Terça-feira, 21 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

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Jovens de hoje são a principal ameaça ao futuro dos jornais

Por Carlos Castilho em 02/04/2009 | comentários

O número de jovens com menos de 30 anos e que não lêem jornais cresce de forma impressionante. Dou aulas em faculdades de comunicação há três anos e a cada semestre faço uma pesquisa entre os alunos sobre leitura de jornais diários.


 


Esta semana, numa turma de 24 alunos, apenas um admitiu ler jornal todo o dia. Mas não é por prazer ou desejo de estar bem informado. O aluno trabalha na seção de relações públicas de  uma empresa. Outra coisa que me impressionou foi a forma como manuseiam jornais. Noventa por cento dos alunos começaram a folhear o jornal pela última página, ignorando totalmente a manchete principal da capa.


 


Apesar de o jornal parecer algo meio extraterrestre para esses alunos, todos eles estão razoavelmente bem informados e a fonte é uma só: a internet. Na rede, apenas a minoria acessa diretamente os sites de notícias e mesmo assim só para procurar temas que os interessam diretamente. A grande maioria se informa mesmo é por meio da troca de mensagens pela Web.


 


Eles têm um conhecimento apenas superficial do que os jornais tratam na primeira página. Sabem que há uma reunião de “um negócio chamado G-20” relacionado à crise global mas preferem saber mais sobre cultura, esportes, ecologia e lazer.


 


Dificilmente algum dos meus alunos vai ler este post porque o que acabo de escrever é para eles um assunto sem nenhuma novidade, há muito tempo. Mas é impressionante como para os mais velhos isto soa como algo surpreendente. Esta duplicidade de atitudes é que impressiona, porque, afinal, estamos tratando de um mesmo canal de informação, numa mesma sociedade e num mesmo momento histórico.


 


Revela a nossa dificuldade em entender um processo que já vem rolando há tempos. Mostra ainda a resistência atávica dos jornalistas em mudar rotinas como a ênfase dada à edição da primeira página, quando os leitores jovens preferem começar pela porta dos fundos do jornal.


 


Se os dados presentes já impressionam, quando vemos a questão em perspectiva a situação fica ainda mais impactante. Daqui a 10 ou 15 anos, esses alunos estarão começando a ocupar posições num mercado onde a informação é a matéria-prima mais valorizada. Se eles hoje eles já não lêem mais jornal, daqui a uma década e meia, notícia em papel só mesmo em museu. Quem comprará jornais, então?


 


É esta a equação que a indústria dos jornais mostra tanta dificuldade em entender. O seu presente pode não ser o pior dos mundos, mas o futuro é seguramente dramático segundo todas as previsões feitas por especialistas nacionais e estrangeiros.


 


A maioria dos jornais assume agora a preocupação como rotina ao mesmo tempo em que procura frenéticamente soluções em meio a malabarismos financeiros ou gráficos. Mas a grande questão é como restabelecer a relevância do jornal para o público nos próximos 10 a 15 anos.


 


A busca de fórmulas de sustentação econômica e de novos modelos de receitas é essencial, mas só funcionará se estiver apoiada naquilo que é central a um veículo de comunicação: o binômio relevância e credibilidade. E nisto pouca coisa está sendo feita, porque o primeiro passo é restabelecer a conexão profissional / leitor.


 


Os jornais têm montanhas de dados sobre o que pensam e desejam os leitores. Também conhecem há décadas, porque foram os primeiros a anunciar, qual o potencial da internet em matéria de informação.  Matéria-prima para a reflexão eles sempre tiveram e mais do que qualquer outro segmento empresarial.


 


O que faltou foi agilidade e decisão para mudar um modelo de negócios que, nos anos 1980 e 90, parecia insuperável. Houve muita demora em perceber que a Web e o computador não eram um telégrafo mais rápido e uma máquina de escrever mais sofisticada. Quando os jornais se deram conta que o que estava surgindo era uma realidade informativa totalmente nova, a rotina, corporativismo e auto-suficiência das redações impediram que o público fosse levado em conta na busca de um novo modelo de negócios.


 


Muitos jornais estão abrindo agora suas páginas Web para comentários, fotos e até vídeos enviados por leitores. A estratégia pode dar algum resultado, mas vem tarde demais e, na verdade, apenas empurra ainda mais o público em direção à internet, onde as possibilidades de participação e interação oferecidas por outros sites são incrivelmente mais sofisticadas e atraentes do que as dos jornais, especialmente para os jovens.


 

Os jornais devem se preocupar não com o público jovem atual porque este já está perdido. Os profetas do apocalipse afirmam que a indústria dos jornais acaba em 2014, quando os jovens de hoje estarão na faixa dos 30 anos. Talvez o prognóstico seja exageradamente pessimista, mas ele tem tudo para ser inevitável, se nada for feito agora em matéria de participação efetiva do público leitor na busca de um novo modelo editorial e financeiro para os jornais impressos. 

Todos os comentários

  1. Comentou em 15/04/2009 José Casadei

    Acredito que os jornais perdem leitores porque há outras plataformas que oferecem o mesmo produto com mais velocidade e menores custos para o cunsumidor. Afinal, o consumidor não enxerga custo na TV aberta, ba rádio e na internet, apesar d esta última ter custos diretos mais evidentes. Há sobreposição na oferta do mesmo tipo de conteúdo – a notícia factual – e os jornais imprensos estão em desvantagem. O impresso, no entanto, em alguns diferenciais. É o único que pode ser facilmente transmitido de mão em mão e é evidente que ele a informação nele transmitida apresenta um grau de retenção melhor pelo consumidor. A notícia lida no impresso pode ser compartilhada também, mesmo que aparentemente de uma forma pré-histórica em comparação à informação online. Os impressos, da mesma forma, podem atrair leitores interessados em textos mais densos, longos, profundos – análises mais completas. Dessa forma, não é competindo com o noticiário do dia a dia, onde 90% das notícias têm origem em fontes governamentais, que o impresso conseguirá sobreviver em um ambiente de competição forte com outras plataformas de mídia. Por fim, acredito que o desafio de criar novos leitores está longe de ser tentado. Basta lembrar que as crianças e os adolescentes são lembrados apenas uma vez por semana pelos impressos – quando estes publicam os suplementos semanais para aqueles. Abraço.

  2. Comentou em 03/04/2009 Jéssica Botelho

    É decepcionante admitir, mas essa é a mais pura verdade.Faço o 1o semestre de Jornalismo, e escolhi esse curso também por que desde cedo fui apaixonada pela leitura,que é absolutamente fundamental na áera, o que não acontece com meus colegas de turma.Todos os dias na entrada da universidade, compro um jornal, um ou dois colegas me pedem emprestado, os outros… Enfim, espero poder mudar essa visão da geração a qual faço parte, esforço não me falta em matéria de conscientização com os que conheço.Acredito que além do interesse pessoal de cada um, a família desde cedo deve incentivar a leitura dos pequenos, para que ainda tenhamos esperança.

  3. Comentou em 03/04/2009 Eduardo Patriota Gusmão Soares

    Eu concordo que a nova geração tende a NÃO ler jornais. A própria dinâmica da web mostra que o jornal impresso JÁ É, na verdade, peça de museu. Eu não leio jornal. Não gosto daquelas folhas enormes e que sujam as mãos, além do conteúdo caótico. Eu SÓ me informo pela web, buscando exatamente o que eu quero e, em questão de segundos, confrontando opiniões com blogs e gente da direita e da esquerda, capitalistas e comunistas, brancos e negros, pobres e ricos, etc. Este é um tipo de enriquecimento que o jornal impresso NUNCA conseguirá suprir.

  4. Comentou em 03/04/2009 Jose Junior

    Carlos,

    Eu acho que muita coisa está em jogo e faltou ser dita. Atualmente estudo na UNIP, universidade que nunca foi conhecida por ter os melhores alunos. Muitos dos meus colegas de classe aparecem com o Metro ou com o Destak em mãos. Vejo outros na universidade também.

    No ano passado, eu e uns colegas de classe realizamos uma pesquisa na universidade sobre um ponto que descobrimos ser importantíssimo: O formato do Jornal. Não é incomum, em outros países, o formato tablóide como oficial. O tamanho do jornal hoje, já é um incômodo para o universitário, ou aquele que estuda e trabalha. Convenhamos: É um tanto difícil manusear um jornal no ônibus ou no metrô, ainda mais caso se falarmos de São Paulo.

    O Jornal tradiciona é enorme, dificil de manusear. Isso já afasta um pouco deste público, acredito eu. Aos poucos eu observo neste cotidiano nada pitoresco, Metro e Destak ganhando força. Jornais onlines são práticos. Você lê ali, as hotlines em questão de segundos. Quem tem um laptop, toma uma cerveja no bar do Augusto e lê o jornal com a wireless que tem lá.

    São as minhas considerações.

    Um abraço,
    Junior

  5. Comentou em 02/04/2009 Adir Tavares

    Os jovens não leem jornais mesmo, aliás, conheço jornalista que dá aquela folheada com as pontas dos dedos no jornal onde trabalha e sai correndo para lavar as mãos; as empresas que fabricam os impressos, deveriam distribuir gratuitamente nas escolas secundarias e universidades exemplares de jornais e revistas, assim, os jovens acostumariam a discutir assuntos que estão em voga, mas do jeito que os jornalões estão tratando os assuntos atualmente, penso que seria melhor os jovens ficarem bem longe dos principais jornais do Brasil!!! dá-lhes internet!!!

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