Sexta-feira, 24 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

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Maia diz que novela invade telejornalismo

Por Mauro Malin em 20/02/2006 | comentários

O prefeito do Rio de Janeiro, Cesar Maia, disse em entrevista ao Observatório da Imprensa, hoje (20/2), que a busca de audiência pela Rede Globo afetou negativamente o jornalismo da emissora. Maia está convencido de que a audiência do Jornal Nacional caiu antes do sucesso da novela da Rede Record que concorre na mesma faixa horária. Para Maia, fatos banais são transformados em novela. “Passa-se a usar a narrativa, que é uma maneira de gerar atratividade para a notícia, dentro da lógica da novela, carro-chefe de audiência, e se vai afetando a qualidade do jornalismo. Isso significa que deixa de ser noticiário e passa a ser um misto de noticiário e entretenimento”, analisou. Ele criticou o encurtamento do tempo dado ao noticiário sobre política.


A seguir, trechos da entrevista.


Gostaria de falar sobre a busca de audiência em detrimento do jornalismo, sobre a qual o senhor escreveu no dia 13 passado. O senhor chega a sentir que o espetáculo se sobrepõe à gravidade intrínseca das questões, desfazendo a hierarquia do noticiário?


Maia – Essa é uma questão conflitiva na mídia de hoje. Porque os meios de comunicação, principalmente desde os anos 1930, no Brasil, e antes em outros países, ganharam independência da política. A origem do jornal é uma representação da política. É a opinião na política. E há o jornal literário, de outro lado, fazendo seus comentários a respeito de teatro, coisas do gênero. A publicidade entra liberando a imprensa da dependência do dinheiro da política. Isso é muito bom. Progressivamente, os meios de comunicação passam a ter a lógica da publicidade.


Os meios de comunicação não vendem entretenimento e notícia. Vendem audiência, que traz publicidade, que traz faturamento. A lógica do jornalismo ou do entretenimento nos meios de comunicação tem um limite. O limite é a audiência. A direção comercial dos meios de comunicação passa a ser um elemento decisivo, interativo com a direção técnica e com a direção jornalística.


Nós vimos agora esse caso da TV Globo e da TV Record. Eu peguei a audiência do Jornal Nacional desde janeiro de 2005 até janeiro de 2006 e firmei a convicção de que o Jornal Nacional perdeu audiência antes, e, depois, aqueles que não queriam ver o Jornal Nacional caminharam em direção a programas novos. No caso, se encontraram com a novela da Record. Mas não foi a novela da Recordo que tomou ninguém do Jornal Nacional. Foi uma saída do Jornal Nacional.


Durante um tempo não há problema para a TV Globo em perder audiência, porque ela continuará faturando o que fatura, mas a médio prazo isso gera um risco, porque pode afetar o próprio faturamento. Eles têm tempo, a curto prazo.


Minha opinião é que a busca de recuperação de audiência afetou o caráter jornalístico. Por exemplo, quando se tem um caso de um médico que burla, que não tem diploma de médico e atende as pessoas, isso é notícia para um minuto. “Fulano de Tal foi pego pela Polícia Federal”, aparece a fotografia dele, aparece talvez uma imagem dele entrando preso em algum lugar. Talvez se passe o microfone para a Dona Maria, que diz “Eu fui atendida, não sabia que ele era um médico falso”. Mas não, se transforma esse fato, com câmera oculta – e que nem precisava de tanta câmera oculta assim –, se transforma esse fato numa novela. Vai-se para o princípio da novela. Tem-se uma narrativa.


Começa com a descoberta do fato, a investigação, as pessoas que estão sendo fraudadas, uma consulta com câmera oculta, a Polícia chegando com a câmera atrás, e a conclusão. Isso transforma uma notícia de um minuto numa notícia de cinco, seis minutos. Passa-se a usar a narrativa, que é uma maneira de gerar atratividade para a notícia, dentro da lógica da novela, carro-chefe de audiência, e se vai afetando a qualidade do jornalismo. Isso significa que deixa de ser noticiário e passa a ser um misto de noticiário e entretenimento.


É uma situação difícil. Eu não queria me colocar na pele da direção de uma emissora que, no caso do Grande Rio, por exemplo, caiu de 43% a audiência, na média, em abril, maio, junho de 2005, para 29% – estou falando do Jornal Nacional todo, não apenas do ponto baixo, que é o do início, com a novela da Record. Imagine isso nos Estados Unidos, onde a Arthur Andersen mede a audiência a cada minuto, e tem uma tabela. A emissora contratou uma publicidade para as oito horas da noite. Mas não sabe quanto será pago. Se a audiência foi para 30%, paga-se muito. Se vem para 10%, paga-se pouco. Não se sabe o tipo de faturamento que se vai ter, porque depende diretamente da audiência. Nós vamos chegar nisso, daqui a cinco, dez anos. É uma situação difícil, delicada. Não é uma decisão fácil de ser tomada, mas que prejudica o jornalismo, certamente prejudica.


O senhor mencionaria áreas de cobertura que poderiam ter sido mais valorizadas?


Maia – A cobertura do fato político sai prejudicada no tempo, porque, ao invés de se aprofundar a notícia política, que sempre tem no mínimo dois lados, o do governo e o da oposição – isso é feito de forma centimetrada no caso da BBC, por exemplo -, ela é transformada numa notícia quase que simplesmente informada, com pouca linha de observação, de interpretação.


Outra coisa são os blocos de trinta minutos. O intervalo comercial, nos noticiários, é muito importante para quem assiste, porque no intervalo se faz o comentário da notícia, o que se achou, se opina. Quando se entra com um bloco de trinta minutos as pessoas são levadas a ficar simplesmente numa posição contemplativa. No caso do Jornal Nacional isso é muito importante para quem vê. Se quem vê não comenta, termina-se perdendo qualidade.


O senhor acha que existe um conflito com postulados éticos?


Maia – Certamente. A questão ética tem que ser bem entendida. Não se restringe à honestidade pessoal no sentido de ganhos e vantagens pessoais. O presidente Fernando Henrique Cardoso, num discurso numa universidade, alguns anos atrás, falou que a ética na política não é exatamente a ética pessoal. Ele não falou que o político era desonesto por isso. Falou que a ética política envolvia algum tipo de verossimilhança, algum tipo de discurso enviesado, porque envolvia a lógica do poder. É a mesma coisa em relação aos meios de comunicação. Quando eu falo da ética no jornalismo não estou falando em nenhum tipo de falta pessoal de ninguém. Estou falando que, na medida em que o jornalismo precisa ficar submetido, no limite, à lógica da direção comercial, e ele vai com um tipo de notícia que produz audiência mas não produz informação com vistas à opinião, tem-se aí uma questão ética a ser resolvida.


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