Quinta-feira, 23 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

CÓDIGO ABERTO > Desativado

Ler jornal ficou melhor

Por Luiz Weis em 14/07/2007 | comentários

Desde ontem, graças à força dos fatos, o noticiário político ficou menos policial – e mais político, no bom sentido que andava sumido por aqui.


A rapina do dinheiro do contribuinte deixou de ser nestes dois dias o tema principal dos cadernos nacionais da imprensa. Grande parte do espaço ocupado pelas muitas modalidades de ‘seqüestro do poder público’, para usar o termo com que o Banco Mundial designa, entre outras coisas, a corrupção, serve agora para levar ao leitor uma questão ligada diretamente ao papel do Estado no mundo de hoje.


Não é que a mídia venha dando à corrupa mais do que ela merece. Ao contrário, por seu tamanho e ubiquidade, o assalto continuado ao erário obriga o jornalismo a cercá-la de atenções. E o desafia a ir além do mero relato dos acontecimentos ostensivos – por exemplo, identificando e expondo as azeitadas engrenagens da impunidade no Brasil, como fez o Globo nas últimas semanas.


Mas é bom para a saúde cívica do país que os jornais não neguem fogo quando confrontados com um fato em relação ao qual, por sua imensa importância, todos quantos se considerem cidadãos precisam do máximo de informação de boa qualidade.


O fato é o projeto de lei complementar enviado quinta-feira pelo governo ao Congresso para mudar o modo como o Estado presta serviços em nove áreas: saúde; assistência social; meio ambiente; esporte; cultura; ciência e tecnologia; previdência complementar do serviço público; turismo; e comunicação social.


Nessas áreas, a responsabilidade direta pela prestação dos serviços caberá a fundações estatais de direito privado, com autonomia gerencial, orçamentária e financeira. Elas poderão contratar pessoal pela CLT, mediante concurso público, como na administração direta, mas com plano de carreira e política salarial própria, sem direito à estabilidade, como nas empresas estatais e sociedades de economia mista.


Terão também mais flexibilidade para comprar bens e contratar serviços. Os recursos que as fundações receberem do Estado ficarão condicionados ao cumprimento de metas de desempenho estabelecidas nos contratos de gestão com o setor do governo que as supervisionará – por exemplo, no caso dos hospitais, o Ministério da Saúde. Os gestores que descumprirem as metas serão punidos.


Para o Globo, trata-se de ‘uma revolução no serviço público’. Para a Folha, o governo teve um ‘lampejo de inovação’. Para o Estado, o projeto abre caminho para ‘uma mudança radical na gestão do setor público’.


O leitor poderá concordar ou discordar – e terá no noticiário desses mesmos jornais argumentos para formar opinião. Não é sempre que se pode dizer isso de uma cobertura. Neste caso, porém, a imprensa:



1. atinou desde o primeiro momento com a relevância do projeto;


2. esforçou-se para descrevê-lo e explicá-lo sem a canga do burocratês; 


3. foi atrás dos pontos fracos ou obscuros da iniciativa;


4. ressaltou que muita água ainda vai passar debaixo da ponte até o projeto virar lei; 


5. e abriu espaço para avaliações – de especialistas, políticos, dirigentes sindicais e, no caso do Globo, de leitores, publicando hoje nada menos de 20 mensagens a respeito.


Um grande erro: ontem, em manchete de primeira página, a Folha tascou: ‘Governo quer regras do setor privado para funcionalismo’. Como se a (delirante) intenção fosse a de aplicá-las a todos os servidores públicos.


Informações contraditórias também aparecem. A mesma Folha banca hoje que as fundações de direito privado ‘não terão de divulgar gastos’. Já no Globo se lê que ‘o contrato de gestão, a ser firmado entre a fundação e o ministério ao qual estiver vinculada, terá que ser publicado na internet, assim como os dados de cumprimento das metas de desempenho estabelecidas’.


Seria querer demais que um desses – ou outros – jornais oferecesse ao leitor o proverbial ‘tudo sobre’ o projeto. Mas, a julgar pelas edições deste sábado, se tivesse de ler um só, ficaria com o Globo. Pelo espaço que lhe dedicou, pelo comentário da colunista Teresa Cruvinel, pela entrevista com o ‘pai da criança’, o ministro do Planejamento Paulo Bernardo – e por ter trazido o leitor para o centro do debate.


P.S. Por que Lula foi vaiado


Nenhum jornal se deu o trabalho de apurar, ouvindo a galera, por que o presidente Lula foi tão vaiado na abertura do Pan, a ponto de desistir de declarar abertos os jogos.


Na chamada da primeira página, o Globo resolveu ser espirituoso: ‘Sua alta popularidade não resistiu à máxima do escritor Nelson Rodrigues: o Maracanã vaia até minuto de silêncio.’


Só que o prefeito do Rio, Cesar Maia, do ex-PFL, foi aplaudido – sinal de que o ‘Maracanã’ de ontem não era, por exemplo, o de um Fla-Flu, em matéria de composição social do público. 


***


Os comentários serão selecionados para publicação. Serão desconsideradas as mensagens ofensivas, anônimas, que contenham termos de baixo calão, incitem à violência e aquelas cujos autores não possam ser contatados por terem fornecido e-mails falsos.

Todos os comentários

  1. Comentou em 16/07/2007 Gilvan Vanderlei

    O LULINHA PAZ E AMOR só foi efusivamente vaiado no maracanã por que lá não havia as conhecidas ‘claques’ dos comícios de inaugurações para aplaudí-lo.

  2. Comentou em 16/07/2007 Marcos Roma Santa Roma Santa

    Amigos(as) queridos(as),

    está na hora de rompermos com o criminoso círculo de cumplicidade dos grandes meios de comunicação, em torno do tema ‘Vaia política ao Lula’. Não se trata de defender o Presidente, embora, neste caso, ele mereça nossa solidariedade. Trata-se de romper o círculo de mentiras com que as ‘agências’ de informação de direita, no Brasil, como a Globo, a Veja et caterva, nos envolvem cotidianamente, buscando manipular nossos corações e nossas mentes, em favor de sues projetos obscenos.
    Chega de ouvir a palavra democracia como justificativa para todas as bandalheiras, inclusive midiáticas, praticadas pela direita deste país. E aos que com empáfia e arrogância arrotam frases do tipo: ‘Direita e esquerda são categorias mortas’ – respondemos: ‘Só estão mortas para os covardes, que buscam encobrir seus espúrius interesses de ganho com a concentração de riquezas e a expansão da miséria, inclusive espiritual, lançando mão de uma geléia geral de mentiras e mediocridades high-tech que imperam, hoje, nos meios de comunicação deste país.’
    Abaixo a fabricação de mentiras, que, manipuladas mil vezes, viram ‘verdades’!
    Marcos Roma Santa.

  3. Comentou em 16/07/2007 Gilberto Menegoli de Almeida

    Se os senhores se derem ao trabalho de ver no Youtube o video sobre o ensaio da abertura do Pan, poderão verificar que até no ensaio quando é citado o nome do presidente acontece as vaias, e fica mais evidente quando ouvimos os aplausos ao prefeito César Maia.
    Tomei conhecimento também da distribuição de ingressos para a abertura e também que muitos dos voluntários são funcionários do alcaide que foram dispensados do trabalho para serem voluntários. Portanto, diante dos fatos, chego à conclusão que foram realmente orquestradas as vaias.
    Se querem ver o video estou colocando o link:

    http://www.youtube.com/watch?v=nOihoP-MpP8&mode=related&search=

  4. Comentou em 16/07/2007 José Paulo badaro

    De pleno acordo! Orquestrada ou não a vaia contra o presidente não partiu de gente igual àquela que o elegeu, mas da classe média presente no Maraca (diga-se de passagem emergente de acordo com os excelentes índices econômicos deste Governo!), de modo que o mais provável é que o prefeito maluquinho, de agora em diante, entre em definitivo na alça de mira do PT, isto é, imediatamente após o encerramento do PAN, já que um custo que superou várias vezes o orçamento inicial não passou e não passará na goela do Tribunal de Contas da União. O Governo Federal, que arcou com pouco mais de 50% da conta ( mas que sentiu na pele a burguesia carioca cuspir no prato que comeu), tem todo direito de exigir uma prestação de contas. Como o Sérgio Cabral está chegando agora e além do mais é aliado, provavelmente ficará de fora. Mas o César Mala, que há muito vinha “errando” no orçamento do PAN ao lado do casal cassado, Garotinho, certamente terá que se explicar. Talvez por isso o alcaide performático tenha saído na frente, orquestrando os apupos contra o presidente…

  5. Comentou em 16/07/2007 Renato Silva

    Luiz, parabéns pela sua lembrança do Cesar Maia ter sido aplaudido. As análises sobre a vaia ao Lula simplesmente estão ignorando esse detalhe. Como analisar ‘racha na sociedade’, ‘insatisfação do povo’ e outras viagens, sem considerar esses aplausos entusiasmados ao Cesar Maia? Pode ter certeza que a classe média/rica não é fã do favelizador da cidade. E se for, acho melhor eu desistir de ser carioca.

  6. Comentou em 16/07/2007 otaciel de oliveira melo

    Algo para refletir: vaias uíssonas para Lula, aplausos concatenados para o César Maia na abertura do Pan. Até parece coisa ensaiada: será que não foi? Aguardem alguma notícia sobre esta possibilidade e uma enxurrada de pesquisas para as próximas semanas sobre a ‘queda na popularidade do Presidente Lula’. Esse pessoal do PSDB e os ‘auto-denominados Democratas’ (ACM, e outros menos falados porque não estão hospitalizados), junto à imprensa igualmente golpista (tão ridicularizada por Paulo Henrique Amorim no seu Blog Conversa Afiada), não perdem a oportunidade para demonstrar descontentamento diante da insistente popularidade do Presidente Lula. As vaias sugerem mais uma Kamelada – proponho este nome para qualquer tentativa ensaiada de desmoralização do Governo Lula, com a anuência ou conhecimento do Sr. Alí Kamel da Rede Globo. Mas, se cairem na besteira de fazerem as tais pesquisas por região, eu vos garanto que, aqui no Nordeste, de onde envio esta mensagem, a popularidade do homem está acima da estratosfera. É só conferir.

  7. Comentou em 15/07/2007 Norma M. Monteiro

    Achei uma grosseria, uma falta de educação do público presente no PAN que, por representar a ‘elite’, a julgar pelos preços dos ingressos, deveria ter educação e respeito. Foi uma vergonha que manchou a festa de abertura criando um constrangimento geral para as autoridades presentes. E logo com o Lula, que contribuiu para o brilho da festa com apoio financeiro, moral, etc.

  8. Comentou em 15/07/2007 Ivan Moraes

    Quer dizer que Cezar Maia eh adorado assim por elite?!?! Perdao, a gente mais inguinorante nao sabiamos. 4 bilioes pra mostrar ao mundo que o Brasil eh uma burocracia corrupta? A gente mais inguinorante so cobramos 3.9 bilioes. Mais privadas, menos pretensao, cariocada: quantos daqueles ingressos da abertura foram ‘doados’, e pra quem foram ‘doados’?

  9. Comentou em 15/07/2007 Ivan Moraes

    Falando em vaia de 4 bilioes, o Pan ja acabou ou vai continuar a encher o saco um dia mais? Nao havia maneira mais barata de elite carioca vaiar o presidente ou eles nao tiram o cavalinho da chuva porque essa vaia estava tao lucrativa?

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