Quinta-feira, 21 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

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Leitores e jornalistas ante o ‘analfabetismo informativo’

Por Carlos Castilho em 11/11/2014 | comentários

Todos nós conhecemos o velho dito “quem conta um conto aumenta um ponto”. Até agora esta pequena dose de exagero não chegava a causar grandes transtornos, mas tudo isso mudou com o surgimento da internet, das redes sociais e da avalancha informativa. Os pontos adicionados às histórias contadas de boca em boca, de jornal em jornal, de TV em TV se multiplicaram zilhões de vezes transformando a soma dos pequenos exageros num megaproblema.

Todos os nossos comportamentos e valores em matéria de captar uma notícia e passá-la adiante já não conseguem mais dar conta do tsunami de dados contraditórios com os quais entramos em contato diariamente. Nossa rotina informativa foi colocada de pernas para o ar, como pudemos sentir durante as semanas anteriores e posteriores ao segundo turno das eleições presidenciais. Aumentou a incerteza sobre em quem confiar, tal balbúrdia noticiosa espalhada pela imprensa e pelas redes sociais.

Isso coloca a todos nós diante da necessidade de revisar nossos hábitos informativos o mais rápido possível para tentar minimizar os efeitos da cacofonia noticiosa. Trata-se de gastar um minuto antes de passar adiante um dado, fato ou evento para refletir sobre sua veracidade, exatidão e interesses associados. Até agora delegávamos esta função aos jornalistas, mas eles já não conseguem mais dar conta do recado porque aumentou exponencialmente o volume de material que devem avaliar, e também precisam rever seus métodos de trabalho diante do protagonismo assumido pelo público na era digital.

A preocupação com a natureza e características da notícia que recebemos e provavelmente transmitiremos a outras pessoas por telefone, contato pessoal ou redes sociais é o preço que estamos tendo que pagar pela maravilhosa diversidade de dados, fatos e eventos que nos chegam sem parar. Esta revisão de nossas rotinas informativas será um processo que tomará algum tempo antes de tornar-se tão automático quanto nossa reação de proteger os olhos diante de um clarão mais forte.

A transição do ambiente analógico para outro predominantemente digital está nos obrigando a ter que aprender a lidar com a notícia dentro de um contexto de avalancha informativa. Estamos na condição de analfabetos informativos e precisamos aprender a lidar com a nova situação da mesma forma que aprendemos a escrever ou a dirigir veículos. É uma habilidade nova resultante de uma conjuntura tecnológica inédita.

Nesse processo, os jornalistas ocupam um papel fundamental porque serão eles que darão as linhas gerais sobre como as pessoas devem se conduzir dentro da avalancha informativa. A função do jornalista já não é mais só redigir ou narrar notícias como um produto pronto para ser consumido pelo leitor, ouvinte, telespectador ou internauta. A distribuição de notícias já está sendo feita por pessoas comuns pelo Twitter, chats, correio eletrônico e redes sociais.

Por dever de oficio e por formação universitária, o jornalista é, pelo menos na teoria, o personagem dotado de maior conhecimento sobre o processo de circulação de notícias e informações. Caberia então a ele a responsabilidade de orientar as pessoas e funcionar como um conselheiro ou instrutor na adaptação a um problema totalmente novo no quotidiano de boa parte da humanidade.

Trata-se de uma nova função que deveria ser incorporada o mais rápido possível aos currículos das escolas de jornalismo e comunicação, ao mesmo tempo em que as organizações de jornalistas teriam à sua disposição um tema para discutir a nova relação entre os profissionais e o público

Mas mesmo que os jornalistas assumam integralmente essa nova função, ainda assim eles serão poucos em comparação à massa de consumidores de notícias. Isso gera a necessidade de as pessoas desenvolverem a sua própria cultura informativa de forma individual ou em comunidades de informação. Uma modalidade particular de orientação é a recomendação, ou curadoria de notícias, praticada em grupos de pessoas com interesses afins. 

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