Sexta-feira, 19 de Outubro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1009
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Lula ‘deu a senha’ para o PT imitar Edir Macedo

Por Luiz Weis em 21/02/2008 | comentários

Sim, o nome completo do jornal Valor é Valor Econômico, mas nem por isso se justifica a ausência de qualquer menção na primeira página de sua edição de hoje ao materiaço político, ainda por cima exclusivo – apurado pelos craques Raymundo Costa e Cristiano Romero – “Ações da Universal encorajam PT”, precedido do antetítulo não menos revelador “Posicionamento de Lula reforça disposição do partido de reagir à imprensa’.

É o texto mais importante do noticiário nacional do dia – e vai repercutir por muitos mais.

Eis a reportagem [negritos acrescentados]:

“Ao defender tacitamente a abertura de dezenas de ações judiciais da Igreja Universal do Reino de Deus (Iurd) contra jornalistas e órgãos de imprensa, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva deu força a um movimento em curso no PT, onde há algumas semanas já se discutia a hipótese de militantes espalhados por todo o país fazerem o mesmo, sempre que considerarem que Lula ou o partido se sentirem ofendidos por uma reportagem. O assunto foi discutido recentemente quando os jornais colocaram o PT em destaque ao se referirem a supostas irregularidades, atribuídas ao PTB, cometidas na Empresa de Correios e Telégrafos.

Lula deu a senha, segundo petistas, quando afirmou que a liberdade de imprensa pressupõe o jornalista escrever o que quiser e, quem for atingido por isso, ter o direito de reivindicar reparos na Justiça. “No dia em que a ´Folha de S. Paulo` se sentir atingida pela Igreja Universal, ela vá processar a Igreja Universal. No dia em que a Igreja Universal se sentir atingida pela ´Folha de São Paulo´, ela vá processar a ´Folha` -– e, assim, a democracia vai se consolidando no Brasil’, disse Lula na segunda-feira, numa declaração que deixou eufóricos tanto deputados petistas quanto ministros do governo, que pensam da mesma forma que ele.

Lula referia-se à série de ações movidas pela Universal contra a ‘Folha’, contestando reportagem publicada pelo jornal sobre as atividades empresariais da igreja e seu líder, Edir Macedo. O número de ações – 56, em 20 Estados, além de outras 35 movidas contra o jornal baiano A Tarde e cinco contra o carioca Extra’ – fez juristas alegarem que seus autores estariam promovendo ‘litigância de má-fé, isto é, o uso da Justiça para atingir um objetivo ilegal – a intimidação da imprensa e o cerceamento do direito à defesa.

Na terça-feira, o vice-presidente da Associação Nacional dos Jornais (ANJ), Júlio César Mesquita, classificou a estratégia da Igreja Universal de ‘escalada obscurantista’ contra a liberdade de imprensa. No PT e em alguns setores do governo, as ações contra a imprensa reavivaram um sentimento de vingança contra a mídia, adormecido desde a crise do mensalão. ‘Processar jornalistas não é cercear a liberdade de imprensa’, comentou um ministro.

No partido, a idéia é que militantes, em cada Estado da federação, que se sintam ofendidos por reportagens contra o presidente e o partido acionem jornalistas e órgãos de imprensa responsáveis pela publicação. A experiência da Universal também pode ser aprimorada, segundo as discussões em andamento. Por exemplo: o texto das ações movidas em cada Estado deve ser diferente, para não deixar margem para que a Justiça os considere ‘litigantes de má-fé’. A exemplo do que ocorre no governo, o PT também se acha vítima de preconceito da grande imprensa.

Ao comentar o assunto, o presidente Lula, na realidade, defendeu um aliado do governo. Após ter sido demonizado pela Igreja Universal nas eleições de 2002, recebeu seu apoio na campanha da reeleição, em 2006. Nesse período surgiu também o PRB, que é chamado em Brasília de ‘partido do vice’ (José Alencar), mas que na verdade é um braço político da Universal.

A ligação do governo com a bancada evangélica vai além do PRB. Deputados evangélicos, segundo fontes, recebem tratamento preferencial do Palácio do Planalto, independentemente da sigla em que se encontram abrigados. Lula participou, por exemplo, da inauguração da Record News, um dos braços de comunicação da Igreja Universal, ao lado do bispo Edir Macedo, o que causou irritação e atrapalhou uma reaproximação então em curso com a Igreja Católica. ‘Lula não tem preconceito contra a Igreja Universal’, disse ontem um auxiliar direto do presidente.

A declaração de Lula em Vitória surpreendeu até antigos aliados do presidente, como o deputado Chico Alencar (PSOL-RJ), pelo fato de ele ter tomado partido de um dos lados em uma demanda judicial, o que não seria de seu feitio. ‘É evidente que se trata de uma ação orquestrada (os processos da Igreja Universal contra a Folha e os outros dois jornais)’, diz Chico Alencar. ‘Só não vê isso quem tem medo de perder os votos do rebanho’, acrescentou.

No Palácio do Planalto, ministros e assessores do presidente negam a existência de um acordo político com a Igreja Universal. Segundo eles, o governo tem na sua base de apoio parlamentar tanto representantes da Iurd, como o senador Marcelo Crivella (PRB-RJ), quanto da Igreja Católica. As ações da Universal, de acordo com esses assessores, contra a ‘Folha’ e os outros jornais não preocupam Lula.

O Palácio do Planalto também nega que o presidente tenha defendido a abertura de ações contra a imprensa. ‘Lula não falou isso. O governo não dá apoio às ações. O que ele disse é que, numa democracia, todo mundo tem o direito de escrever o que quiser, mas quem se sentir atingido também tem o direito de contestar o que foi escrito’, sustentou um ministro. ‘Esse é um problema que afeta grupos privados. O governo tem que garantir o Estado de Direito e a liberdade de imprensa, mas não cabe ao governo impedir que um cidadão vá à Justiça’, observou um assessor.

Se a lei permite que haja essa chicana jurídica, com a abertura de ações em vários Estados, o governo não pode fazer nada’, acrescentou um colaborador direto do presidente. ‘Os jornais, por sua vez, têm todo o direito de se defender’, ressalvou. Segundo esse auxiliar, embora o governo não queira entrar no mérito do que considera uma ‘disputa judicial’, é ‘preocupante’ a forma como a Iurd arrecada fundos para montar seus negócios – por meio da cobrança de dízimos dos fiéis. Este foi um dos temas levantadas pela reportagem da ‘Folha’.”

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