Terça-feira, 17 de Outubro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº962

CÓDIGO ABERTO > Código Aberto

Jornalismo multimídia online desafia rotinas e valores da profissão e da sociedade 

Por Carlos Castilho em 25/09/2009 | comentários

Quando se tenta avançar da justaposição pura e simples de áudio,imagens, texto e interatividade para um modelo mais integrado de narrativa multimídia, o principal obstáculo não são as tecnologias mas sim valores entranhados há séculos na cultura ocidental e que nos transformaram em escravos do texto.


 


Esta lição está sendo aprendida, há duras penas, pelos estudantes de comunicação tanto da graduação como da pós-graduação, bem como pelos jornalistas que desafiam os procedimentos convencionais para explorar o território das histórias contadas por meio de sons, vídeos, texto e por redes sociais.


 


O jornalismo multimídia online ainda é um sonho mas estudos teóricos feitos nos Estados Unidos e Europa indicam que ele vai gerar uma nova narrativa cujo poder de envolvimento do leitor supera tudo o que a humanidade experimentou, até agora, em matéria de contar histórias.


 


A narrativa jornalística multimídia vai permitir a “imersão virtual” do público na notícia ao incorporar o impacto visual, o condicionamento sonoro, a interpretação pelo texto e o compartilhamento de experiências por meio das redes sociais. Por enquanto a gente só pode imaginar como será e limitar-se a adivinhar quando isto se tornará uma realidade.


 


Mas o caminho está cheio de dificuldades bem concretas. A primeira delas foi a resistência das empresas de comunicação em alocar os recursos financeiros para financiar a transição ao jornalismo multimídia integrado. As incógnitas tecnológicas eram muitas, o modelo convencional de negócios das empresas entrou em crise e a opção adotada quase que por unanimidade foi incorporar a expressão multimídia no marketing corporativo mas promover uma justaposição de áudio, texto, imagens e um simulacro de rede em plataforma Web.


 


Agora estamos começando a descobrir que os obstáculos ao jornalismo multimídia online não se limitam a questões financeiras ou corporativas. A dificuldade dos profissionais e estudantes de desenvolver narrativas jornalísticas integradas do ponto de vista da multimídia tem a ver também com o rompimento de uma cultura onde os sons e imagens foram sufocados pela tradição da escrita como forma preferencial de comunicação.


 


A tradição oral foi mantida apenas em grupos sociais isolados, como é o caso de indígenas. Nós perdemos a capacidade de contar histórias pela via oral. Para constatar isto basta ir a redação de um telejornal ou de uma emissora de rádio, onde as notícias são escritas para serem lidas, quando o normal seria que os apresentadores simplesmente contassem a história do que está acontecendo.


 


Ou peça para um estudante fazer uma apresentação verbal de improviso. O curto circuito mental é inevitável. O mesmo acontecerá se você pedir para que façam um desenho sobre a dívida externa. Há uma paralisia mental imediata pela nossa dificuldade de imaginar. Locutores profissionais de larga experiência, simplesmente entram em pânico na hora de contar uma história sem script.


 


O jornalismo da TV Globo gastou quase 20 anos para levar os repórteres de campo a se libertar do texto escrito na hora de narrar uma reportagem. Houve até uma fase em que os profissionais escreviam o texto, gravavam em fita de áudio e depois reproduziam diante da câmera, como se fossem ventrílocos, o que ouviam num minúsculo fone de ouvido.


 


A narrativa multimídia integrada nos obriga a aprender uma maneira inteiramente nova de transmitir notícias e informações. Nossa cultura informativa nos induz imediatamente a uma narrativa seqüencial, lógica e racional. Corremos imediatamente para o papel ou para o computador.


 


Na multimídia, enquanto o processo narrativo não se tornar automático, teremos que pensar nos componentes visuais, auditivos, textuais e interativos de uma notícia, antes de começar a detalhá-la. Isto equivale a ver qual o seu conteúdo em ação (para ser contada em imagens), o seu contexto (causas e consequências, cuja apresentação fica melhor em texto), emoção (som ambiente, música ou locução) e coleta de experiências do público (por meio das redes).


 

Esta reorganização mental das inúmeras variáveis na hora de produzir uma notícia multimídia é o grande desafio que enfrentam os profissionais, estudantes e pesquisadores do jornalismo.  

Todos os comentários

  1. Comentou em 29/09/2009 Carlos Franco

    Prezado CC: Creio haver uma correção gramatical a ser feita em seu texto. No lugar de: ‘Esta lição está sendo aprendida, há duras penas’, deveríamos ter : Esta lição está sendo aprendida, a duras penas,

  2. Comentou em 28/09/2009 Raquel Garcia Emilio Fonseca

    O tema é de suma importância para nós estudantes, e para os jornalistas já formados. Em meio a tantas discussões sobre a queda do diploma no curso de jornalismo, falar sobre uma nova narrativa é extremamente relevante, visto que, é uma proposta totalmente inovadora, pois engloba todas as outras narrativas até então conhecidas. O quão arriscada é essa nova proposta, e como ela implica diretamente na profissão, ainda é “cedo” para dizer, pois como disse Castilho, é uma “imersão virtual” do público na notícia, e falar disso gera uma serie de discussões.
    Particularmente, não sei até onde é benéfico esse aumento tecnológico na comunicação. Por um lado, o mercado de trabalho se multiplica, as dimensões das noticias se expandem (numa escala grandiosa), as fontes também, por outro, temas como: ética, valores, censura e etc., podem criar alguns conflitos.
    Bom, um misto de idéias, receio das novidades, entretanto, não abro mão do que está por vir.

  3. Comentou em 28/09/2009 Thales Rafael

    Como eu sempre digo: o que precisamos reformar é a comunicação. Devemos ser cuidadosos ao observar as novas mídias e as redes sociais como a salvação do jornalismo e do modo de ler e escrever o mundo. Existem modelos hegemônicos, existem padrões jornalísticos e interesses que não dão a mínima se a notícia está no rádio, tv ou internet. Que as mídias se reformulam e que descobrem novas linguagem no decorrer de sua evolução estamos carecas de saber. Enquanto muitos exigem profissionais mais aptos a trabalharem com as novas mídias, eu exijo profissionais críticos e éticos para fazer a comunicação. Espero que uma boa alma brade: ‘ei, nós já desenvolvemos tanta geringonça para nos relacionar que esquecemos do que falar, como falar e porque falar’. Hoje, vivemos num mundo de imagens. Tantas quanto texto. O que acontece é uma simbiose entre ambos onde a imagem sobressai vendendo valores de vidas e a moral em um carro do ano seguinte. Essa é nossa comunicação. Pois bem, eu não ficaria tão empolgado nem mesmo com a telepatia. Vamos pensar antes o que é e qual o papel da comunicação antes de sair por aí nos comunicando a esmo.

  4. Comentou em 28/09/2009 Gabriela e Raíssa Machado e Rodrigues

    Segundo o autor Carlos Castilho, o jornalismo multimídia online ajudará o leitor a entender melhor a notícia passada. Penso que iria dificultar muito a vida do jornalista, pois temos que estar sabendo de muitas novidades o tempo todo, informando de ‘tudo’ o que está acontecendo nos fatos do dia-dia, transformando uma notícia em uma ‘história’, como por exemplo, o Jornal Nacional iria ser maior o tempo para passar ao telespectador a informação, e iria diminuir a quantidade de informações a serem passadas. Um novo jornalismo por meio das redes sociais, vídeos, textos, sons, vai expandir a narrativa multimídia em uma avalanche virtual obtendo o impacto visual, ou seja, todos os tipos de linguagens em uma mesma notícia, chamando mais a atenção e rapidamente. Mas, a escrita é primordial entre os sons e as imagens, essa forma não iria se sustentar muito, pois nenhum profissional ia adquirir este jeito de passar informação automática sem uma base escrita e estruturada no papel. A notícia tem de ser clara, objetiva e bem articulada, para o público ter um acesso convicto de um modo profissional.

  5. Comentou em 28/09/2009 Ana Flávia Goulart Vitor Komura

    As novas mídias possibilitam um universo infinitamente maior de
    disseminação da informação. Não apenas a diversificação dos
    recursos, mas também o aumento dos meios de comunicação. São
    inúmeras as maneiras de transmitir uma notícia e tais veículos
    tendem apenas a se multiplicar. Concordo com Castilho que o
    alicerce do problema é cultural. Assim como tivemos a oportunidade
    de discutir no post anterior, que tratava sobre o twitter, a dificuldade
    dos profissionais de se adaptarem às novas tendências e é imensa. É
    preciso pensar as novas mídias. Só assim, será possível absorver
    todos os recursos, desvendar todas as possibilidades e aproveitar ao
    máximo os recursos tecnológicos para atingir, da maneira mais
    completa, o maior número de espectadores.

  6. Comentou em 28/09/2009 Paula Sampaio

    É difícil entender como ainda existe resistência as novas tecnologias que foram inventadas para facilitar e não complicar a nossa vida. Hoje, temos acesso a tanta informação de maneira tão pratica e eficiente que o jornalismo deveria ter elevado o seu padrão ao invés de seguir na mesmice e facilitar as copias. Acredito que hoje em dia as pessoas gostam de manter-se informadas, mas procuram inovação. Por isso, mesclar informação e tecnologia é uma ótima forma de reinventar o jornalismo, dar a ele mais qualidade e fazer aumentar o número de pessoas que buscam estar sempre atualizadas.

  7. Comentou em 28/09/2009 Michelle Cristina

    Quando a rádio foi ao ar pela primeira vez, o locutor lia a notícia do jeito em que era publicada nos jornais de circulação. Era o jornal impresso sendo lido em um novo meio de comunicação que precisava se reformular, ter característica própria. O jornalismo na rádio ganhou personalidade, somente quando percebeu que sua linguagem teria que ser diferente do jornalismo impresso, daí ele deslanchou como nova mídia.
    A mesma coisa está acontecendo com o Jornalismo Multimídia. Não podemos aplicar o “ctrl-c” dos jornais, rádios e tv’s e dar um “ctrl-v” nas páginas da Internet. O obstáculo é conseguir formular um jornalismo voltado para esse novo meio de comunicação, e não praticar uma cópia dos outros meios. Por tudo isso, não adianta ignorar os blogs e redes sociais que estão se formando na era digital em que estamos passando, dizendo por pura ignorância que eles não formam opinião e não produzem conteúdo. Na verdade, estão se criando novas formas de compartilhar a informação, de um jeito inovador, informal e nem por isso menos culto e importante que as de outras mídias.
    Como a rádio (e tantos outros meios), o Jornalismo Multimídia precisa se entender como inédito e que possui suas próprias características, muito diferentes dos outros. Não se prender ao texto e criar um jeito novo de contar a história é um grande desafio para o seu sucesso.

  8. Comentou em 28/09/2009 Raoni Jardim Frederico Rossin

    O jornalismo multimídia encara o desafio de criar uma linguagem totalmente nova e adequada ao mercado. Através da história do jornalismo e da imprnesa moderna, a cada nova invenção e advento de um meio de comunicação, a reformulação do veículo anterior se faz necessária.
    Quando a comunicação social era apenas escrita, surge o rádio e a linguagem dos dois veículos era basicamente a mesma. Depois que o rádio tomou forma, os jornais perdem espaço e também tiveram que mudar, atualizar. O mesmo aconteceu com o surgimento da televisão e da internet.
    Não dá mais para desprezar a força dos blogs e redes sociais de conteúdo, como Twitter e o Facebook, e na nossa profissão não é diferente. Grades curriculares estão sendo derrubadas visando a formação de profissionais cada vez mais inteirados das ferramentas digitais e que possam aliá-las ao preceito básico para ser jornalista: o texto. Apesar de existir uma corrente na internet que a ainda a prioriza a boa escrita e aborda temas interessantes, os novos meios de comunicação necessitam cada vez mais de profissionais dispostos a se manterem atualizados, já que o mercado não busca mais trabalhadores especialistas em uma só área. Não é a apenas o jornalismo que precisa fazer uma reforma multimídia, mas os profissionais também.

  9. Comentou em 28/09/2009 Francisco Vorcaro

    A mídia impressa possibilitou que histórias, que antigamente só eram contadas oralmente, tivessem um alcance maior. As informações a partir desse momento poderiam ser armazenadas e distribuídas a qualquer lugar. Obviamente esse fato modificou nossa cultura e nossa relação com mensagem. A interface impressa, dividida em títulos e capítulos, organizada com certa padronização, se faz presente até mesmo na forma como pensamos na história, categorizando os acontecimentos em anos e períodos.
    Mais uma vez chegamos a um momento, aonde um avanço tecnológico possibilita uma revolução na comunicação. O instante é de estranhamento, estamos em uma fase de transição, na qual conceitos e estratégias estão sendo forjados. A Internet, e o seu uso, ainda podem evoluir muito. E com certeza iremos ver um deslocamento de recursos e de pessoas para esse novo meio, com o passar dos anos.

  10. Comentou em 28/09/2009 Henrique Carvalho

    Começo minha análise afirmando que alguns jornalistas possuem aversão a imagens. Passei por esta situação a pouco tempo, ao diagramar uma matéria para o jornal laboratório de minha universidade (Universidade Fumec / O Ponto). Uma das monitoras do jornal ficou abismada ao ver que minha página possuia mais imagens que texto. Será que imagem não é informação? Com isto tudo saímos do impresso para o digital. Concordo com a idéia proposta pelo Carlos Castilho que é necessário criar um ambiente multimidiático no jornalismo. Já que estamos em pleno século XXI, com a web 2.0 chegando ao seus conformes, é necessário utilizarmos das ferramentas disponíveis para melhor aplicarmos os conceitos jornalísticos. Contar o fato através de vídeo e áudio não é para quem quer e sim para quem sabe, afinal se fosse tão fácil assim veríamos claramente a utilização pelos grandes meios de comunicação do país. O fator econômico é simplesmente uma barreira inicial. Após bem trabalhado e demonstrado fundamental a utilização dos recursos de multimídia na comunicação digital, é certo que as empresas voltaram seus investimentos para esta área tão promissora.

  11. Comentou em 27/09/2009 Lenin Araujo

    Lendo este ótimo texto, me lembrei de priscas eras, quando minha professora de Francês afirmava que só teríamos o completo domínio de um segundo idioma quando prescindíssemos da tradução para compreender o que estava sendo dito ou escrito. Ela afirmava que deveríamos aprender a pensar em Francês.

  12. Comentou em 27/09/2009 Jaime Collier Coeli

    Com certeza os trabalhos de exumação dos restos mortais do jornalismo precisam de procedimentos fixados para que se estabeleça uma rotina, que será, por si só, uma nova fonte de trabalho e, naturalmente, de salarios. Contudo, algumas discussões se assemelham à velha questão da diferençaentre duas afirmativas, a saber: 1) ‘Que me importe que a mula manque, eu quero é rosetar’; e 2) ‘Pouco se me apraz que o muar claudique, pretendo me refestelar’. De fato, saber qual das duas afirmativas é esteticamente preferivel ou moralmente duvidosa não trará luz alguma à questão da ‘mula atolada no brejo’, nem assegurará que consiga se recuperar sem alimento. De fato, a mula foi pro brejo e vai morrer de fome. A gente inventa alguma besteira para ganhar o troco. E continuaremos a discutir se a rainha Bess era virgem e se o pedroca era religioso. Amem.

  13. Comentou em 26/09/2009 Zemário Santos

    Não vejo dificuldade na justaposição de recursos audiovisuais com o texto narrativo no jornalismo online. Esse ‘meio’ ainda engatinha, é certo, pois ainda não alcançou nem mesmo uma linguagem própria. Mas, é normal que evolua com o tempo e se adapte, assim como ocorreu com o jornalismo impresso com o surgimento da fotografia.
    De uma coisa pode-se ter certeza: apesar de já ter ouvido que ‘uma imagem vale por mil palavras’, nenhum dos tantos recursos visuais utilizados na internet, para transmitir uma notícia, terá validade interpretativa sem o texto jornlístico(narrativa).

Código Aberto

x

Indique a um amigo

Este é um espaço para você indicar conteúdo do site aos seus amigos.

O Campos com * são obrigatórios.

Seus dados

Dados do amigo (1)

Dados do amigo (2)

Mensagem