminense, São Gonçalo e Niterói.


 


No sul do país, o jornal Zero Hora, do grupo RBS, publica desde julho deste ano o blog ZHMoinhos, sobre o bairro de classe média alta Moinhos de Vento, em Porto Alegre. O blog é produzido com material recolhido pela editoria local do Zero Hora e com notícias fornecidas por leitores, avaliadas por um conselho de blogueiros, formado por colaboradores autônomos.


 


Essas e outras experiências que se multiplicam pelo Brasil têm em comum o dilema da busca da sustentabilidade, ou seja, como transformar em receita financeira, o sucesso obtido junto aos moradores das comunidades e bairros onde atuam.


 


Os projetos Boca do Povo, Globo Bairros e ZH Moinhos têm a retaguarda financeira de jornais impressos. No caso do Boca, ele é mantido pela mesma empresa que publica o jornal semanal Primeira Página, que circula em Tocantins desde 1985.


 


Sandra Miranda, diretora do jornal, admite que os dois projetos de jornalismo local faturam em banners apenas 10% da publicidade recolhida pelo Primeira Página, o que é insuficiente para manter as duas edições do Boca do Povo, mesmo com uma redação mínima. A edição de Palmas tem 2.600 visitantes únicos por semana enquanto a versão baiana tem 900.


 


O projeto Niterói Comunidades contou com o patrocínio da Petrobras, apoio de órgãos da prefeitura e de organizações sociais da região, mas não conseguiu sobreviver na Web sem apoio financeiro externo.


 


A busca de uma fórmula financeira que garanta a sustentabilidade do jornalismo local é um desafio de médio e longo prazo. Até agora, os projetos só conseguem sobreviver quando contam com a retaguarda de empresas. No Chile, por exemplo, existe uma empresa chamada Diários Ciudadanos, que publica nove jornais regionais com material fornecido por leitores. Entre eles está o El Morrocotudo, da cidade de Arica, publicado desde 2006 e que é considerado um dos pioneiros no setor na América Latina.


 


A batalha pela sobrevivência atinge também os jornais locais online nos Estados Unidos, onde esta modalidade de jornalismo começou a ser desenvolvida já em 2004. Grandes projetos como o BackFence, que criou 13 sites de noticiário hiperlocal, fracassaram por falta de bases financeiras, apesar do sucesso de público e de um financiamento inicial de 3 milhões de dólares.


O obituário dos projetos norte-americanos de jornalismo local é longo, mas a opção está longe de ser abandonada. A Fundação Knight criou o projeto Challenge para distribuir 5 milhões de dólares por ano entre experiências de jornalismo apoiado em comunidades. Desde 2006, quase 60 organizações já receberam financiamentos que variam entre dez mil a 600 mil dólares.


Conversa com o leitor:
Quem souber de outras experiências brasileiras de jornalismo local com participação de leitores, por favor me informe os endereços das respectivas páginas Web porque pretendo voltar a este assunto.

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  1. Comentou em 13/09/2008 Luciana Pedreira

    Carlos Castilho, aqui no Tocantins, o site Aboca do povo tem tido muito sucesso, a julgar pelas matérias que vejo ali postadas, e pelo fórum de debates que o site se tornou. Sei que também está sendo muito bem recebido na Bahia. Lá tem o nome de Boca do Povo. Sou uma das primeiras colaboradoras no Tocantins, cadastrei-me assim que tomei conhecimento do site, e vejo que terá muito sucesso no futuro, o Estado é carente de meios onde o cidadão possa ter vez e voz, sempre soubemos que a imprensa tradicional publica os assuntos de acordo com o seu interesse, não é mesmo? Esta grande idéia – de muita coragem – só podia ter partido de uma jornalista com a história e o currículo de serviços prestados ao Tocantins nesses anos todos, a Sandra Miranda. Meus parabéns a ela, e a você, pelos seus textos excelentes.

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